sábado, outubro 06, 2007

Um irresistível convite para a festa

Paulo Guedes, Revista Época

Um fator histórico decisivo para a sorte dos mercados financeiros globais tem sido a postura do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Seu ex-presidente Paul Volcker foi um dos temíveis “falcões” nos anos 80, derrubando uma inflação de dois dígitos mesmo ao preço de derrubar junto a produção e o emprego, dando origem a uma enorme crise financeira nos países emergentes excessivamente endividados.

Seu sucessor, Alan Greenspan, não chegou a ser enquadrado entre os “falcões” (defensores da política monetária restritiva) ou entre as “pombas” (defensores do afrouxamento de liquidez), embora tenha sido uma “pomba” muito bem disfarçada. Tornou-se o Senhor dos Mercados, cumprindo aparentemente à perfeição a meta de obter, pela estabilidade de preços, o maior crescimento econômico possível.

Pois bem, sabemos pela postura do Fed em um evento decisivo, na terça-feira da semana passada, que seu no-vo presidente, Ben Bernanke, também se alinha entre as “pombas”. E começa a enfrentar agora os dilemas deixados pelos milagres de seu antecessor. Bernanke atravessou claramente os limites de sua função clássica de “emprestador de última instância” quando derrubou substancialmente o patamar de juros por receio de que os juros derrubassem a economia.

Nesse episódio, Bernanke inaugurou abertamente uma política monetária “ativista”. E os mercados internacionais registraram seu impacto. As bolsas explodiram para cima. Os preços do petróleo, do ouro e das demais commodities também subiram fortemente. E o dólar continua se dissolvendo nos mercados de moedas, perdendo continuamente sua função de reserva de valor para o euro.

Aplica-se tanto a Greenspan – que inaugurou um período de três ou quatro anos de juros reais negativos, dissipando o valor do dólar nos mercados internacionais – quanto a Bernanke uma profecia que Paul Volcker se recusou a cumprir: “Fazer com que o declínio dos Estados Unidos na economia mundial ocorresse de forma respeitável e ordeira”, como registra em As Mudanças do Destino: o Dinheiro do Mundo e a Ameaça à Liderança Americana (1992).

Ao derrubar os juros, o Fed quis reduzir o impacto da crise. E tornou a bolsa brasileira ainda mais atraente

É, portanto, inequívoca a nova postura do Fed de Bernanke: a reflação ou, segundo o dicionário Aurélio, “a política econômica que visa à retomada do crescimento, pelo estímulo à demanda”. É com esse pano de fundo, e com a espetacular reação dos mercados acionários, que se espera interromper uma dinâmica perversa de contágio que ameaça derrubar o consumo americano e deflagrar o desaquecimento global.

Uma formidável constatação foi o grau de blindagem da economia brasileira, confirmada em mais este episódio, o mais grave da emergente crise americana. É a primeira vez em décadas que não fazemos o papel de bandido em filmes de crises internacionais. O dólar afundou novamente diante do real, recuaram também as taxas de juro e a bolsa atravessou os 60.000 pontos, registrando nova máxima histórica.

É bem verdade que a desaceleração da economia americana está apenas no começo e que as “pombas” do Fed não têm o poder da cura que prometem – apesar dos importantes efeitos de suas políticas nos mercados financeiros. Teremos de monitorar o grau de aprofundamento da crise nos Estados Unidos e seus possíveis impactos internacionais. Só uma desaceleração global que derrubasse os níveis de comércio e os preços das commodities nos atingiria substancialmente. Mas, por enquanto, a reflação lá é um irresistível convite para a festa aqui.