Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
O IBGE divulgou nos jornais de ontem, quinta-feira, como um desfecho de forte impacto, o crescimento verificado em 2007 no Produto Interno Bruto, de 5,4 pontos em relação ao desempenho econômico do Brasil no ano de 2006. O marketing, sem dúvida, foi muito bem feito, especialistas realçaram o resultado obtido, mas este a meu ver só se destaca porque o País havia avançado apenas 2,4 por cento no confronto anterior.
Por que não significou um salto no espaço e não representou o encontro do tempo perdido, para citar o clássico de Proust? Porque a inflação registrada nos últimos doze meses atingiu 4,3 por cento, pelo mesmo IBGE, e a população aumenta 1,2 por cento ao ano. Parece portanto ter havido um empate. Não retrocedemos, como no tempo de Fernando Henrique Cardoso, mas também não avançamos. As melhores edições sobre o trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística foram as desta TRIBUNA DA IMPRENSA, matéria não assinada, e da "Folha de S. Paulo", comentada por Fernando Canzian e Janaina Lage.
O IBGE afirmou que principalmente dois fatores sustentaram o crescimento do PIB: forte aumento da massa salarial e dos investimentos produtivos (há investimentos não produtivos?), além da expansão do crédito. Acho que este último item explica melhor. Foi enorme: ela alcançou nada menos que 28,8 por cento, em 2007, em relação a 2006. O percentual de avanço da massa de salários foi matematicamente omitido, deslocado para o nível de consumo familiar.
No caso, 6,5 por cento, sempre de acordo com o IBGE. Então, como se constata, o consumo foi mais sustentado pelos empréstimos do que pelos ganhos do trabalho. Pois se o caminho fosse a remuneração da mão-de-obra, o índice de desemprego teria que ter descido do patamar de 8,5 por cento, como assinalou o último levantamento estatístico, e o salário médio não teria recuado de 1 mil e 100 reais para 1 mil e 42 reais no mesmo período.
Estes índices se chocam com a afirmação de que houve forte aumento da massa salarial. Entre um índice e outro, a informação de que o PIB per capita (Produto Interno Bruto dividido pelo número de habitantes), em 2007, foi de 13,5 mil reais. Mas se o salário médio é de 1 mil e 42, a diferença só pode representar a remuneração do capital, não do trabalho. Como na antiga marcha de carnaval, "minha parte há de estar com alguém".
Não há como atribuir outra explicação lógica ao contraste. E se as vendas do comércio avançaram 7,6 por cento, tal patamar está compatível com a escala do consumo, mas não com o valor dos salários. A explicação só pode, assim, encontrar-se na expansão do crédito. De fato, pois as ofertas concretas sucedem-se em escala impressionante e aparentemente sedutoras. Obtém-se o empréstimo. Mas a que taxas de juros?
Como pagar as dívidas através do passar dos meses? Só sacando sempre para o futuro, à espera de uma oportunidade de melhoria no emprego, a qual, todos sabemos muito bem, custa sempre a vir. Mas esta é outra questão. Mas remete os consumidores ao campo da fantasia. E sem fantasia a vida perde muito de seu encanto. O IBGE não relacionou somente estes aspectos. Mas outros dados. Vamos a eles. As esportações - êxito fantástico do governo Lula - cresceram 6,6 pontos, portanto ultrapassaram a faixa dos 150 bilhões de dólares.
No governo FHC, atingiam apenas 70 bilhões (de dólares). As importações aumentaram 20 por cento. Desta forma ultrapassaram a casa dos 100 bilhões de dólares. Aí começa a se explicar a evolução do PIB. Afinal de contas, o que ingressa em nosso País, sem dúvida, incorpora-se ao patrimônio nacional de alguma forma. Exatamente ao contrário das remessas de lucros, por exemplo. O produto das exportações também se integra na economia brasileira sob a forma de moedas divisionárias, saldos cambiais.
Os investimentos, de modo geral, públicos e privados, avançaram 13,4 por cento. As aplicações de capital produtivas, já que, como disse há pouco, não pode haver investimentos improdutivos também. Por isso tenho a impressão que o IBGE, no primeiro caso, quis dizer investimentos reprodutivos. Aí sim. Estes números completam o quadro geral divulgado.
Nada foi revelado quanto aos salários. Nem poderia, penso eu. Os vencimentos foram reajustados ao nível da inflação do IBGE no campo das empresas privadas e estatais, e muito abaixo da taxa inflacionária no Serviço Público Federal e nas administrações estaduais, como é o caso do Rio de Janeiro. Portanto, para finalizar, o avanço do PIB decorreu de maiores lucros do capital, seja por intermédio dos auferidos pelos bancos com títulos do Tesouro, seja através da oferta de crédito, cujos resultados deslocam-se igualmente para a rede bancária.
O que prova que a renda per capita não se confunde com a distribuição de renda. Vejam só os leitores. Um dia, eu, minha mulher, Elena, minhas filhas, Tatiana e Vanessa, estávamos num avião para Nova York. No mesmo vôo, o jornalista Roberto Marinho. A renda per capita dos passageiros era altíssima. Porém quanto à distribuição de renda, a presença do dono das Organizações Globo não acrescentava nada.
O IBGE divulgou nos jornais de ontem, quinta-feira, como um desfecho de forte impacto, o crescimento verificado em 2007 no Produto Interno Bruto, de 5,4 pontos em relação ao desempenho econômico do Brasil no ano de 2006. O marketing, sem dúvida, foi muito bem feito, especialistas realçaram o resultado obtido, mas este a meu ver só se destaca porque o País havia avançado apenas 2,4 por cento no confronto anterior.
Por que não significou um salto no espaço e não representou o encontro do tempo perdido, para citar o clássico de Proust? Porque a inflação registrada nos últimos doze meses atingiu 4,3 por cento, pelo mesmo IBGE, e a população aumenta 1,2 por cento ao ano. Parece portanto ter havido um empate. Não retrocedemos, como no tempo de Fernando Henrique Cardoso, mas também não avançamos. As melhores edições sobre o trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística foram as desta TRIBUNA DA IMPRENSA, matéria não assinada, e da "Folha de S. Paulo", comentada por Fernando Canzian e Janaina Lage.
O IBGE afirmou que principalmente dois fatores sustentaram o crescimento do PIB: forte aumento da massa salarial e dos investimentos produtivos (há investimentos não produtivos?), além da expansão do crédito. Acho que este último item explica melhor. Foi enorme: ela alcançou nada menos que 28,8 por cento, em 2007, em relação a 2006. O percentual de avanço da massa de salários foi matematicamente omitido, deslocado para o nível de consumo familiar.
No caso, 6,5 por cento, sempre de acordo com o IBGE. Então, como se constata, o consumo foi mais sustentado pelos empréstimos do que pelos ganhos do trabalho. Pois se o caminho fosse a remuneração da mão-de-obra, o índice de desemprego teria que ter descido do patamar de 8,5 por cento, como assinalou o último levantamento estatístico, e o salário médio não teria recuado de 1 mil e 100 reais para 1 mil e 42 reais no mesmo período.
Estes índices se chocam com a afirmação de que houve forte aumento da massa salarial. Entre um índice e outro, a informação de que o PIB per capita (Produto Interno Bruto dividido pelo número de habitantes), em 2007, foi de 13,5 mil reais. Mas se o salário médio é de 1 mil e 42, a diferença só pode representar a remuneração do capital, não do trabalho. Como na antiga marcha de carnaval, "minha parte há de estar com alguém".
Não há como atribuir outra explicação lógica ao contraste. E se as vendas do comércio avançaram 7,6 por cento, tal patamar está compatível com a escala do consumo, mas não com o valor dos salários. A explicação só pode, assim, encontrar-se na expansão do crédito. De fato, pois as ofertas concretas sucedem-se em escala impressionante e aparentemente sedutoras. Obtém-se o empréstimo. Mas a que taxas de juros?
Como pagar as dívidas através do passar dos meses? Só sacando sempre para o futuro, à espera de uma oportunidade de melhoria no emprego, a qual, todos sabemos muito bem, custa sempre a vir. Mas esta é outra questão. Mas remete os consumidores ao campo da fantasia. E sem fantasia a vida perde muito de seu encanto. O IBGE não relacionou somente estes aspectos. Mas outros dados. Vamos a eles. As esportações - êxito fantástico do governo Lula - cresceram 6,6 pontos, portanto ultrapassaram a faixa dos 150 bilhões de dólares.
No governo FHC, atingiam apenas 70 bilhões (de dólares). As importações aumentaram 20 por cento. Desta forma ultrapassaram a casa dos 100 bilhões de dólares. Aí começa a se explicar a evolução do PIB. Afinal de contas, o que ingressa em nosso País, sem dúvida, incorpora-se ao patrimônio nacional de alguma forma. Exatamente ao contrário das remessas de lucros, por exemplo. O produto das exportações também se integra na economia brasileira sob a forma de moedas divisionárias, saldos cambiais.
Os investimentos, de modo geral, públicos e privados, avançaram 13,4 por cento. As aplicações de capital produtivas, já que, como disse há pouco, não pode haver investimentos improdutivos também. Por isso tenho a impressão que o IBGE, no primeiro caso, quis dizer investimentos reprodutivos. Aí sim. Estes números completam o quadro geral divulgado.
Nada foi revelado quanto aos salários. Nem poderia, penso eu. Os vencimentos foram reajustados ao nível da inflação do IBGE no campo das empresas privadas e estatais, e muito abaixo da taxa inflacionária no Serviço Público Federal e nas administrações estaduais, como é o caso do Rio de Janeiro. Portanto, para finalizar, o avanço do PIB decorreu de maiores lucros do capital, seja por intermédio dos auferidos pelos bancos com títulos do Tesouro, seja através da oferta de crédito, cujos resultados deslocam-se igualmente para a rede bancária.
O que prova que a renda per capita não se confunde com a distribuição de renda. Vejam só os leitores. Um dia, eu, minha mulher, Elena, minhas filhas, Tatiana e Vanessa, estávamos num avião para Nova York. No mesmo vôo, o jornalista Roberto Marinho. A renda per capita dos passageiros era altíssima. Porém quanto à distribuição de renda, a presença do dono das Organizações Globo não acrescentava nada.