sexta-feira, março 14, 2008

O sonho do eterno palanqueiro

Adelson Elias Vasconcellos

O senhor Luiz Inácio sempre será um eterno palanqueiro. Seja a ocasião que for, mas lá estará alguém como eterno candidato a qualquer coisa na próxima eleição. Faz parte da sua personalidade. Numa simples entrevista, ele será capaz de atacar qualquer adversário – com ou sem razão – e, depois, na frase seguinte, se auto-promover sem nenhuma cerimônia. Ah, sem esquecer que “pensar em eleição” só serve para os adversários. Ou seja, o truque, velho e manjado, é sempre acusar os outros pelo crimes que ele próprio não pára de cometer.

Vejam o caso do PAC: antes de ser um programa de desenvolvimento para o país, ele é um pacote criado antes no marketing político, uma vez que, rigorosamente, 90% das obras lá contidas já vinham sendo erguidas em governos anteriores. Além da propaganda enganosa, trata-se de apropriação indébita, ilegítima de um oportunista de olho no palanque. Um mistificador, sem tirar nem por.

Em recente viagem ao Tocantins, Luiz Inácio participou de comício em que enalteceu os pobres, a si mesmo, e ao programa Bolsa Família. A cidade é governada por um prefeito do PT que decretou feriado municipal para celebrar a visita ilustre e, de quebra, turbinou o público de 4 mil pessoas do evento, que foi para lá em ônibus fretados pelo poder público. Quem serviu de claque ganhou quentinhas com arroz, feijão tropeiro, mandioca e carne de sol pela presença. Lula estava no palanque com vários políticos, entre os quais 28 prefeitos de partidos da base do governo. Diante deles, distribuiu títulos de propriedades de lotes irrigados por uma barragem.

E foi justamente nessa situação de discursos inflamados, transporte gratuito, distribuição de comida e de benesses, em um palanque repleto de pré-candidatos à eleição que o presidente Lula acusou a oposição de só pensar em 2010 e de usar a população como “moeda eleitoral”. E, ao melhor estilo Collor de Mello, resolveu passar por baixo de uma cerca e dar uma corridinha lomba abaixo.

Agora leiam o que diz o Correio Braziliense:

Lula entra na campanha para eleger prefeitos-chave
Correio Braziliense, De Denise Rothenburg e Guilherme Queiroz:

De público, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem dito que se manterá afastado das eleições municipais nas cidades onde houver dois palanques aliados ao seu governo. Mas para evitar que termine fora de muitas alianças ou mesmo uma divisão dos aliados capaz de atrapalhar seus planos de fazer o sucessor em 2010, Lula tem conversado com os partidos da coalizão sobre a necessidade de composição em municípios-chave, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife. Em especial, naqueles em que uma desunião da base governista pode terminar por deixar o governo fora do segundo turno ou jogando o PMDB na oposição ao governo no futuro.

É claro que ele está em campanha, afinal, 2008 nos reserva eleições municipais. Mas por que tanto empenho em 2008? A verdade é que a “campanha” do Luiz Inácio não está mirando 2008, e sim 2010. Certo, certo, pela legislação atual ele não poderá ser mais candidato.

Porém, se sua base de apoio conseguir uma estupenda vitória nas urnas agora, embalada pelo pacote marqueteiro-eleitoreiro do PAC, estará sendo irrigado o caminho para um movimento comandado pelos militantes, e com bom apoio político, para mudar-se a legislação, acabando com a reeleição para cargos executivos e abrindo caminho para um terceiro mandato. E, na impossibilidade disto acontecer, tudo será feito para reduzir-se a oposição a pó e o Luiz Inácio colocar alguém do seu time capaz de preparar-lhe a volta em 2014.

O curioso é que o discurso quanto a acabar com a reeleição, muito forte na eleição em 2006, foi posto de lado. Muito na época se disse sobre o assunto, porém, até o momento, ninguém tomou a iniciativa de provocar mudança na lei. Mas isto não significa, por outro lado, que o sonho do terceiro mandato esteja enterrado. Está aguardando o melhor momento para vingar. E, a manter-se a popularidade de Lula no atual estágio, e nada leva crer que ela se reduzirá significativamente, acreditem, final de 2009, começo de 2010, ela retornará com toda a força.

Portanto, o eterno palanqueiro continua em campanha eleitoral permanente (apesar de acusar aos outros), mas esta campanha não é em favor de ninguém a não ser dele mesmo.