domingo, março 23, 2008

O combate à tuberculose

Estadão

No País que se tornou referência mundial no tratamento da aids, a cada ano a tuberculose mata 5 mil pessoas e são registrados 80 mil novos casos da doença. Do total de doentes, 77% se restabelecem totalmente, índice que coloca o Brasil atrás de nações como a China, que já cura 94% dos seus pacientes, da Índia (86%) e do Congo (85%), todos cumpridores das metas firmadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que fixou em 85% a taxa esperada de cura dos doentes atacados por esse mal. O País ocupa a 16ª posição entre os 22 países com maior número de casos da doença no mundo.
Para o diretor do Departamento de Combate à Tuberculose da Organização Mundial da Saúde, Mario Raviglione, não há justificativas para o Brasil não ter alcançado resultados parecidos com os demais países emergentes.
De fato, não há. Como bem lembrou o secretário nacional da Parceria Brasileira Contra a Tuberculose, entidade que reúne várias organizações na luta contra a doença, há mais de um século o agente causador da doença é conhecido e os tratamentos avançaram, tornando-a curável.
O mau desempenho do Brasil mostra, portanto, que os recursos terapêuticos e a rede de saúde não estão sendo usados adequadamente.
Segundo Raviglione, os números consolidados no relatório mundial sobre a situação da tuberculose no mundo indicam a necessidade urgente de o Brasil investir pesadamente no tratamento supervisionado e na melhoria da notificação dos casos. A OMS estima que 45% dos casos não sejam informados às autoridades de saúde brasileiras. A cobertura do tratamento supervisionado é de 86% e, ainda assim, 13% dos doentes abandonam o uso dos medicamentos antes da alta médica.
O abandono prematuro do tratamento e o mau uso de medicamentos colocam o País entre os 45 que já registram a forma Extensive Drug Resistant (XDR) da tuberculose, uma variedade resistente aos tratamentos disponíveis e que leva ao óbito na maioria dos casos.
O coordenador do programa brasileiro de combate à doença, Draurio Barreira, informou em entrevista ao Estado que o governo investe no diagnóstico por meio do Programa Saúde da Família (PSF).
Esse, aliás, é um dos principais e mais efetivos instrumentos a serem utilizados no combate à tuberculose. Além do diagnóstico, as equipes do PSF podem controlar com maior precisão o uso adequado dos medicamentos e oferecer a orientação correta aos portadores da doença e suas famílias.
Do total de casos registrados no País, 20% se concentram em São Paulo, o Estado mais rico da federação. Aqui surgem 21 mil novos casos por ano e 3 mil ocorrências de recaídas. É o maior contingente de tuberculosos do País.
Na capital, a Prefeitura conseguiu reduzir pela metade o número de mortes causadas pela tuberculose no período de 1996 a 2005, passando de 6,1 óbitos para 2,9 em cada grupo de 100 mil habitantes, conforme os últimos dados consolidados de 2006. Ainda assim, a cura de 71,3% dos casos fica longe da meta estabelecida pela OMS (85%).
Portanto, é preciso ampliar programas de atendimento como o tratamento supervisionado instalado na cidade na década de 90. Em 1998, 2,7% dos casos foram acompanhados por um profissional da rede pública para assegurar a continuidade do tratamento. Foram necessários sete anos para que o índice de cobertura chegasse a 50%.
O doente que tem o tratamento supervisionado recebe apoio social para ajudar na recuperação, como cestas básicas e vales-transporte para facilitar a ida ao médico e às sessões de ingestão de medicamentos nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
Em 1998, na capital, 20% dos pacientes abandonavam o tratamento antes de terem alta, índice que caiu para 10,7% em 2006. Atualmente, mais de 95% da rede de UBSs está preparada para identificar novos casos com realização de exames de diagnóstico.