domingo, março 23, 2008

Rumo ao traço

J.R. Guzzo, Revista EXAME

A TV Brasil, cuja existência acaba de ser oficializada pelo Congresso com a aprovação da medida provisória que criou a Empresa Brasil de Comunicação, começou do jeito que sempre se soube que começaria: mal. Nada de bom, como se sabe, pode sair de uma idéia ruim, e a nova televisão do governo preenche todos os requisitos, ou quase todos, para dar o grau AAA de ruindade a uma idéia. Nunca ficou explicado, desde o começo da história, por que o governo brasileiro deveria ter uma televisão -- pelo fato básico, e bastante simples, de que não há possibilidade racional de justificar a presença do poder público no controle e na operação de uma empresa de comunicações. Em compensação, sempre esteve perfeitamente claro que a TV Brasil iria gastar uma montanha de dinheiro. As previsões iniciais eram de que seriam 100 milhões de reais no primeiro ano de operação e 150 milhões no segundo; ela já vai começar, neste ano de 2008, com 350 milhões, um mero acréscimo de três vezes e meia sobre o previsto. Sua estréia como entidade legal, na semana passada, não veio por lei, e sim por uma medida provisória, e assim mesmo como resultado de trapaça regimental e voto simbólico.

A TV Brasil está no ar, de maneira mais ou menos informal, desde o dia 2 de dezembro do ano passado. Até hoje praticamente ninguém percebeu isso -- o que serve para dar uma idéia de quanto o público brasileiro estava ansioso, como sustenta o governo, para assistir a uma programação diferente da que existe hoje na praça. A aprovação da medida provisória serve para oficializar a TV oficial, mas não servirá para lhe dar audiência -- a TV Brasil vai continuar no "traço", como diz o Ibope, da mesma forma como sempre viveram no "traço", sem nenhuma exceção até hoje, todas as emissoras dessa espécie já criadas no Brasil. Da mesma forma como ocorreu na questão dos gastos, dá para imaginar o que vai acontecer no item "quadro de pessoal". Será uma completa surpresa se o novo canal não virar um dos mais promissores e duradouros cabides de emprego da República -- duradouro, sim, porque será mais fácil o camelo da Bíblia passar por uma agulha do que os próximos governos, seja qual for sua origem, acabarem com a TV Brasil. Se o governo que suceder o atual continuar com o PT e a "base aliada", não haverá motivo para isso. Se for da oposição, também não -- quem abriria mão, chegando lá, de uma beleza dessas?

O fato é que a TV Brasil, depois de tudo o que foi dito e repetido, não será uma emissora de televisão pública -- será uma emissora de televisão do governo. Vai atender aos interesses de quem manda no governo, dar emprego a seus protegidos e divulgar as notícias da maneira que o Palácio do Planalto entende ser correta. É muito simples. Como resume o jornalista Eugênio Bucci, que dirigiu a estatal Radiobrás de 2003 a 2007, não existe TV pública sem independência, e a TV Brasil não tem independência. Tem um conselho curador, é verdade, mas ele não participa da escolha dos dirigentes da emissora. Está vinculada diretamente à Secretaria de Comunicação Social da Presidência -- esta, sim, é quem nomeia o presidente do conselho de administração, o grupo que efetivamente decide as coisas. Que independência poderá sair disso? Nem haveria como sair, considerando-se que a Secom não faz comunicação pública, e sim comunicação do governo.

A única coisa positiva que se pode dizer até agora a respeito da TV Brasil é que o governo tem força para criar uma repartição pública, mas não para obrigar o público a assistir aos seus programas. Na verdade, por tudo o que se sabe do seu jeito e do seu estilo, vai ser muito difícil pegar o próprio presidente Lula assistindo a algum programa da TV do governo. Nisso, com certeza, estará na companhia de quase todos os demais brasileiros.