terça-feira, abril 22, 2008

Etanol brasileiro: uma irritação gratuita

Adelson Elias Vasconcellos

Existem interesses econômicos agindo contra o etanol brasileiro? Sim, por certo. Porém, daí a Lula fazer um cavalo-de-batalha vai uma enorme diferença.

O truque é velho e manjado, e sempre praticamente acaba dando certo quando se lida com públicos desinformados. A esquerda, especialmente, adora arranjar um inimigo comum contra quem se mobilizam as forças da pátria agredida ou ameaçada, e para vencer o inimigo, se concede ao presidente todos os poderes de que ele diz precisar para salvar a honra nacional. E, nestas “concessões”, regra geral, vão para o buraco, o estado de direito, as instituições democráticas, as liberdades e garantias individuais.

Na crítica que se faz, sem emocionalismos ordinários ou interesses suspeitos, o etanol não é o ÚNICO CULPADO. Ele está entre os que colaboram para o aumento dos preços dos alimentos.

Posso dar-lhes um exemplo local. No cerrado, em 2007, houve aumento de 8% na área plantada de cana de açúcar. Sabe quais foram as invadidas tomadas pela cana? Aonde se criavam bovinos, que acabaram indo para a Amazônia. Ou seja, tanto a carne terá um sobre-preço de produção pela distância, quanto a floresta será afetada pela nova atividade econômica. Quem produziu isto? O etanol brasileiro. Viaje-se pelo interior de São Paulo, e vocês descobrirão imensas lavouras de feijão que cederam lugar à cana. E o preço a gente percebe nas gôndolas dos mercados. Um detalhe: o caso do feijão e da carne são fatores locais, não sofrem influência alguma do etanol produzido a partir do milho nos Estados Unidos.

Afirmei que o etanol é um dos fatores; Hoje o preço do petróleo bateu nas alturas, foi a mais de US $ 114,00 em Nova Iorque, e a US $ 117,00 em Londres. Ora, brutal aumento considerando um período dos doze últimos meses, vai influir sim no preços dos alimentos. Além do transporte, tanto dos insumos quanto das colheitas, todos os insumos como fertilizantes, adubos, inseticidas, etc., são derivados de petróleo. Ah, o etanol do milho americano também é vilão? Claro que é, ninguém está dizendo ao contrário. Mas reparem: no conjuntos, estes três fatores são suficientes para apenas eles produzirem o efeito inflacionário do momento. Estou ainda esperando ver onde se encaixa a teoria de que os subsídios norte-americanos e europeus possam influenciar uma elevação de preços. Pode sim, com toda a certeza, dificultar o acesso dos países emergentes aos seus mercados. Mas daí a provocarem ondas altistas de preços, há uma enorme distância.

Ainda dentro da retórica arrogante do senhor Luiz Inácio, ele deveria dar-se, por exemplo, que o grande problema do continente africano é a povo dos vários povos que o continente abriga. Assim, deveria incentivar até com tecnologia, na qual o Brasil tem suficiente know-how, aos países que tem visitado, a que se dedicassem a plantar “alimentos”. E o que o vemos fazer, como agora em sua visita à Gana? Que eles plantem cana para produção de etanol para exportarem. Cana resolve o problema da fome? Não !!! Então por que ajuda-los a plantarem culturas que alimentem o faminto povo do continente? Tenho certeza que toda a comunidade internacional ajudaria enormemente neste sentido. Porém, há que se levar em conta, também, as disputas étnicas que acabam dizimando milhares de pessoas, além dos golpes de estado e da corrupção por parte das centenas de ditadores que tomam o poder.

Assim, incentivar o plantio de cana para produção de etanol destinado à exportação, faz com que a região continue padecendo dos mesmos males.

Que Lula não queira ouvir os críticos do FMI, da ONU, do restante do mundo. Mas que pelo menos ouça seus camaradas e amigos do peito, o ditador moribundo Fidel castro e o coronel aprendiz de ditador Hugo Chavez. Ambos são ferrenhos críticos dos programas de bio-combustíveis, e não apenas do etanol a partir da cana de açúcar. Muito embora, Chavez, particularmente, seja muito suspeito haja visto que a Venezuela é o quinto maior produtor de petróleo do mundo.

De qualquer modo, Lula aceite ou não, o etanol a partir da cana de açúcar é um dos vilões sim para atual elevação no preço dos alimentos. Negar a evidência não a eliminará.

E reparem: não somos críticos do incentivo que o governo brasileiro tem dado ao programa de bio-combustíveis. Lá atrás, antes que o assunto virasse moda, já advertíamos que seria necessário que o país estendesse às principais culturas de uma cesta de alimentos considerados indispensáveis e estratégicos, para não apenas manter seus níveis de produção, mas principalmente seus preços que, sem incentivos, tenderiam a ser substituídos pela cana, com perspectivas de lucros muito maiores e, portanto, mais atrativas ao agricultor.

O que o governo não pode é ficar neste discurso para surdos, achando que os agricultores brasileiros, apenas por puro amor à pátria, jogarão dinheiro fora para plantarem prejuízos em suas lavouras.

Hoje, ainda, o secretário geral da ONU resolveu esclarecer que, as criticas que a entidade tem feito ao etanol, não se referem ao etanol brasileiro, e sim ao americano, originado do milho.

Leiam: “... O secretário-geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, prometeu criar um grupo de estudos sobre a crise mundial dos alimentos. Dentro da ONU, a pessoa a ouvir sobre isso é o economista Abdolreza Abbassian, secretário do Grupo Intergovernamental sobre Grãos da Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura (FAO): "Quando falamos da influência dos biocombustíveis na economia dos grãos, estamos falando do milho dos Estados Unidos, não da cana-de-açúcar do Brasil", explica Abbassion, um iraniano de 49 anos, há 17 na FAO...”.

Assim, não é preciso o senhor Luiz Inácio sair acusando meio mundo, fazendo cara de mau, só para mostrar que o Brasil é independente. Porque vociferar no palanque toda esta agressividade é até fácil. Quero ver é ele defender o interesse nacional diante do Evo Morales em favor de quem até aqui só foi subserviente, ou conta Chavez quando agride nossas instituições, ou mesmo Rafael Correa quando abriga terroristas. E anaotem aí: o próximo da lista é o recém eleito presidente do Paraguai. Mas disto trataremos em outro post. Por ora, fica claro que ninguém está praticando terrorismo contra o etanol do Brasil até porque isto não impediu que o álcool a partir da cana de açúcar atravesse décadas de desenvolvimento para chegar no ponto em que chegou. Tecnologia genuinamente brasileira.

Isto, por outro lado, não impede de que o país tome as precauções necessárias no sentido de uma cultura não substituir outras. E isto depende primordialmente da política que o governo desenvolver para a sua agricultura. Ou seja, menos discurso empolado, e mais ação de governo.

No post seguinte, leiam entrevista concedida pelo Secretário Geral da ONU, sobre a qual falamos acima. Reparem o equilíbrio e o bom senso do que ele diz. Há, ali, muito para o Brasil ler e refletir. Resta saber quem no governo terá isenção e o bom senso necessários para tanto. E vai aqui um alerta: que o governo Lula reze para todos os santos para que as principais comodities agrícolas das quais o Brasil é grande exportador, permaneçam com seus preços elevados. Porque se de repente elas despencarem, vai muito produtor de soja mudando de atividade, ou de cultura...