sexta-feira, maio 30, 2008

Maior ameaça à Amazônia é a destruição ‘made in Brazil’

William Waack, Portal G1

Sinto desanimar os que adoram conspirações, mas não há plano internacional algum para internacionalizar, ocupar ou, de qualquer maneira, restringir a soberania brasileira sobre a Amazônia. O que impressiona o mundo inteiro é a maneira como tratamos (muito mal) nossos próprios recursos, mas essa é outra história.

Como repórter, participei de várias coberturas em diferentes regiões amazônicas nos últimos 23 anos, mas não posso me considerar um especialista. Só posso manifestar aqui a sensação que sempre tomou conta de mim ao voltar desses trabalhos jornalísticos, fossem em Marabá, Alta Floresta, BR-163, Rondônia, Roraima ou Amazonas: é um vasto território sem lei.

Numa das ocasiões, enquanto assistíamos em Novo Progresso (à margem da BR-163) um encontro entre representantes da população local e enviados do governo, empenhados em apresentar um ambicioso plano de zoneamento florestal, manejo, demarcação de reservas, etc., etc., a menos de 5 quilômetros dali caminhões continuam retirando (ilegalmente) madeira da floresta – como sempre.

Assim foi com garimpos, com a extração ilegal de madeira de reservas indígenas próximas a São Felix do Xingu, com a derrubada de mata para pastagens perto de Marabá (isso já faz tempo, aliás, pois quase nada sobrou perto da cidade). E com a miséria de assentados deixados à própria sorte, isto é, sem qualquer tipo de orientação ou ajuda, depois de feito o barulho político.

Alguns dos personagens que conheci na Amazônia eram gente ligada a algum tipo de atividade que eles mesmos reconheciam como predatória: garimpos ilegalmente organizados, lavras ilegalmente conseguidas, transporte de drogas, contrabando. Sempre voltei das reportagens, feitas para diversos veículos (impressos e eletrônicos) com a sensação descrita acima: na Amazônia, quem age de acordo com as regras é trouxa.

Escrevo isto em tom de desabafo, pois já estou cansado de ouvir políticos das mais diversas colorações - começando por Lula – estufando o peito para dizer “a Amazônia tem dono”. Morei o número suficiente de anos lá fora (21, todos como correspondente internacional) para poder dizer que uma boa parte do mundo nos inveja pelo que temos, e balança a cabeça incrédula diante do que fazemos com o que temos.

Na última quinta-feira (22) a equipe do Jornal da Globo vasculhava arquivos de imagens para ajudar a compor o material com o necrológio do senador amazonense Jéfferson Péres, e ali estava uma frase, pronunciada por ele em seu último discurso no Senado, que parece resumir bastante bem a situação. “Parem com essa história da suposta internacionalização da Amazônia”, dizia o falecido senador, “e acionem as autoridades para tomarem conta melhor da região”.

Lembro-me de certa ocasião durante a confecção de uma antiga reportagem, de 1985, na qual o fotógrafo Chiquito Chaves e eu acompanhamos um grupo de garimpeiros que ia varar a mata para “tomar” uma lavra outorgada a uma mineradora. Entre eles não havia um só que não tivesse vivido uma vida completamente à margem do que se pode considerar exploração ordenada de recursos naturais – era o jeito “normal” de ser.

Parece-me, a julgar pelo noticiário que acompanho dos nossos colegas enviados à Amazônia, que as coisas não mudaram sensivelmente. Não precisamos nos irritar ou indignar com qualquer tipo de “cobiça”, “planos” ou “ambições” estrangeiras sobre a Amazônia. A miséria que se encontra lá – especialmente em termos de ausência de lei – foi obra nossa, é “made in Brazil”, mesmo.