quinta-feira, junho 05, 2008

ENQUANTO ISSO...

Cana de açúcar na Amazônia? Sim, e com incentivo do governo
Adelson Elias Vasconcellos

Declaração de Lula, sobre intensificação de cultivo de cana de açúcar na Amazônia: “Quem fala uma bobagem dessas não conhece o Brasil”.

Muito bem, vamos considerar que Lula esteja certo. Não há avanço de plantações de cana no norte do país. Contudo, precisamente em 28 de setembro de 2007, matéria da de Iuri Dantas, para Folha de São Paulo contava uma história diferente. Informava-se, então, que o governo estava liberando a plantação de cana, mesmo que em áreas degradas, mas ainda assim, a liberação era para a Amazônia.. Vamos relembrar? Segue:

Governo libera cana na Amazônia em áreas desmatadas

Regras anunciadas em julho previam veto total a cultivo na região; ministério diz agora que incentivará plantação em área degradada
Para Reinhold Stephanes, "nada impede que se plante cana-de-açúcar" onde não se está derrubando mata, como em parte de Roraima
O zoneamento agrícola da cana-de-açúcar, previsto para 2008, deverá não apenas permitir como também incentivar o plantio em áreas já degradadas ou devastadas da Amazônia. A informação, negada pelo governo até a semana passada, foi confirmada pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, em entrevista coletiva.

"Ao leste de Roraima há uma área de savana, que hoje é pastagem. Nada impede que se plante cana ali, não está se derrubando mata. A idéia-força é utilizar áreas já desmatadas", exemplificou o ministro.

Ainda não há certeza sobre os instrumentos de incentivo, mas "muito possivelmente" será oferecida isenção de impostos ou contribuições, como já ocorre no caso do biodiesel produzido a partir de mamona em escala familiar de produção.

O zoneamento de cana-de-açúcar está previsto para agosto do ano que vem. O documento terá força de lei para impedir o plantio em algumas regiões e permitir ou incentivar em outras. Em julho, o próprio Stephanes chegou a dizer que o zoneamento vedaria o plantio na região amazônica e no Pantanal. Ontem, ele acrescentou a Mata Atlântica neste rol de áreas protegidas.O Brasil enfrenta ceticismo e pressão cada vez maiores da comunidade internacional para elevar os padrões de qualidade para o plantio de cana e de oleaginosas para biodiesel. A Amazônia ocupa o topo da lista de preocupações estrangeiras.

Por temer que esta desconfiança se transforme em barreiras aos biocombustíveis nacionais, o governo anunciou o lançamento do zoneamento da cana e de um selo socioambiental para os combustíveis verdes.O problema é que a expansão da fronteira agrícola criou bolsões de áreas consideradas degradadas, cuja recuperação o governo pretende induzir por meio do plantio de cana. Ainda há muito a fazer. Não há definição, por exemplo, sobre o que seria terra degradada. Segundo Stephanes, seriam áreas que precisam de correção do solo e adubo em grandes proporções, operações de alto custo.

O próprio zoneamento estabelecerá punições a quem descumprir a proibição. A fiscalização in loco deverá ser feita pelos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente.

Já a emissão do selo sócio-ambiental ficará a cargo de empresas privadas, que realizarão auditorias em fazendas e usinas. "O que já sabemos é que das 350 empresas envolvidas com produção de álcool, 50 já fazem além do que a lei exige."

*** Incrível, não é mesmo? Nem Lula mais sabe o que faz e o que diz. Talvez a memória esteja traindo o presidente. Porém, fica claro que não se pode dar muito crédito a estas bravatas.

Assim, não apenas está se plantando cana na Amazônia, mas está sendo incentivada pelo próprio governo.

Mesmo que este incentivo especifique que as plantações se realizem em áreas degradas ou já desmatadas. O raio é que o desmatamento não pára de crescer.

Enquanto isso...

Lula não convence o mundo sobre vantagens do álcool
Clóvis Rossi, Folha de São Paulo

Ban Ki-moon, da ONU, quer "aprofundar investigação" sobre biocombustíveis

Discurso de Lula em Roma, em favor do etanol derivado da cana, não seduziu o mundo, especialmente o secretário-geral da ONU

O apaixonado discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em favor do etanol derivado da cana-de-açúcar, pronunciado ontem na Cúpula sobre Segurança Alimentar, não convenceu o mundo, se por mundo se entender a Organização das Nações Unidas.

Vinte e quatro horas depois de Lula afirmar que os biocombustíveis "são decisivos no combate ao aquecimento global e podem jogar um papel importantíssimo no desenvolvimento econômico e social dos países mais pobres", o secretário-geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon, disse ser necessário "aprofundar a investigação" em matéria de biocombustíveis para chegar a um consenso, que ele considera "chave" para as políticas de produção de biocombustíveis.

A avaliação do secretário-geral coincide quase literalmente com o que deverá constar do comunicado final da cúpula, a ser divulgado hoje. Conforme a Folha já informou, o esboço do texto fala da necessidade de "estudos em profundidade" sobre biocombustíveis e propõe um "diálogo internacional" sobre eles.

Tanto as afirmações de Ki-moon como o esboço do texto final refletem a controvérsia que cerca os diferentes tipos de etanol. Há virtual consenso de que o etanol derivado do milho, produzido pelos Estados Unidos, é o equivalente ao "mau colesterol", na comparação feita por Lula.

Há apoio majoritário ao etanol derivado da cana-de-açúcar, o do Brasil, mas a praxe tem sido a de não separar o milho da cana, o que provoca a falta de consenso apontada pelo secretário-geral da ONU.

Falta de consenso que se estende ao mundo das ONGs (organizações não-governamentais), que fazem em Roma sua cúpula paralela, batizada de "Terra Preta".

Andrea Ferrante, presidente da Associação Italiana de Agricultura Biológica, criticou ontem as políticas agrícolas internacionais, que "favorecem a produção de agrocombustíveis, em vez de cultivos para a alimentação".

Lula cansou-se de dizer que, no caso do etanol derivado da cana-de-açúcar, não há essa substituição. Cresceram, no Brasil, tanto a produção de açúcar como a de álcool.

O que ajuda a fazer com que os dois etanóis se misturem é que monopolizam a produção mundial: representam, juntos, 80% da produção mundial e 90% do uso para fins energéticos.

Sem estrutura mundial
No âmbito específico da cúpula de Roma, os biocombustíveis acabaram chamando para eles o foco de atenção por outros motivos: primeiro, a única coisa em que todos estão de acordo é em canalizar recursos para os países mais pobres poderem dar de comer à massa de miseráveis que já comia pouco e mal mas tornou-se famélica ante a disparada dos preços dos alimentos.Só falta agora que cada governo defina a quantidade de dinheiro que desembolsará para o plano de emergência desenhado pela FAO (braço da ONU para o setor de alimentação).

Segundo, os governantes não encontram como interferir nos mecanismos de mercado que, como eles próprios dizem repetidamente, determinam o preço do petróleo, cuja disparada afeta diretamente os alimentos. Tampouco podem atuar contra a especulação nos mercados futuros, outro fator que provocou aumentos no preço dos alimentos.

A discussão fica, então, concentrada em um mercado -o de biocombustíveis- que nem sequer está estruturado mundialmente, por mais que o governo brasileiro venha se esforçando para isso.