" E Rondônia está numa situação em que chegou num ponto crítico do desmatamento "
O desmatamento continua avançando na Amazônia Legal com grande tendência de aumento na devastação, segundo informou nesta segunda-feira, Gilberto Câmara, presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A Amazônia perdeu 1.123 quilômetros quadrados de floresta por corte raso ou degradação progressiva durante o mês de abril, contra uma área de devastação de 145 quilômetros quadrados em março. Mato Grosso foi o maior desmatador segundo dados foram colhidos pelo sistema Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter).
A área devastada em abril é um pouco menor que a da cidade do Rio de Janeiro, que tem 1.182 quilômetros quadrados. Desse total, 794,1 quilômetros quadrados, ou 70%, foram devastados no estado governador por Blairo Maggi (PR), com quem o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, tem protagonizado embates públicos. Maggi também foi um dos principais críticos da antecessora de Minc, a senadora Marina Silva (PT-AC).
O ministro do Meio Ambiente classificou como "muito pior do que parece" o anúncio feito pelo Inpe. Minc adiantou algumas medidas que serão anunciadas pelo governo na quinta-feira e acrescentou já conversou com Maggi:
- Ele reconheceu que temos que fazer um esforço redobrado e, por orientação do presidente Lula, nós temos que trabalhar juntos. É ordem do presidente - afirmou o ministro.
Inpe vê tendência de alta na devastação
Os técnicos lembram, no entanto, que em abril o tempo estava mais aberto do que em março. Ou seja, os satélites não estavam tão obstruídos por nuvens quanto no mês anterior. Em abril, as florestas estavam 53% cobertas por nuvens, enquanto que em março as nuvens atingiam 78% das florestas. Os técnicos destacam, porém, que a destruição das florestas em abril foi 10 vezes maior do que em abril, enquanto que as nuvens abriram só em torno de 20% em abril em relação a março.
Segundo o Inpe, a tendência é de alta na devastação da Amazônia, pois em janeiro cortou-se 639 quilômetros quadrados de florestas ; em fevereiro cortou-se 724 quilômetros quadrados.
-O aumento no desmatamento é significativo. Há um claro sinal de aumento no desmatamento na Amazônia - disse Gilberto Câmara.
Um campo de futebol devastada a cada 10 segundos
Novamente o estado do Mato Grosso foi o campeão no desmatamento em abril, com 794,1 quilômetros quadrados desmatados. Em segundo, ficou Roraima, com 284,8 quilômetros quadrados. No Mato Grosso as nuvens cobriam 14% do estado, enquanto que em Roraima as nuvens cobriam 18% das florestas. Roraima não tem mais mata a desmatar; só reserva indígena ou reserva do estado.
Com diminuição do desmatamento, Rondônia ficou em terceiro lugar, com um corte de 34,6 quilômetros quadrados de matas da Amazônia legal.
Segundo o ambientalista Fábio Feldmann, secretário-executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas e de Biodiversidade, Rondônia chegou num ponto crítico.
- Depois que se desmatou algo de grande magnitude, ele tende a cair, porque não tem mais áreas para se desmatar. O seu estoque foi utilizado. E Rondônia está numa situação em que chegou num ponto crítico do desmatamento - disse ele em entrevista à Globonews TV.
O estado do Amazonas é o que menos desmatou, com 8,4 quilômetros quadrados de desmate. O estado, porém, estava 53% coberto por nuvens.
De um total de 4 milhões de quilômetros quadrados de matas da Amazônia legal, já se devastou até agora 700 mil quilômetros quadrados, dos quais 360 mil quilômetros quadrados foram cortados nos últimos 20 anos, quando o Inpe passou a acompanhar por satélites o desmatamento. Isso significa, segundo Câmara, que se corta um campo de futebol em matas na Amazônia a cada 10 segundos nos últimos 20 anos.
Câmara disse que o sistema de acompanhamento do Inpe, no entanto, está chegando ao limite e que precisa de investimentos para melhorar a análise dos dados. Ele informa que o governo precisa investir R$ 1 bilhão até 2010 para melhorar os satélites.
O Deter apura apenas desmatamentos com área maior que 25 hectares, por conta da resolução dos sensores espaciais. Entretanto, devido à cobertura de nuvens, nem todos os desmatamentos maiores que 25 hectares são identificados pelo sistema.
No dia 22 de maio, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, já adiantara que os números mostrariam um crescimento da derrubada de árvores na região , concentrado principalmente no estado de Mato Grosso.
A declaração de Minc teria irritado na ocasião Gilberto Câmara. Na avaliação do presidente do Inpe, Minc se precipitou ao falar publicamente sobre um levantamento inédito e expôs o órgão a um desgaste desnecessário com Maggi. A divulgação dos dados, que estava prevista para o dia 26 de maio, acabou adiada. Câmara queria evitar o uso político das informações.