Raphael Bruno, Jornal do Brasil
Professor da UnB com gosto para a polêmica diz que ditadura militar deixou seqüelas na classe política. Isso não acontece nos EUA
Ele é um dos cientistas políticos mais polêmicos do Brasil. Acusado de racismo em 2007 – gravações de alunos o teriam captado usando termos como "crioulada" em sala de aula – se diz vítima de uma armação que teria como pano de fundo divergências ideológicas. A causa da alegada perseguição, atribuída a uma "esquerdalha desonesta", seria sua defesa intransigente do liberalismo.
Professor da Universidade de Brasília (UnB), Paulo Roberto da Costa Kramer atua também como consultor de políticos e empresas. Ex-marxista – chegou a integrar o Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP) no final da década de 70 – abandonaria a esquerda, impulsionado, por um "dado existencial". E tem um ponto de vista semelhante ao do escritor e filósofo Olavo de Carvalho que, em entrevista publicada ontem pelo JB, considera que os políticos brasileiros evitam rotular-se como de direita.
Por que é tão difícil para partidos e políticos de direita se assumirem como tais?
– Essa vergonha da direita se assumir começou a ser sistematicamente revelada e pesquisada quando cientistas políticos iniciaram as primeiras pesquisas com os parlamentares constituintes de 1988. Pouquíssimos se assumiam como direita.
Havia políticos como o senador Jarbas Passarinho.
– É, ele era um dos poucos. A gente precisa diferenciar liberal de direita. A esquerda faz questão de empurrar a nós, liberais, para a direita, coisa que não somos. O liberalismo é uma doutrina de liberdade e responsabilidade pessoal. Não tem nada de tradicionalismo, não tem nada de religiosidade fundamentalista e contra-reformista. Mesmo no DEM, tem muita gente que nem era nascida durante o período militar e fica difícil rotular estas pessoas como sendo de direita, principalmente daquela direita. Agora, várias tendências e pessoas que governaram o Brasil no período militar eram de direita. Então pegou mal, ficou meio sujeira se assumir.
Na Europa e nos EUA a direita se assume muito mais facilmente do que no Brasil. A explicação seria a ausência de experiências autoritárias recentes?
– Creio que sim. No caso dos Estados Unidos, é preciso lembrar que trata-se de uma nação nova, no sentido de que eles não precisaram enfrentar um passado feudal e aristocrático. Então a direita lá não é como setores da direita européia, que existiam até o fim da Segunda Guerra, uma direita fortemente hierárquica, antiigualitária, quase nostálgica do antigo regime anterior à Revolução Francesa. Na América, a direita é otimista, defende a livre iniciativa como um caminho para o enriquecimento geral. No Brasil, o único partido de esquerda moderna que temos é o PPS. Se você lê os documentos dele, é o único que se converteu àquilo que eu chamo de cláusulas pétreas da democracia representativa e da economia de mercado. Então, para o PPS, ser de esquerda é lutar por melhores oportunidades para o maior número de pessoas, mas dentro da estrutura geral do capitalismo e da democracia liberal representativa. O PT não fez essa conversão. Algumas pessoas fizeram. O Antonio Palocci era a grande esperança do PT se converter. O Genoino (José Genoino) chegou a comandar, durante a década de 90, uma facção chamada Democracia Radical, a única do PT que havia assumido no papel que o compromisso com a democracia representativa era para sempre e não mera tática. Nenhum outro setor do PT fez isso até hoje.
Mas na prática não houve essa adesão à economia de mercado, a despeito dos documentos partidários?
– Não, porque foi uma adesão esquizofrênica, portanto, incompleta. Eles sabem, no íntimo, que não há saída para a economia de mercado nem para a democracia representativa. Não há saída humana, racional e aceitável. Mas na medida em que não assumem, ficam cheios de pesadelos à noite.
Quem seriam os expoentes do liberalismo no Brasil de hoje?
– Em primeiro lugar, o José Carlos Aleluia (deputado federal pelo DEM-BA), que tem grande capacidade de formulação política, muito ilustrado, com grande curiosidade intelectual. O Aleluia percebe a importância das idéias para a luta política. Não é possível você fazer uma política sem idéias. Uma política sem idéias é rasa, oca, mera politicagem. Deixa eu ver... não são muitos. Uma revelação positiva é o Felipe Maia (deputado federal pelo DEM-RN)... olha, está difícil pensar em mais alguém...
Mas o liberalismo não é vitorioso? O capitalismo globalizado está aí.
– Mas essa não foi uma vitória da direita. Na retórica política, quem venceu foi a esquerda. Sempre digo: eles perderam mas nós não ganhamos.
O que isso quer dizer?
– Quero dizer que o próprio fato de apresentarmos aqui alguns nomes do liberalismo e o interlocutor imediatamente assumir que são de direita, é um problema. Eu, realmente, com a direita de Plínio Salgado, de Médici, não quero muita conversa...
Ok. Mas em se tratando de liberalismo, não é o modelo de organização econômica que, com maior ou menor intensidade, prevalece no mundo inteiro? Isso também não contribui para que seus seguidores não precisem mais constantemente o afirmar?
– Sem dúvida. Mas a esquerda é vitoriosa na medida em que consegue semear essa confusão.
Como o senhor avalia a adesão dos partidos de esquerda às reformas orientadas para o mercado?
– É uma evolução natural. A esquerda da planificação da economia ou morreu ou se adaptou. Agora, insisto: no caso brasileiro, essa adesão é esquizofrênica. E os setores que teriam a lucrar com o liberalismo não aprenderam ainda a valorizar a importância da luta das idéias. Parte da esquerda, na medida em que perdeu a batalha no campo político e econômico, se deslocou para temas como a ecologia e para a luta em defesa do que chamam de minorias. E isso é um movimento internacional. Nos EUA, institutos e centros de pensamento de esquerda são muito mais atuantes do que os de direita.
A perda de coerência programática devido ao pragmatismo eleitoral também afeta os partidos mais liberais? Em 2006, o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, não conseguia defender de maneira firme as privatizações, muito menos atacar o Bolsa Família...
– Com certeza. Sendo que, nesse caso específico, não foi oportunismo eleitoral, foi burrice. E aponta mais uma vez para o problema do qual falamos. Oswaldo Aranha, na época da revolução de 30, disse que o Brasil era um deserto de homens e idéias. O Brasil continua sendo, no campo das idéias liberais. O que Alckmin deveria ter feito diante daquelas acusações contra a privatização? Deveria ter sacado um telefone celular do bolso e dito: "Se hoje todo mundo tem isso, é graças à privatização". Quer dizer, as pessoas estão no nível pré-bê-a-bá. O Alckmin provou naquele debate que era um político cuja cabeça não havia saído de Pindamonhangaba.
E quais são as bandeiras do futuro do liberalismo?
– É preciso mostrar que liberalismo equivale à prosperidade e bem-estar para o maior número possível de pessoas. Ser liberal não é apenas defender reformas econômicas, mas também um sistema educacional em que as avaliações estejam atreladas a melhorias das condições de ensino. Isso requer competição. Temos de mostrar que a escola também pode se beneficiar dos mecanismos de mercado. E quem vai crescer com isso são os pobres.
Professor da UnB com gosto para a polêmica diz que ditadura militar deixou seqüelas na classe política. Isso não acontece nos EUA
Ele é um dos cientistas políticos mais polêmicos do Brasil. Acusado de racismo em 2007 – gravações de alunos o teriam captado usando termos como "crioulada" em sala de aula – se diz vítima de uma armação que teria como pano de fundo divergências ideológicas. A causa da alegada perseguição, atribuída a uma "esquerdalha desonesta", seria sua defesa intransigente do liberalismo.
Professor da Universidade de Brasília (UnB), Paulo Roberto da Costa Kramer atua também como consultor de políticos e empresas. Ex-marxista – chegou a integrar o Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP) no final da década de 70 – abandonaria a esquerda, impulsionado, por um "dado existencial". E tem um ponto de vista semelhante ao do escritor e filósofo Olavo de Carvalho que, em entrevista publicada ontem pelo JB, considera que os políticos brasileiros evitam rotular-se como de direita.
Por que é tão difícil para partidos e políticos de direita se assumirem como tais?
– Essa vergonha da direita se assumir começou a ser sistematicamente revelada e pesquisada quando cientistas políticos iniciaram as primeiras pesquisas com os parlamentares constituintes de 1988. Pouquíssimos se assumiam como direita.
Havia políticos como o senador Jarbas Passarinho.
– É, ele era um dos poucos. A gente precisa diferenciar liberal de direita. A esquerda faz questão de empurrar a nós, liberais, para a direita, coisa que não somos. O liberalismo é uma doutrina de liberdade e responsabilidade pessoal. Não tem nada de tradicionalismo, não tem nada de religiosidade fundamentalista e contra-reformista. Mesmo no DEM, tem muita gente que nem era nascida durante o período militar e fica difícil rotular estas pessoas como sendo de direita, principalmente daquela direita. Agora, várias tendências e pessoas que governaram o Brasil no período militar eram de direita. Então pegou mal, ficou meio sujeira se assumir.
Na Europa e nos EUA a direita se assume muito mais facilmente do que no Brasil. A explicação seria a ausência de experiências autoritárias recentes?
– Creio que sim. No caso dos Estados Unidos, é preciso lembrar que trata-se de uma nação nova, no sentido de que eles não precisaram enfrentar um passado feudal e aristocrático. Então a direita lá não é como setores da direita européia, que existiam até o fim da Segunda Guerra, uma direita fortemente hierárquica, antiigualitária, quase nostálgica do antigo regime anterior à Revolução Francesa. Na América, a direita é otimista, defende a livre iniciativa como um caminho para o enriquecimento geral. No Brasil, o único partido de esquerda moderna que temos é o PPS. Se você lê os documentos dele, é o único que se converteu àquilo que eu chamo de cláusulas pétreas da democracia representativa e da economia de mercado. Então, para o PPS, ser de esquerda é lutar por melhores oportunidades para o maior número de pessoas, mas dentro da estrutura geral do capitalismo e da democracia liberal representativa. O PT não fez essa conversão. Algumas pessoas fizeram. O Antonio Palocci era a grande esperança do PT se converter. O Genoino (José Genoino) chegou a comandar, durante a década de 90, uma facção chamada Democracia Radical, a única do PT que havia assumido no papel que o compromisso com a democracia representativa era para sempre e não mera tática. Nenhum outro setor do PT fez isso até hoje.
Mas na prática não houve essa adesão à economia de mercado, a despeito dos documentos partidários?
– Não, porque foi uma adesão esquizofrênica, portanto, incompleta. Eles sabem, no íntimo, que não há saída para a economia de mercado nem para a democracia representativa. Não há saída humana, racional e aceitável. Mas na medida em que não assumem, ficam cheios de pesadelos à noite.
Quem seriam os expoentes do liberalismo no Brasil de hoje?
– Em primeiro lugar, o José Carlos Aleluia (deputado federal pelo DEM-BA), que tem grande capacidade de formulação política, muito ilustrado, com grande curiosidade intelectual. O Aleluia percebe a importância das idéias para a luta política. Não é possível você fazer uma política sem idéias. Uma política sem idéias é rasa, oca, mera politicagem. Deixa eu ver... não são muitos. Uma revelação positiva é o Felipe Maia (deputado federal pelo DEM-RN)... olha, está difícil pensar em mais alguém...
Mas o liberalismo não é vitorioso? O capitalismo globalizado está aí.
– Mas essa não foi uma vitória da direita. Na retórica política, quem venceu foi a esquerda. Sempre digo: eles perderam mas nós não ganhamos.
O que isso quer dizer?
– Quero dizer que o próprio fato de apresentarmos aqui alguns nomes do liberalismo e o interlocutor imediatamente assumir que são de direita, é um problema. Eu, realmente, com a direita de Plínio Salgado, de Médici, não quero muita conversa...
Ok. Mas em se tratando de liberalismo, não é o modelo de organização econômica que, com maior ou menor intensidade, prevalece no mundo inteiro? Isso também não contribui para que seus seguidores não precisem mais constantemente o afirmar?
– Sem dúvida. Mas a esquerda é vitoriosa na medida em que consegue semear essa confusão.
Como o senhor avalia a adesão dos partidos de esquerda às reformas orientadas para o mercado?
– É uma evolução natural. A esquerda da planificação da economia ou morreu ou se adaptou. Agora, insisto: no caso brasileiro, essa adesão é esquizofrênica. E os setores que teriam a lucrar com o liberalismo não aprenderam ainda a valorizar a importância da luta das idéias. Parte da esquerda, na medida em que perdeu a batalha no campo político e econômico, se deslocou para temas como a ecologia e para a luta em defesa do que chamam de minorias. E isso é um movimento internacional. Nos EUA, institutos e centros de pensamento de esquerda são muito mais atuantes do que os de direita.
A perda de coerência programática devido ao pragmatismo eleitoral também afeta os partidos mais liberais? Em 2006, o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, não conseguia defender de maneira firme as privatizações, muito menos atacar o Bolsa Família...
– Com certeza. Sendo que, nesse caso específico, não foi oportunismo eleitoral, foi burrice. E aponta mais uma vez para o problema do qual falamos. Oswaldo Aranha, na época da revolução de 30, disse que o Brasil era um deserto de homens e idéias. O Brasil continua sendo, no campo das idéias liberais. O que Alckmin deveria ter feito diante daquelas acusações contra a privatização? Deveria ter sacado um telefone celular do bolso e dito: "Se hoje todo mundo tem isso, é graças à privatização". Quer dizer, as pessoas estão no nível pré-bê-a-bá. O Alckmin provou naquele debate que era um político cuja cabeça não havia saído de Pindamonhangaba.
E quais são as bandeiras do futuro do liberalismo?
– É preciso mostrar que liberalismo equivale à prosperidade e bem-estar para o maior número possível de pessoas. Ser liberal não é apenas defender reformas econômicas, mas também um sistema educacional em que as avaliações estejam atreladas a melhorias das condições de ensino. Isso requer competição. Temos de mostrar que a escola também pode se beneficiar dos mecanismos de mercado. E quem vai crescer com isso são os pobres.