domingo, junho 08, 2008

Precisamos de profissionais qualificados, e não formados a facão.

Adelson Elias Vasconcellos

A reportagem a seguir é de Marta Reis para o Globo Online. Voltamos depois para comentar.

" 'Excluídos' : Biólogos formados em cursos de graduação à distância estão proibidos de tirar o registro profissional

RIO - Os graduados nos cursos de Biologia e Ciências Biológicas ministrados à distância estão proibidos de tirar o registro profissional, segundo uma resolução do Conselho Federal de Biologia (CFBio), publicada no Diário Oficial da União nesta terça-feira. De acordo com o texto da publicação, é dever do conselho a "proteção da sociedade e da fiscalização do exercício profissional". Sem o registro, os biólogos não podem exercer funções que envolvam trabalho de campo, e pesquisa em biologia, mas está livre para atuar em atividades do magistério, que não exigem registro nos conselhos regionais.
Em abril, a bióloga Silvana Veronese formada na primeira turma de licenciatura à distância da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) tentou tirar o registro, mas teve o pedido vetado pelo Conselho Regional de Biologia do Rio de Janeiro. Os cursos de graduação à distância da Uenf, assim como os das demais universidades públicas do Rio (Uerj, UFRJ, UFF, Rural e Unirio) estão conveniados ao Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cederj).
Na opinião da presidente do órgão, Masako Oya Masuda, a resolução do conselho contesta a carga mínima dos cursos de graduação à distância e a sua integralização (tempo necessário para a conclusão), quesitos, segundo ela, sempre respeitados pelo Cederj.
- Nossos cursos têm carga horária de 3.300 horas, enquanto o mínimo exigido pelo ministério da Educação (MEC) é de 2.800. Os alunos também são obrigados ao estágio presencial e devem ter 75% de presença nas aulas práticas, que são realizadas nos pólos de graduação à distância. Eu até compreendo que o conselho deva prezar pela qualidade da profissão, mas não nos enquadramos nessa resolução - contesta Masako.
A presidente alertou que muitos concursos exigem o registro profissional do conselho no momento da inscrição, inclusive para cargos de licenciatura.
- Um ex-aluno veio me dizer que não pôde se inscrever no concurso do Ibama porque não tinha o registro. Essas pessoas acabam frustradas. Espero que esta situação seja revertida - afirma ela.
A Secretaria de Educação à Distância do MEC anunciou que não concorda com a determinação do Conselho Federal de Biologia e já deu início as providências legais cabíveis para reverter a situação. De acordo com o MEC, a decisão do conselho fere a legislação dos cursos de graduação à distância reconhecidos pelo ministério.
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***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A pergunta que me faço é a seguinte: quando o MEC começou a incentivar estes cursos à distância, principalmente que afetam e se referem a áreas técnicas como é o caso do cursos de Biologia e Ciências Biológicas, discutiu este assunto com quem ou com quais organizações e entidades ? Como foram elaborados os currículos das diferentes disciplinas? E os professores que ministram os cursos, foram avaliados seus currículos e formações profissionais?

Ora, o Conselho Federal de Biologia não é maluco de tomar a decisão que tomou não tivesse embasado em razões das dúvidas que tem sobre a qualidade dos cursos à distância autorizados pelo MEC. Eles estão preservando a qualidade dos profissionais sob registro, para que cursos picaretas não joguem no mercado, profissionais mal preparados, feitos a facão.

A questão não disseminar cursos por atacado por todos para formação de mão de obra qualificada, como forma de se dizer à sociedade que de se está universalizando cursos superiores e que a prioridade é educação.

Qualquer curso de formação profissional exige critérios perfeitamente mensuráveis, mas exigem que se cumpram determinadas condicionantes. Não basta o MEC fica atropelando o bom senso em nome de um marketing de “investimento em educação” que acaba frustrando tanto o mercado por recepcionar profissionais formados precariamente, quanto aos próprios profissionais que além de não encontrarem lugar no mercado, acabam desestimulados por se darem conta de que foram conduzidos à uma ilusão de facilidades que só lhes trouxerem prejuízos, o maior deles a desesperança.

O Ministério de Educação precisa entender de uma vez por todas que educação é coisa séria, que a formação de profissionais graduados requer critérios técnicos dos quais não se pode abrir mão em nome de uma falsa “universalização do ensino”, porque isto acaba gerando uma distorção que não ajuda ninguém. Até pelo contrário.

Faz bem o Conselho Federal de Biologia em preservar a imagem dos bons profissionais para que seu mercado receba a valorização que se deseja. Alguém até pode acusá-los de “excesso”, mas antes isso, do que omitir-se e ver uma avalanche de maus profissionais deteriorando a imagem daqueles realmente qualificados.

E este rigor deve servir de exemplo e ser seguido por todos os demais Conselho de Registro Profissional. Profissional graduado exige formação competente e rigorosa e tem que atender às exigência de cada profissão em particular, e às exigência não menos rigorosas do mercado de trabalho. Este exemplo fica mais claro a cada exame da Ordem dos Advogados do Brasil, cujos exames aprovam a cada ano uma quantidade cada vez menor de profissionais, em razão da péssima qualidade de ensino das centenas de faculdades de direito picaretas espalhadas pelo país. Já disse aqui certa vez: os advogados americanos não são menos valorizados e categorizados do que os brasileiros, e o país tem uma população maior do que a nossa e uma dimensão territorial também maior. Enquanto no Brasil temos hoje mais de 1.000 faculdades de direito, nos EUA são apenas 200, e de lá não houve o trololó de “falta de oportunidades” ou falta de vagas” que se ouve por aqui.

Sendo assim, e dada às exigências do mercado de trabalho e a seriedade com cada profissão deve ser seguida, devemos priorizar não “quantidade de profissionais” formados, mas sim a sua qualidade.

E mais forte razão tem o Conselho Federal de Biologia para agir desta forma, porquanto até daqueles que são formados em cursos regulares se reclama de sua formação de baixa qualidade, quanto mais dos tais “cursos à distância”. Podem os argumentos do MEC serem bons para serem apresentados no horário eleitoral da propaganda política, ou nos muitos palanques e comícios de cretinos e demagogos pelo país afora. Mas são péssimos argumentos quando o produto de políticas inadequados, gerem profissionais de baixíssima qualificação. O político pode até ganhar a eleição, mas fruto de sua visão distorcida quem perde é o país e a população, que, afinal, é que o mais importa.