terça-feira, novembro 17, 2009

Apagão: o que o governo Lula “esqueceu” de informar

Adelson Elias Vasconcellos

Na edição de ontem,informamos sobre 62 apagões, lembram? Pois então: para quem acha que foi chute, segue a notícia da Folha de São Paulo. Voltamos depois.

País teve 62 apagões graves só neste ano

Segundo o Inpe, 70% dos blecautes são causados por descargas elétricas; prejuízo anual com corte de energia é de R$ 600 milhões

Desligamentos causaram cortes superiores a 100 MW, que equivalem ao consumo médio de um município com 400 mil habitantes

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), responsável por controlar a operação e a transmissão de energia elétrica do SIN (Sistema Interligado Nacional), registrou neste ano um aumento de 29% no número de apagões de grandes proporções em relação a 2008.

Especialistas ouvidos pela Folha atribuem o aumento a condições climáticas, queimadas, desmatamento e falhas em equipamentos de transmissão, causadas por erros de planejamento ou falta de manutenção.

Na última terça-feira, o blecaute mais abrangente na história do país deixou no escuro 70 milhões de pessoas em 18 Estados e no Distrito Federal.

Segundo levantamento feito pela reportagem com base em boletins do ONS, foram registrados neste ano 62 desligamentos significativos, ou seja, com cortes superiores a 100 MW (que equivalem ao consumo médio de uma cidade com 400 mil habitantes).O valor é a referência máxima adotada pelo órgão.

Também constam nos relatórios dois desligamentos envolvendo linhas de transmissão de Itaipu, que, segundo o ONS, não geraram consequências aos consumidores.

O número desse tipo de ocorrência estava em queda nos últimos quatro anos, passando de 74 em 2005 para 48 em 2008. Empresas atribuem a redução nesse período a investimentos em melhorias da transmissão da energia. O aumento neste ano, dizem, é motivado por condições climáticas.

A maioria das ocorrências está ligada às empresas Eletronorte, Furnas e Cteep (Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista). Os desligamentos levantados correspondem apenas às transmissoras de energia elétrica que participam do SIN, rede que liga todos os Estados (exceto RR, AM e AP).

*** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Então é isso, gente: o apagão de terça feira, não foi um fato isolado como o governo tenta insinuar. Como também, apesar de repetir a mesma desculpa esfarrapada, a de que foram raios que provocaram o apagão, o INPE já cansou de desmentir a lorota oficial.

E notem que curioso este trecho: “(...)O número desse tipo de ocorrência estava em queda nos últimos quatro anos, passando de 74 em 2005 para 48 em 2008. Empresas atribuem a redução nesse período a investimentos em melhorias da transmissão da energia. O aumento neste ano, dizem, é motivado por condições climáticas (...)”.

Interessante é que, enquanto houve investimento nas melhorias de transmissão, o número de apagões era decrescente. Conforme vimos na edição de ontem, em artigo do site Contas Abertas, houve drástica redução de investimentos na Eletrobrás, sendo aplicados apenas 38% do total previsto para 2009. Enquanto isso, o mesmo Contas Abertas, vejam na edição de ontem, informa que o Ministério de Minas e Energia (MME), é a pasta com o maior volume de recursos no orçamento de 2009 na chamada “reserva de contingência”, entre todos os ministérios da Esplanada. São R$ 5,8 bilhões bloqueados pelo governo federal no orçamento da pasta para ajudar a compor as metas de superávit primário – economia feita para pagar os juros da dívida pública. A cifra representa 23% do montante global previsto para o órgão em 2009, estimado em R$ 24,4 bilhões.

Coincidência ou não, a redução nos investimentos, fez crescer o número de apagões. O próprio INPE já destacou que um sistema seguro não comportaria tamanha fragilidade em relação a descargas elétricas ocorridas a cerca de 30 km de distância da estação onde o problema se localizou na semana passada. Portanto, a tentativa de encobrir a má gestão do governo com causas naturais, é uma vigarice não se comprova.

Uma prova disto é a notícia a seguir, da Folha online. Finalizaremos depois.

Subestação do apagão nunca foi vistoriada
A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) nunca vistoriou a subestação de Itaberá (SP), apontada pelo governo como origem do blecaute que deixou 18 Estados sem luz na terça-feira (10). As outras duas subestações envolvidas, Ivaiporã (PR) e Tijuco Preto (SP), foram fiscalizadas há mais de dois anos, de acordo com reportagem de Humberto Medina. A reportagem está na Folha deste sábado.

*** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Então, ficou claro agora? Tudo aquilo que estamos afirmando desde o início, a cada novo fato que surge, mais e mais se confirma: o apagão da semana passada é não um fato isolado, apenas. Este foi intenso, sim, mas pertence a uma série de derrapadas no programa desenvolvido pelo governo Lula. É bom não esquecermos que, Dilma Rousseff, quando esteve à frente do Ministério de Minas e Energia, foi quem redesenhou o modelo que encontrou e que estava em execução. Modelo que, acrescente-se, tem sido criticado por muitos especialistas da área, porque compra usinas movidas a carvão, principalmente, que não se inserem no quadro brasileiro. Além disto, e a CPI da Energia já demonstrou, há uma enorme disparidade de preços de tarifas que são cobradas dos consumidores e que já representaram um adicional superior a 7 bilhões segundo estimativas e que agora nossas autoridades não sabem como devolver.

Mas a coisa ainda não restringe a tudo isso. Tem mais. Por exemplo, a tarifa de energia elétrica no Brasil é mais cara do que a do Canadá e dos Estados Unidos. O Canadá tem um modelo semelhante ao nosso onde se prioriza as usinas hidrelétricas, que são limpas e de baixo custo. Já os americanos, tem um modelo onde maciçamente a energia é produzida a partir de usinas térmicas, mais caras e mais poluentes. Até hoje ninguém consegue entender, muito menos o governo federal consegue explicar.

A falta de investimentos, a má gerência e a falta de manutenção nas linhas de transmissão, formam o tripé de razões que provocam a instabilidade no sistema. A quantidade de apagões considerados como graves é extremamente alto para se aceitar que o modelo brasileiro é “robusto” no dizer de Lula. Não é. É frágil. Tem vulnerabilidades que precisam ser sanadas.

Porque uma coisa é certa: os repetidos avisos que os especialistas tem dado nos últimos anos sobre a questão da geração de energia no país foram praticamente ignorados pelo governo Lula, assim como as deficiências que tem sido apontadas. Dar as costas para o problema é ignorar de forma irresponsável o quão estratégica é a energia seja para o consumidor que passou a ter mais acesso a eletrodomésticos, quanto é para o desenvolvimento econômico, por ser um dos parâmetros básicos para os analistas quando se pensam em novos investimentos produtivos, principalmente em novas plantas industriais.

Não adianta o presidente ficar posando de vítima, isto não é solução e só serve para agravar o problema. Em seu programa semanal “Café com o Presidente”, ele disse que “todo mundo” quer achar um culpado para o blecaute que atingiu o país na última terça-feira., esquecendo-se de dizer que inclusive ele próprio, razão pela qual ele mesmo determinou uma investigação para apurar as causas do apagão. Também não adianta Dilma e Lobão tentarem apagar o apagão, com um bestial “assunto encerrado”, porque isso não evitará novos apagões. Ou imporem um novo apelido, como “blecaute”, porque a escuridão é a mesma, num caso e noutro.

Existem falhas que precisam ser corrigidas, há programas para serem aperfeiçoados e quem está no poder tem a responsabilidade de dar conta do recado. Não adianta ignorar o problema,isto só agrava duas coisas: o problema em si, porque não sumirá por encanto ou decreto, e a incompetência, porque seus efeitos em escala provocarão um desnecessário bloqueio nos investimentos indispensáveis para o desenvolvimento do país.

Há muitas outras “verdades” que permanecem ocultas da opinião pública. Não divulgá-las, pode até ser recomendado no sentido de não provocar pânico, contudo, omitir-se tentando transferir responsabilidades, pode custar um preço político a Lula e Dilma que não sei se eles estão dispostos em querer pagar.