Adelson Elias Vasconcellos
Cenário ideal: uma imensa platéia ignorante das intimidades e da história do Brasil, prontas a ouvir uma pregação catatônica contra os países ricos, centenas de microfones aptos a captar apelos dramáticos em favor dos pobres e, claro, alguns jornalistas para reproduzirem um discurso ao melhor estilo lulista – a de se vangloriar e fazer propaganda de si mesmo. No fundo mesmo, o que sobra, soa apenas vazio e deformado quando confrontado com a realidade. Mas esta última parte não conta quando o orador se chama Lula da Silva. Nem vale destacar sua miséria moral, coisa que ele entende não lhe fazer falta alguma.
Pois bem, cenário ideal, microfones ligados, e em nesta segunda-feira durante o encontro da Organização para Alimento e Agricultura (FAO, sigla em inglês) que acontece em Roma, na Itália, o senhor Luiz Inácio não deixou por menos e mandou ver na sua verborragia vagabunda tanto quanto vigarista:
“... as políticas econômicas dos governos anteriores ao seu, dizendo que "milhões de seres humanos eram vistos como estorvo...”
Como na platéia não havia ninguém com informação suficiente para contestá-lo, sintou o homem coragem para prosseguir chutando a história.
Para Lula, apenas 60% dos brasileiros desfrutavam do sistema econômico do País, enquanto o restante da população era "deixado à própria sorte". As declarações foram feitas na abertura do encontro diante dos chefes de estado de aproximadamente 60 nações, sobretudo africanas - continente que mais enfrenta problemas de subnutrição. Para Lula, os brasileiros antes vistos como "estorvo" são, hoje, o "maior ativo" do País. O presidente voltou a criticar os que acusam os programas assistenciais de seu governo de "populistas" e "assistencialistas".
De minha parte, eu ainda acrescentaria “eleitoreiros” aos “populistas” e “assistencialistas”. E pela simples razão de que eles não tem porta de saída. As que havia ele tratou de eliminar. Quanto maior a dependência do Estado, maior o retorno nas urnas...
Nem bem a reportagem da revista britânica “The Economist’ esquentou as bancas do mundo inteiro, e Lula, uma vez mais, ataca os “governos anteriores” sem fazer uma única e miserável ressalva ao governo anterior, de quem herdou a política e estabilidade econômicas, os programas sociais de auxilio às famílias mais pobres, fora outros programas que nem vem caso agora mencionar.
O que será que este “cara” tem na cabeça? Acaso ele continua apostando na nossa pouca informação, memória fraca e curta ou nos tacha de tal forma imbecis que pode chutar a verdade e distorcê-la de forma deprimente, e que ninguém o irá contestar? Quem foi ou foram os canalhas e cretinos que lhe abasteceram com tanta estupidez?
Apenas para lembrar: o Bolsa escola, no qual Lula se espelhou para rebatizar e criar o Bolsa Família, deixou cerca de 4,5 milhões de famílias atendidas, ou cerca de 20 milhões de beneficiados, e um cadastro de outras 6 milhões de famílias, onde constavam nome da mãe, dos filhos, data de nascimento de todos, CPF, endereço completo, etc.
Quando aos 60% que afirmou participarem do sistema econômico, façamos as contas. Tal índice representa cerca de 108 milhões brasileiros, considerando-se uma população de 180 milhões que Lula encontrou. Pois bem: isto é o que se chama de força de trabalho, o restante é constituído por crianças em idade escolar ou jovens na adolescência, portanto, fora do mercado de trabalho ainda, e os velhos, aposentados em sua quase totalidade. Como se pode afirmá-los deixados à própria sorte? Donde ele sacou este absurdo? É bom que se registre que ele próprio mandou cortar, na semana passada, o reajuste das aposentadorias nos mesmos índices aos aplicados à correção do salário mínimo. Quem está deixando parte do país à própria sorte?
Havia, como ainda há, um contingente enorme de desempregados. Mas este contingente pertence ao montante dos 60% que Lula informou, e não aos quarenta por cento que sobraram.
E dos que sobraram é bom destacar aqui um ponto que mancha este governo dito social por Lula e seus marqueteiros: quando assumiu, o trabalho escravo infantil, em razão dos programas implantados por FHC, como o PETI vinha declinando rapidamente e seu índice já era de um dígito apenas. Contudo, a partir de 2005 e 2006, este índice voltou a subir e ultrapassar a marca de 10%. E, neste período, quem era o presidente?
Mais: conforme informamos aqui recentemente, o IPEA, agora devidamente aparelhado pelo petê, conseguiu a proeza de engordar a estatística da classe média, afirmando que cerca de 20 milhões de pessoas saíram das classes D e E para a C, nos dois últimos anos, com um truque vergonhoso e imoral. Qual foi a mágica? Foi ter mudado a faixa de renda da classe média que agora, segundo o IPEA, passa a ser de UM SALÁRIO MÍNIMO, ou seja, menos de R$ 500,00 por MÊS. Santo Deus !!! Ou seja se você, que ontem ganhava um salário mínimo, e era considerado pobre, agora, sem acrescentar um mísero centavo ao seu salário, por um decreto vagabundo, passou a pertencer a classe média. Incrível não é mesmo? E estes são os números da mentira que Lula arrota mundo afora. Numa hora dessas, se sou brasileiro e estou presente na platéia e diante de um discurso desses, me escondo de vergonha! Não do país, mas de seu governante mistificador!
É impressionante como Lula adora mentir. Não bastava chamar a atenção do mundo para o flagelo da fome. Não, isto é pouco para sua arrogância e megalomania. Em cada palavra, ele sente uma compulsão incrível para vangloriar-se mesmo que seja de forma sórdida e desonesta, para delas tirar proveito político para si mesmo.
Já por diversas vezes disse neste espaço que, mesmo que Lula permaneça no poder por 20 anos (Deus nos livre de tamanha desgraça!), jamais ele conseguirá consagrar-se como estadista. Seu comportamento carregado nos tons da mentira, da ignorância extremada em relação ao fato histórico, seu analfabetismo em relação a valores como honra, dignidade, humildade são lacunas que o caráter de um verdadeiro estadista não permite prescindir.
Neste mesmo discurso infame, vangloriou-se do tal Luz Para Todos, que, segundo sua estatística pessoal, teria levado energia elétrica gratuita para 10 milhões de pessoas. Desde quando, o barnabé? Primeiro, que quem instalou o programa não foi ele, foi FHC. Segundo, porque o programa prevê como META chegar a 10 milhões de atendidos, mas como realização sequer chegou a metade do que pretende. Aliás, há uma reportagem da Folha de São Paulo que nesta semana ainda a reproduziremos para comprovar o quão falsa é a estatística lulista
Ou seja, Lula mantém a lógica vagabunda de que, uma vez instalado ou anunciado o programa, no dia seguinte, por um passe de mágica, a meta já terá sido atendida. E é isto que se vê na propaganda mentirosa comandada por Franklin Martins. Anunciam-se como conquista reais, aquilo que está ainda apenas no papel.
Empolgado, no mesmo discurso ainda teve tempo para lembrar que, com apenas parte do dinheiro gasto pelos governos mundiais para salvar os bancos da crise econômica poderia se erradicar a miséria no mundo. Pois é, o raio é que, não houvesse o socorro ao sistema da forma como se deu, e o volume de gente passando fome seria multiplicado em pelo menos três vezes. E ele até poderia ter comunicado que, no Brasil, o seu governo jogou no mercado mais R$ 200 bilhões, fora as desonerações fiscais e linhas de crédito, para a nossa economia não ser catapultada pela crise. Lembrando, também, que ele ainda injetou cerca de R$ 15 bilhões em bancos, sobretudo aqueles ligados a montadoras de veículos, para que não fossem arrastados pela mesma crise.
Aliás, é sempre mais fácil jogar pedras nos outros do que mirar-se diante do próprio espelho !
E, para encerrar mandou um recado final do tipo "(...) Precisamos nos livrar dos vergonhosos subsídios agrícolas dos países ricos", chamando a ajuda desses mesmos países aos seus agricultores de sabotagem".
Pois é, a diferença é que nestes países, os governantes tem a mania de governar para seus cidadãos, e uma destas formas de governança, goste Lula ou não, é justamente protegê-los. Lá, não se tem a carga tributária que temos aqui, lá não se tem uma infraestrutura sucateada que se tem aqui, lá não existe um MST a promover conflitos rurais e dar pontapés no aparato legal sob a cumplicidade criminosa do governo que ainda lhes estende recursos do Tesouro para financiar sua baderna. É criticável a atitude dos países ricos em relação aos subsídios? Sob a ótica do livre comércio, claro que é. Mas é preferível isto do que o tratamento cretino que o governo brasileiro concede aos seus produtores.
Assim, o verdadeiro estorvo ao país e ao seu desenvolvimento não é nem seu povo nem seus pobres. Estorvo é ter um governo que mente, que engana, que trapaceia, que distorce, que manipula e, sem escrúpulo algum, mancha com suas atitudes e palavras caluniosas a verdadeira história do Brasil.