terça-feira, novembro 17, 2009

A canoa de Dilma

Sebastião Nery

RIO – Padre Rossi era Deus e o diabo em Laguna, Santa Catarina. Vigário, cuidava das almas. Chefe político, cuidava dos corpos. A cidade tinha os pés plantados em suas mãos. O que Padre Rossi queria, acontecia. Ninguem contrariava quem mandava qualquer um para o céu ou a cadeia.

Noite de Ano Novo, Padre Rossi chegava de viagem. Tinha missa à meia-noite, estava atrasado.E a lagoa Imaruí,encapelada, soprava vento sul. Mas Padre Rossi não tinha medo de nada. Pegou a canoa, mandou tocar.

O pescador foi indo, remando. E o vento sul dobrando a canoa, como palha ao vento. Padre Rossi olhou Laguna lá do outro lado, desistiu:

- Volta!
- Voltar como, Padre? E a missa do Ano Novo?
- Volta que eu não vou morrer por uma missa.
- Deus é grande, Padre Rossi.
- Eu sei. Deus é grande, mas a canoa é pequena.

DILMENTIRA
A canoa de Dilma também. Mandona, agressiva. arrogante, ela sempre acha que pode falar e fazer o que quiser, que ninguem tem nada com isso. Pensava que era pouco o curso de graduação em Economia, fabricou um mestrado que não tinha. Faltava o doutorado, nome mais bonito. Matriculou-se em um e logo anunciou que já era “doutoranda”.

No ministério de Minas e Energia, assumiu arrogantemente toda a politica nacional de energia, rachou o pais em dois com Sarney, ficou com Minas para baixo, deixou Minas para cima com Sarney. Dois feudos.

Na Casa Civil, piorou. Constrange, agride, humilha os comandados, os mais de baixo. Chamou a Lina Vieira, secretaria da Receita, e mandou que ela “agilizasse”, engavetasse, encerrasse o processo sobre as contas da familia Sarney. Era indébita a interferencia. Lina não tomou conhecimento.

Dilma perdeu a linha. Inventou que nunca esteve com a Lina e desafiou-a a mostrar a agenda. Lina achou a agenda, Dilma se escondeu.

DILMITES
Dias atrás, 29 de outubro, sem linha, Dilma arrotava desafios :

- “Nós temos uma outra certeza, que não vai ter apagão. Nós hoje voltamos a fazer planejamento”.

Veio o apagão. Mais uma vez Dilma mentia. Escafedeu-se. No escuro e no claro, ninguem viu a Dilma dois dias seguidos. Ontem, reapareceu, mais uma vez perdendo a linha, com duas “dilmites”, duas mentiras : - “Não foi um apagão, foi um blecaute”: - “O assunto está encerrado”. Como se estivesse na cozinha dando ordem à empregada.

No governo, perde a linha. Na energia, perde as linhas. Até o sereno e cartesiano Merval Pereira perdeu a paciência, no “Globo”:

- “Não adianta a candidata oficial, Dilma Roussef, não querer se envolver no caso, deixando as explicações para o ministro Edison Lobão, que está nas Minas e Energia pela simples razão de que o setor elétrico é um feudo do senador José Sarney. Ela é reconhecida como a grande responsável pela política de energia do governo e foi nessa condição, e sobretudo na de candidata, que tomou contra da apresentação oficial do programa do governo para o petróleo do pré-sal”.

Como o Padre Rossi, ela está com medo de a canoa afundar.

OAB
Mais grave do que o de Dil-ney (Dilma e Sarney), é o apagão de algumas veteranas e veneráveis instituições nacionais. Como a OAB, Ordem dos Advogados do Brasil. Foi a cidadela inexpugnavel do direito, da liberdade e da democracia nos anos mais duros da ditadura. Quando muitos se calaram, a OAB gritou.Quando muitos se acovardaram, avançou.

Quando os porões estavam lotados de prisioneiros e torturados, Rubens Paiva e Stuart Ângelo trucidados, Vladimir Herzog suicidado e o Brasil nas ruas a clamar pelas Diretas, lá estava a OAB : Sobral Pinto, Raimundo Faoro, Heleno Fragoso, Bernardo Cabral, Seabra Fagundes, Miguel Reale, José Carlos Dias, Josafá Marinho, Marcio Thomaz Bastos, Marcelo Lavenère, George Tavares, Mario Sergio Garcia, Noé Azevedo, René Dotti, Oswaldo Lia Pires, milhares de mulheres e homens que puseram suas vidas, seus diplomas e seus talentos a serviço da democracia.

URSO
Agora, quando a America Latina reage contra a praga antinacional e anticonstitucional do terceiro mandato dos caudilhos, combatido na OAB nacional e nas OABs estaduais, inacreditavelmente é da OAB de São Paulo que vem a ameaça, a tentativa do golpe sujo do terceiro mandato.

Um suplente de vereador, Luiz Flavio D`Urso, que há dois mandatos consegue, a duras e caras penas,equilibrar-se na presidência da OAB de São Paulo, resolveu pixar a historia da OAB querendo impor um terceiro-mandato. Como um Fugimori, um Chávez, um Uribe, um Zelaia de toga.

FRAGOSO REALI
Enfrentado por Rui Celso Fragoso Reali, cujo nome diz tudo, um dos grandes representantes do direito nacional, jurista serio, respeitado, o Urso branco acaudilhado sai para uma campanha suja e baixa, fraudando a suposta fraude de uma enquete eleitoral no “site” de Fragoso Reali.

Na internet, o Fugimori de toga ataca os adversários, ridiculamente implora adesivos nos carros, operação comandada pela mesma agencia de propaganda que tem a conta de R$8 milhões da OAB de São Paulo.

O Largo de São Francisco não merecia isso.