Adelson Elias Vasconcellos
Sempre que Lula se dedica em atacar, grande parte das vezes cobra uma remissão de pecados (dos outros, é claro). Lula quer e gosta de uma imprensa que apenas o elogie e o engrandeça. Parte, com efeito, já anda genuflexa, é alimentada com subsídios diversos, e faz reverência não apenas a Lula, mas a todo e qualquer governante que lhes abasteça Quando isto se dá, tais jornalistas são generosos e fartos nos elogios, e rarefeitos nas críticas.
Mas grande parte da imprensa é séria e faz seu trabalho com extremo zelo. E, em alguns casos, ela também erra. E erra tanto quanto quanto qualquer profissional, por mais cuidadoso que seja. Infalibilidade só é possível com Lula em seu mundo de pura ficção e fantasia.
Lula cobra que imprensa quando erra, não dedica o mesmo espaço para se desculpar contra quem ela injustamente atingiu.
Pois bem, e quando ele erra? Acaso adota para si o mesmo discurso que joga contra os outros? Já vimos, diversas vezes multiplicada por diversas vezes, que NÃO. No mundo mágico de Lula não há espaço para ele se desculpar, pela simples razão de que, quando erros aparecem, ele joga a responsabilidade para os outros, de preferência para seu antecessor. Ele entende que, quanto mais depreciar, desqualificar o ex-presidente Fernando Henrique, mais sua biografia se robustece. Mesmo que lama, mas não importa.
É o caso que se tem em relação ao Tribunal de Contas da União. As funções constitucionais a cargo do TCU, é sempre bom lembrar, foram amplamente discutidas pelo próprio Lula quando da Constituinte. Muito do que tem lá previsto, ele e seu partido brigaram muito para impor. Claro, o governante era outro, então, maior a dificuldade à governabilidade dos outros melhor para ele que almejava a presidência. Entendia,como até hoje aliás, que sua presença no poder se justificava pelos deméritos dos “adversários”.
Durante os dois últimos meses, Lula desceu o braço da crítica sobre o TCU, mesmo discurso que Paulo Bernardo,do Planejamento, e Dilma Roussef, da Casa Civil copiaram e abraçaram.
A tal ponto o fizeram que Paulo Bernardo redesenhou as funções do TCU em um projeto de lei que prevê, dentre outras artimanhas, a criação de uma instância superior para julgar os atos do TCU. Ou seja, o TCU, de repente e por capricho de um governante megalomaníaco, que não vê os erros cometidos em seu governo, prefere escamotear e esconder a sujeira com ações que lhe permitam governar sem ser fiscalizado.
Todas as obras que o TCU ordenou paralisação por irregularidades, tanto no orçamento quanto na execução, são inaceitáveis por Lula e seus asseclas. De repente, o TCU passou a ser o inimigo público número um do desenvolvimento da nação.
Bem, já falamos aqui algumas vezes sobre o papel do TCU e no que entendemos que deveria mudar. A começar, que seus ministros e técnicos deveriam ser de carreira, com formação absolutamente técnica, todos ingressos por concurso, sem nenhuma indicação de natureza política, como são seus ministros atualmente. Isto daria maior solidez e autoridade ao trabalho que hoje eles desenvolvem. E, obviamente, sem as pressões políticas a que estão hoje em razão da forma de escolha.
Não é a primeira tentativa do governo Lula de “mudar” as fiscalizações ao seu governo. Várias foram as tentativas de cercear o trabalho da imprensa, não esquecendo ainda da tentativa de amordaçar o Judiciário. Quando o Ministério do Meio Ambiente, ao tempo da senadora Marina Silva, passou a ser visto como “entravador”, Lula tratou de esvaziar a autoridade do ministério na concessão de licenças o que levou a senadora a demitir-se. Para o seu lugar, nomeou o homem do coletinho, que, rapidamente, se transformou em ministro do licenciamento...
Mas será que a ação do TCU em paralisar obras, especialmente aquelas relacionadas no PAC é assim tão prejudicial ao andamento do próprio programa?
Absolutamente. No Portal Terra temos a notícia de que as restrições afetam tão somente 4% das obras ali previstas. Ou seja, as restrições significam uma parcela muito diminuta, para o tamanho do atraso que o programa tem tido. Como em tudo que este governo toca sempre se distinguem duas características: má gerência e corrupção.
E este é o caso do tal PAC que, como a própria reportagem acaba informando, segue empacado por falta de capacidade de gestão. Tudo dentro do figurino que desenhamos ontem aqui: Dilma Roussef, a mãe do PAC, continua sendo competente em parecer competente, fama que traz desde o Rio Grande do Sul.
Não sendo o TCU, portanto, o vilão que Lula acusou de forma tão leviana, é de se perguntar: Lula irá se desculpar perante os ministros tão injustamente e caluniosamente injuriados pelo presidente? E, em se reconhecendo injusto, manterá a idéia malévola de mudar a competência daquele Tribunal?
Segue a reportagem:
Restrições do TCU atingem 4% das obras do PAC
BRASÍLIA - As restrições do Tribunal de Contas da União (TCU) aplicadas às obras do governo federal, afetam apenas uma pequena parcela das ações do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Segundo informações do jornal Folha de S.Paulo desta segunda-feira, apenas 4% são afetadas.
Segundo o jornal, 232 projetos foram classificados como prioritários pelos ministérios dos Transportes e das Cidades, mas menos de um quinto dos recursos foram liberados até setembro. As iniciativas representam 40% dos projetos do PAC nos dois ministérios.
O TCU aplicou restrições a 4% destas obras, afirma o jornal. São nove obras ao total, cinco do Ministério dos Transportes e quatro do Ministério das Cidades. Os empreendimentos somam R$ 612,5 milhões, que representa 3% dos R$ 22 bilhões que serão destinados ao PAC nessas pastas.
Segundo o TCU há sobrepreço em cinco projetos da obra da rodovia Norte-Sul, no Tocantins. A obra orçada em 454 milhões é a maior das pastas e já teve R$ 75,3 milhões repassados.