Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, Blog do Noblat
Em qual dos dez volumes de sua obra, caro Doutor Freud, o senhor trata do caso das intempéries? Olho para a estante, onde jaz, palavra exata, a coleção que herdei e que só abri uma vez para ler sobre Moisés e o Monoteísmo. Complicado, Dr. Freud, muito complicado. Ajudou minha auto-estima saber que essa tradução, de 1958, não é das mais brilhantes, mas assim mesmo, foi uma derrota: não é para meu bico!
Mas hoje, motivada pelas palavras do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, lá fui eu ver se encontrava onde o senhor fala nas intempéries, quero crer que da vida, não acredito que o senhor tenha falado das tempestades d’água, vivendo naquela linda Viena onde a chuva era constante, mas gentil. Porém só de olhar as lombadas azuis castigadas pelo tempo e contendo 5.121 páginas, sentei desanimada na cadeira e desisti.
O senhor alguma vez pensou que seria citado pelo presidente do Brasil a respeito de um apagão que durou uma eternidade e deixou mais da metade do país no escuro? Quem mandou o senhor dizer que uma das coisas que o homem não controlaria seriam as intempéries? Viu no que deu? As suas palavras servirão de desculpa, e que desculpa!, para qualquer apagão que nos deixe sem luz.
Não acredito na sua modéstia e sei que o senhor tinha plena noção de seu valor, mas assim mesmo, talvez não se dê conta do efeito que essa frase terá de ora em diante: "Eu já disse várias vezes: Freud dizia que tem algumas coisas que a humanidade não controlaria. Uma delas era (...) as intempéries”. Viu, Dr. Freud, o senhor servindo como testemunha de defesa do Governo Lula?
O Presidente Lula e sua Ministra-Chefe da Casa Civil, ex-ministra das Minas e Energia, Mãe do PAC e candidata-nomeada para suceder o chefe, lembraram que “nós humanos temos um problema imenso. Infelizmente não controlamos chuva, vento, raio. Sempre quisemos, mas não conseguimos ainda". São as tais das intempéries, Dr. Freud, as incontroláveis intempéries...
Mas é aqui que venho lhe dar uma mãozinha, se me permite o abuso. Por favor, tenha paciência e siga meu pensamento: ninguém domina os raios, fato 1; o Brasil é o país onde caem mais raios, fato 2; o sistema brasileiro de detecção de raios é o terceiro maior do mundo, depois dos Estados Unidos e do Canadá. E os dados colhidos em campo por essa rede, que tem 53 sensores, derrubaram a tese do governo de que foi uma descarga elétrica fortíssima a causa do imenso apagão na noite da terça-feira. Fato 3.
Resultado, a culpa não é das intempéries!
Sabe por que, Dr. Freud? Porque nós não dominamos as intempéries, como o senhor disse muito bem, mas inventamos um sistema que capta a aproximação das intempéries! Sei que não é exatamente a mesma coisa, mas é mais ou menos como o sujeito saber que se ficar a sós com a mulher de seu patrão, não vai resistir. Então, quando ela se aproxima da sala onde ele está sozinho, ele imediatamente se retira, evitando assim que as intempéries da vida o atinjam.
Vai me dizer que o senhor não gostou da novidade? Li que o senhor era muito cuidadoso e jamais reivindicava “expertise” fora de sua área de trabalho, mas que tal não foi o comportamento de seus seguidores. Esses usavam e abusavam da aplicação de conceitos e teorias que pescavam nos seus textos, de um modo que o senhor não teria tolerado. Calculei então que o senhor não ia gostar de servir de desculpa para nossos apagões. Aceite, portanto, estas palavras como singela homenagem e uma tentativa de livrá-lo de ser transformado no Freud das intempéries.