Comentando a Notícia
As crises por que passam Argentina e Venezuela devem servir como alerta ao Brasil. Os dois estão no Mercosul. E o descontrole fiscal de ambos, conjugado com a crescente perda de rumo na economia, vai acabar respingando por aqui. Não há como fugir. São parceiros com os quais mantemos relações comerciais em bom nível, e a parceria em nível de Mercosul, vai cobrar do Brasil uma espécie de financiamento aos irmãos em dificuldades.
Poderíamos ter ficado só com a conta da Argentina, mas quis os irresponsáveis senadores brasileiros que assumíssemos os prejuízos da Venezuela.
A crise que ambos vivem no momento, tem um cheiro de mofo, de coisa velha. Venezuela tem câmbio fixo e faz maxi desvalorizações no mundo do câmbio flutuante. Não satisfeita com a velharia cria dois tipos de câmbio. A gente teve aqui uma coisa assim nos anos 80: taxas de câmbio diferente para setores diferentes. Não funciona, claro.A gente sabe como este filme acaba.
Num país como a Venezuela em que tudo já está distorcido, e não funciona, vão surgir certamente inúmeras formas de um setor fingir que é o outro para aproveitar-se da vantagem de uma ou de outra taxa de câmbio. Até porque a diferença será muito grande.
Em comum, os dois países possuem também inflação alta. Na Argentina, ninguém sabe a taxa porque o governo fez uma intervenção no Indec e manipula a taxa. A verdadeira está em 15% a 25%. A da Venezuela está perto de 30%. São os países com mais alta taxa de inflação, excetuando-se o Zimbabwe.
Mas há outro aspecto que aproximam estes dois vizinhos: seus governos são populistas, intervencionistas e incompetentes na administração da economia. Ontem os dois enfrentavam problemas parecidos como queda do valor dos títulos públicos e alta do risco país. Na Argentina o caso do presidente do Banco Central demitido pela presidente – que a Constituição veda expressamente - e restituído ao cargo pela Justiça, terá novos e complicados desdobramentos na semana que vem.
Claro que os dois se aventuraram com muita sede ao pote. Em nome de se enterrar os princípios que lhes davam sustentação econômica, e sob a desculpa esfarrapada de que se tratavam de métodos neoliberais que mais prejudicavam do que beneficiavam, partiram para uma sucessão absurda de equívocos, com intervenções descabidas, mudando as leis ao seu bel prazer e sem nenhum critério, que redundaram a total desarrumação da suas economias, e que vão custar muito caro aos seus países retomarem o equilíbrio.
Quando vejo ou ouço a mesma cantilena sendo dita no Brasil, confesso que ela me dá calafrios. Temo que, em algum momento maluco, alguém do governo tente enveredar pela mesma bagunça. O que nos assegura esta situação até invejável, é justamente o fato de que o Brasil não jogou no,lixo suas conquistas e até as aprofundou. Se são ou não neoliberais, para o inferno quem as condena. O fato é que o resultado0 final é o que importa, e neste aspecto, vamos bem, obrigado.
Assim, enquanto as economias de Argentina e Venezuela se esfacelam, a nossa segue firme. Mas sempre é bom ficarmos atentos: o excesso de discurso esquerdista existente no governo, pode fazer com que nos deixemos influenciar para pagar parte da conta de desajuste e descontrole de Argentina e Venezuela. Como também, a adoção por aqui de algumas políticas que os radicais petistas ainda insuflam à área econômica adotar, pode acabar vingando de alguma forma. E neste caso, seria a porta aberta para seguirmos os passos dos vizinhos. Não que estejamos em posição muito confortadora a este respeito. O governo Lula, influenciado pelas vozes do atraso, deixou de lado reformas indispensáveis, e tem adotado políticas de verniz populista. O discurso do Estado Forte corre solto nos corredores do Planalto, e a excessiva presença e intervenção azedam a segurança jurídica e afugenta os investidores.
Portanto, vamos rezar para estas vozes fiquem pregando no deserto e não acabem, de alguma forma, influenciando a atuação do governo que, até agora, soube resistir aos apelos. Mas por quanto tempo?
O texto é de Bruno Villas Bôas, para jornal O Globo.
Uso das reservas permitiria expansão fiscal na Argentina
O uso de US$ 6,5 bilhões das reservas do Banco Central da Argentina para pagamento da dívida pública tem uma motivação fiscal. Quando deixa de pagar a dívida com recursos do Orçamento e usa o dinheiro das reservas, o governo de Cristina Kirchner está, na verdade, fazendo uma expansão fiscal.
O economista João Pedro Ribeiro, da Tendências, explica que a Argentina passa por graves problemas fiscais, assim como outros países do mundo. Houve queda de arrecadação por causa da crise. Soma-se a isso uma eleição em 2009, o que significou aumento de gastos, de salários e transferência do governo a estados.
Segundo João Pedro, o superávit primário da Argentina — economia que o país faz para pagamento de juros — registrou queda de 1,2% no ano passado, citando o consenso de projeção de analistas. Uma variação, portanto, de 2,6 pontos percentuais em relação ao superávit de 1,4% registrado no ano anterior. Em 2007, o superávit fora de 1,1%.
— O governo argentino teria rigorosamente uma expansão fiscal, com todos os problemas que conhecemos. Os recursos que deixariam de usar no Orçamento seriam gastos como eles quisessem. É uma sinalização péssima — diz o economista.
João Pedro diz a medida quebra a divisão entre recursos do Tesouro e do Banco Central. Os esforços fiscais e de política monetária se misturam, uma situação que gera incertezas no mercado. Tanto que o risco-país da Argentina escalou 25 pontos percentuais, a 681 pontos após a divulgação do decreto que retirou Martín Redrado da presidência do Banco Central da Argentina.
A Argentina foi abalada pela crise mais do que muitos países. O PIB deve fechar 2009 em queda de 2,7%, após alta de 6,8% em 2008. Um movimento brusco, de 9,5 pontos percentuais. Esses movimentos doem mais na economia, afetam mais o emprego. A corrente de comércio do país encolheu US$ 33,4 bilhões, dos quais cerca de US$ 15 bilhões nas exportações.