Sebastião Nery
RIO – Vladimir Toledo Piza era prefeito de São Paulo. Jânio, governador, estava uma noite em casa dele. Chegou a notícia de um grande incêndio. Toledo Piza levantou-se:
- Vamos lá, governador. Vou trocar de roupa, rápido.
- Não vou, não. Não gosto de incêndio. Me comove demais.
E saiu. O prefeito pôs um casaco, foi. Quando desceu do carro, no meio da multidão, viu outro carro chegando. Era Jânio, envolto num enorme e pesado capotão preto, os olhos arregalados, os cabelos desgrenhados:
- O que está havendo, senhor prefeito?
- Este incêndio, governador. Um incêndio horrível.
- Quando você soube?
- Agora, em casa.
- Eu também. Estava dormindo, despertaram-me, não tive nem tempo de tirar o pijama, calçar os sapatos. Enrolei-me neste sobretudo, consegui um táxi, para trazer minha solidariedade ao povo que sofre as dores do fogo, da fumaça, da morte.
Janio
Janio abriu o capote, estava com o pijama cor-de-rosa até os joelhos, canelas brancas de fora. E os pés enfiados em duas sandálias velhas. Como um fantasma inglês.
Toledo Piza não entendeu a conversa atravessada, olhou em volta. Jornalistas e fotógrafos já estavam de canetas e máquinas com Jânio.
Toledo Piza contou a história ao general Zerbini:
- Quem conhece o Jânio sou eu, general. Ele não respeita nem incêndio.
Angra
Ninguem queria que o governador do Rio, Sergio Cabral, surgisse de repente de pijama cor de rosa ou de cueca na tragedia de Angra dos Reis. Mas ele estava ali ao lado, colado, junto, em Mangaratiba, em sua tão questionada e marcelamente filmada casa de praia, a menos de 50 quilometros da catástrofe. Não custava lembrar-se de que é o governador.
Pois lá não foi no primeiro dia. E em quase todo o segundo dia. Quando apareceu, o vice Pezão, o Corpo de Bombeiros e o prefeito Tuca Jordão já tinham tomado as primeiras, urgentes e inadiaveis providencias.
E não foi só ele. O ministro Minc, do Meio Ambiente, também evaporou. Não sei se ainda estava na Dinamarca. Deve ter ficado como Sergio Cabral:esperando a TV Globo chegar antes, para já entrar ao vivo.
Sergio Cabral
Janio era meio doido, mas sabia dos deveres do homem publico. Tem que enfrentar as situações, sobretudo as catástrofes. Quanto mais inesperadas mais exigem sua presença. Não foi eleito apenas para ir a Paris, participar de convescotes em Nova York e secretariar Ricardo Teixeira.
Tudo bem que ele só queira fazer o que seu mestre Lula faz. Mas não precisa imitar no erro. Quando o avião da TAM explodiu em Congonhas, Lula, que vai a São Paulo semana sim a outra também, foi incapaz de ir lá. Insensibilidade não pode ser regra de governo.
É até chato ficar citando exemplos externos. Mas é só comparar com o comportamento do francês Sarcozy, do espanhol Sapatero, do inglês Brown, do portugues Sócrates e até do trêfego Berlusconi. Estejam onde estiverem, vão imediatamente ao local das tragedias. Lula continuou carregando na cabeça, para a praia da Bahia, seu isopor de uísque, gelo e cerveja, que o“Globo”sabujamente disse que era um isopor“de farofa”(sic).
Lula
Não quer dizer que os dirigentes lá de fora sejam virtuosos e os daqui não. A diferença é que lá existe uma coisa chamada imprensa, imprensa de verdade, aqui quase toda transformada, pela gazua propagandistica do valente Franklin Martins, em boletins oficiais do palácio do Planalto.
Lá a imprensa está em cima, cobra dos governos, dos governantes e quando precisa denuncia. E a população também. Está sempre atenta e exigente. Infelizmente, nosso querido povo brasileiro é cada dia mais uma massa moluscada, alienada,“bigbrodeada”. Por isso os politicos deitam e rolam. E aquele gaucho diz que continuará “se lixando”, porque, quando chegarem as eleições, vão continuar votando nele. E votarão mesmo.
É a certeza do governador Arruda, de Brasília : basta dar panetone.
Brizola
O absurdo do comportamento do governador do Rio não é apenas uma questão de displicencia e insensibilidade. É muito mais grave. São atos de governo que revelam no mínimo acobertamentos espúrios. Todo mundo sabe que Angra dos Reis tem um permanente problema de riscos e perigos ambientais. Tem que ser tratada cada dia mais com severas medidas.
Pois há seis meses, em 19 de junho do ano passado, o governador baixou o decreto 41.921, absolutamente inconstitucional, “legislando para afrouxar as regras de proteção ambiental, para permitir construir mais e mais nos morros e encostas”, com apoio do ex-prefeito (8 anos) Luis Sergio (PT), e do atual Tuca Jordão (PMDB), secretario e sobrinho de Luis Sergio.
O deputado Alessandro Mollon (PT) conseguiu convocar audiência publica na Assembléia, em novembro, com Ministério Publico, entidades de defesa do meio ambiente, todos exigindo a retirada do decreto. Cabral não tomou conhecimento. Como dizia Brizola, nessa cuia tem batata.