quinta-feira, janeiro 07, 2010

Pisando em terreno minado

Adelson Elias Vasconcellos

De Genebra, Celso Amorin, ministro das Relações Exteriores (ou seria dos Horrores), manda dois recados: um, a de que a escolha dos caças para a Aeronáutica caberá a Lula, e que ela terá conotação política. Até aí tudo bem, não fosse o fato de Lula, em 7 de setembro do ano passado, haver antecipado ao presidente Sarkozy, da França, o resultado final de um estudo em pçeno andamento. Jogo de cartas marcadas? . O presidente atropelou o processo.

É claro que, no mundo inteiro esta decisão final, que é de defesa estratégica das nações, sempre cabe ao mandatário chefe declarar. Porém, antes disso, primeiro se faz um estudo técnico para conhecer-se as viabilidades de cada uma das propostas. Aliás, no caso presente, havia uma concorrência internacional. O estudo feito pela Aeronáutica, segundo se informa, está composto por um processo de cerca de 30 mil páginas. Portanto, antes da decisão final, compete ao presidente se ater a este estudo.

Três empresas competem para fornecer os 36 caças: além da Dassault e da Saab, a americana Boeing está no páreo com o F-18 Super Hornet. No relatório preliminar, o sueco Gripen NG ficou em primeiro lugar na avaliação técnica, seguido pelo Super Hornet. O Rafale, preferido por Lula e Jobim, obteve o terceiro e último lugar, pelo preço considerado extremamente alto.

Um dos argumentos usados pelos defensores do caça francês é de que não se pode comparar preços entre equipamentos diferentes. Alegam, por exemplo, que o sueco Gripen é monomotor e está em fase de projeto.

Ora, se havia alguma negociação de bastidores entre os governos brasislseiro e francês para adequar a proposta francesa dentro de melhor condição, que tais negociações se transcorressem com certo sigilo. Ao atropelar o processo, Lula simplesmente ignorou uma condição básica: as opções dadas pelos técnicos do governo. Elas simplesmente perderam sua razão de ser, assim como a própria “competição” se tornou viciada, por se conhecer seu resultado final.

Por uma precipitação indesculpável, o Brasil está sujeito a comprar um modelo de maior preço dentre os concorrentes. É disso que se trata. Neste blog, até por termos nos baseado em análise de especialistas, já havíamos apontado o modelo sueco como o menos indicado, uma vez que o modelo ainda não saiu do papel, se desconhecendo, desta forma, a sua eficiência. Para a Aeronáutica o que pesou foi que a fabricante sueca se compromete na total transferência de tecnologia que, afinal, ao lado do preço, seriam os fatores a serem consideraados como prioritários. Assim, está criada uma delicada situação interna, em razão do presidente desconsiderar a análise técnica de quem, de fato, irá usar o modelo que for comprado. E externa, porque se a França não melhorar substancialmente sua proposta, o Brasil estará dando ao mundo, mais uma vez, um claro recado da pouca seriedade com que negocia com as demais nações.

O segundo recado de Amorin, que ainda não se pronunciou, inexplicavelmente, sobre os ataques aos brasileiros no Suriname, afirmou que o Brasil estaria disposto a abrir diálogo com o Hamas, considerado tanto por judeus e palestinos, como por toda a Comunidade Eeurpéia, como uma facção terrorista. A primeira reação veio mais rápida do que Amorin poderia prever: a autoridade palestina criticou a posição brasileira em tom de advertência.

Malki, contrário ao Hamas, foi enfático em alertar o Brasil e qualquer outro governo para que tenham "cuidado" em manter um diálogo com o Hamas. "Reconhecemos que o Hamas é uma realidade e não vai desaparecer. Mas desde que Hamas fez golpe em 2007, não deu qualquer sinal de que quer revisar suas ações. Na realidade, desintegraram o sistema político de Gaza e substituíram por seu próprio sistema de poder", disse Malki.

"Qualquer aproximação com o Hamas hoje pode ser interpretado pelo Hamas como uma espécie de fraqueza da comunidade internacional e como um sinal de reconhecimento do sistema de facto criado em Gaza por meio da força e de um golpe. Por isso, os países devem ter cuidado", alertou.

Não sou contrário a participação brasileira em qualquer discussão que tenha por objetivo a conquista da paz nas áreas de conflito em qualquer lugar do planeta. Contudo, é preciso agir com isenção, saber ouvir os dois lados, e buscar negociações que agradem a todos. Em relação ao Itamaraty comandado por Amorin não me parece que estejamos em condições de mediar conflitos no Oriente Médio, pela simples razãso de que a nossa política externa tem uma predileção bastante estreita para com regimes autoritários e organizações terroristas.

Neste mesma viagem, Amorin em visita à Turquia, já foi questionado sobre que tipo de apoio ao programa nuclear iraniano estaríamos dispostos a emprestar. É preciso considerar que estamos, geograficacmente, distantes da zona de conflito. Qualquer má negociação não nos afetará diretamente. Porém, outras nações, a Turquia por exemplo, não podem ficar impassíveis assistindo diplomatas amadores negociando qualquer acordo sem considerarem sua presença.

Quando da visita de Ahmadinejad ao Brasil, e com a disposição de Lula e Amorin de se oferecerem para mediarem o conflito palestino – israelense, disse aqui que o melhor que faríamos seria ficar de fora desta enrascada. Não temos conhecimento histórico suficiente para aquela mediação. Nossa posição tolerante para com o regime iraniano nos torna suspeitos, já que jamais o Itamaraty, com Amorin, mostrou qualquer inclinação favorável em relação a Israel. Também entre os palestinos, sabe-se, há uma grave cisão, de um lado o Hammas, terrorista por convicção existencial, e a Autoridade Palestina, a Al Fatah. Acenar diálogo com a turma do Hammas desagrada a turma da Al Fatah e, mesmo que conseguíssemos juntar as duas facções, há o Irã com seu ideário próprio, e, depois disso tudo, Israel que somente a facção da Al Fatah reconhece, e com reservas. Oriente Médio e Irã são temas para profissionais. Não aceitam metáforas amadoras.

E o Brasil, com Lula e Amorin, é bom lembrar, não conseguiu resolver sequer a questão simplória de Honduras, onde sequer deveria ter se intrometido, imagine-se entrar no caldeirão Irã e Oriente Médio.

Estamos pisando em terreno minado, onde não basta discurso e voluntarismo. É preciso ter a exata noção do que está em jogo, além de pleno conhecimento histórico e uma cautela ideológica indispensável. E, neste jogo, o Brasil ainda joga na terceira divisão.