quinta-feira, janeiro 07, 2010

Tragédias 2 - Trânsito mata 247 mil em 7 anos

Adelson Elias Vasconcellos

Brasil é país com mais vítimas no mundo; Dnit admite falhas de controle e sinalização.

Só que este diagnóstico simplista, não resume bem toda a tragédia. Comecemos pelo seguinte: nos últimos três anos, o governo Lula abriu as portas de benefícios e incentivos para a indústria automobilística. Nunca se vendeu, dentro do país, tantos carros como neste período.

Porém, nem antes de tais benefícios e incentivos, nem tampouco durante este tempo de vendas e produção recordes, governos federal, estaduais e municipais conseguiram projetar e levar adiante, planos viários capazes de suportarem o volume de carros que estão chegando a mais à frota nacional.

Já nem vou falar de São Paulo que, neste aspecto, tende a andar cada vez mais devagar. Não há espaço físico capaz de suportar a quantidade que tem de veículos em circulação.

Refiro-me as cidades médias, com populações variando de 200 a 600 mil habitantes. Horários de picos, os motoristas estão suportando verdadeiros infernos de dificuldades para circularem.

Alguns números ilustram bem a nossa triste realidade.

Dados preliminares do Ministério da Saúde mostram que 36.666 brasileiros perderam a vida em acidentes automobilísticos em 2008 — o equivalente a cem mortes por dia.

Em sete anos, morreram nada menos que 247.722 brasileiros em acidentes de trânsito. Daria, por exemplo, para lotar três estádios do tamanho do Maracanã.

O diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antonio Pagot, admitiu ontem que deficiências no controle de velocidade e na sinalização contribuem para os altos índices de acidentes nas rodovias.

Segundo levantamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF), 455 pessoas morreram nas estradas federais só nos 16 dias da Operação Fim de Ano. O diretor do Dnit afirma que a manutenção das estradas melhorou, mas reconhece que os investimentos não têm surtido o efeito desejado.

Ele atribui boa parte dos problemas à ausência de radares na maior parte da malha rodoviária.

— A manutenção das rodovias tem melhorado a cada ano, mas ainda continuamos com um número muito alto de acidentes. A cobertura de radares e lombadas eletrônicas é muito deficiente, só existe nos municípios onde temos convênio com as prefeituras. Estou angustiado para resolvermos logo esse problema — diz Pagot.

Se Pagot está angustiado, o que dirão os motoristas brasileiros então, cansados de serem assaltados por um peso cada vez maior de impostos, e que precisam enfrentar o trânsito infernal nas cidades e rodovias, cujos investimentos são inversamente proporcionais !!!

E é justamente por esta visão caótica que as soluções ficam dia mais distantes. Falta prioridade, falta empenho, falta competência ao poder público para enfrentar e atacar o problema. Palavras não tapam buracos.

Uma das soluções seria investimentos para alargar as vias existentes, implantação de novas ruas e avenidas, construções de túneis e viadutos e, principalmente, investimento maciço em transporte coletivo. Digam-me que cidade brasileira tem programas neste sentido? Onde estão os projetos?

Quanto de recursos seria necessário que o poder público investisse, em todos os seus níveis, para que o espaço urbano oferecesse melhores condições de tráfego?

Saindo das cidades, indo para as estradas,, vimos aqui que, desde 2003, o DNIT deixou de investir cerca de 20 bilhões de reais, por absoluta falta de projetos. Não conseguimos sequer dar manutenção adequada às estradas já existentes, como poderiam elas suportar tráfego cada dia mais intenso de veículos indo e vindo?

O resultado, lamentavelmente, é o que se vê: tanto nas rodovias, como nas cidades, somos recordistas mundiais de mortes no trânsito. E já nem entro no mérito das fiscalizações precárias, quando não corrompidas, dos DETRANS da vida.

Quando se lançou a tolerância zero em relação ao uso de álcool por motoristas ao volante, e o governo comemorava uma redução no número de acidentes, afirmei aqui que era cedo para qualquer festa. Havia, como ainda há, dois aspectos relevantes: primeiro, que as fiscalizações para coibir o uso de álcool pelos motoristas, precisavam ser mantidas ao longo do tempo, e o que vemos hoje, passados alguns meses do programa, é que poucas cidades ainda mantém esta vigilância. Outras, sequer tem um número razoável de bafômetros para serem usados...

De outro lado, o segundo aspecto a se considerar é que, o uso do álcool era apenas uma das causas para os acidentes, mas não a única. Se o país não se dedica a investir, e investir pesado, em melhoramento tanto das vias urbanas, incluindo aí o transporte coletivo de massa, quanto na melhoria das rodovias e construção de novas, com o crescimento da frota a tendência seria a de que o número de acidentes retomasse sua curva ascendente.

E é precisamente o que estamos observando agora. Portanto, ao invés de nossa classe política ficar se preocupando em se encherem de mais privilégios pessoais e engordarem suas contas bancárias com desvios provenientes dos mensalões e falcatruas que se comete por atacado no país, seria necessário que justificasse o mandato popular e se preocupassem em pensar no país e nos problemas que afetam a vida de todos.

Não há soluções mágicas que, de uma hora para outra, reduzam as milhares de mortes que o trânsito provoca sem parar. É preciso um projeto amplo para o Brasil poder suportar, sem maiores traumas, o afluxo de veículos que anualmente estão sendo despejados nas cidades.

E, apesar do que afirma a turma do DNIT, basta que circulemos Brasil afora para sabermos que, entre o discurso e realidade, a distância é colossal. Como também, não será aumentando em mais 7 mil vereadores por todo o país, que as cidades terão trânsito melhor. Até pelo contrário: é uma despesa inútil e sem retorno.

Ou começamos a pensar e tomar atitudes desde já, ou dentro de muito pouco tempo, as cidades iram parar. O país vai parar. O prejuízo, além das milhares de vidas que se perdem, muitas ainda jovens, além das milhares de pessoas que ficam permanentemente incapacitadas, em termos materiais já passam, em valores anuais, de 30 bilhões de reais a conta do trânsito desgovernado. Com certeza, este valor poderia ser carreado para valorização da vida humana se o poder público o empregasse, de fato, na melhoria das condições de tráfego, tanto urbano quanto rodoviário. Todos ganhariam muito mais.