sexta-feira, agosto 27, 2010

A farsa vigarista do secretário

Adelson Elias Vasconcellos

Ontem, quando se divulgou que, além do vice-presidente do PSDB e mais três tucanos, também se violara o sigilo fiscal de membros da família do dono das Casas Bahia e da apresentadora Ana Maria Braga, da TV Globo, na hora antevi o truque que se estava tramando: divulgava-se a quebra de sigilo de pessoas nada ligadas à vida política para descaracterizar o crime cometido com propósito eleitoral.

Resolvi aguardar mais 24 horas para ver o desenrolar dos acontecimentos e... NA MOSCA. A turma “descobriu” um jeito de ensaboar o crime, emprestando-lhe outra conotação, mas eliminando qualquer vinculação de natureza política.

Ora, os tais indícios do comércio de venda ilegal de dados que deveriam ser sigilosos já existiam há mais tempo. Eram vendidos a solto no centro de São Paulo. Isto já vinha sendo noticiado pela imprensa.

Contudo, os sigilos dos tucanos, não. São recentes. Tinham e tem, mesmo que a Receita negue, caráter político-eleitoral. E querem saber por que tinham tal característica? Simples, porque eles foram parar justamente no comitê de campanha da dona Dilma Rousseff.

Vamos, num primeiro momento, “acreditar” na versão asquerosa do senhor Cartaxo, a de que havia indícios de compra e venda de dados protegido por sigilo, saídos de dentro da Receita Federal, mas sem conotação política. Muito bem: ocorre, e conforme a própria imprensa já tinha apurado e vinha denunciando, tais dados se prestavam muito mais para uso de marketing, de um lado, e da bandidagem, de outro. Nenhum outro político a não ser os tucanos envolvidos, teve seu sigilo “vendido”. Pois bem, vamos ainda supor que tenha sido apenas uma coincidência o fato de Eduardo Jorge e mais três pessoas ligadas ao seu partido, terem sido incluídas na lista de compra e venda ilegal.

Ora, se havia indícios do tal comércio ilegal, é justo supor que sua existência fosse do conhecimento do submundo do crime, certo? E, neste caso, que alguém do PT dele tivesse tomado conhecimento e tenha encomendado os sigilos dos nomes que lhe interessavam, na tentativa de fraudar a eleição?

Ora, a explicação com que se tenta tirar a mancha que pesa sobre o comitê de campanha da dona Dilma, torna o crime ainda pior. Por que não se vê a quebra de sigilo de gente ligada ao PT? Ou, ainda, de qualquer outro partido?

Sendo assim, “alguém” do comitê sabia da existência de uma quadrilha que quebrava sigilos ilegalmente e, ao invés de denunciar a existência do esquema, resolveu aproveitar a onda para uso político, pedindo justamente informações de tucanos. Ou seja, tornaram-se cúmplices e coniventes com a prática criminosa. Mais: dentre tantos tucanos de quem poderiam ter se apropriado de dados sigilosos, por que justo aqueles, Eduardo Jorge e mais tres? Sabem por quê? Porque isto comprova que se estava, de fato, montando um dossiê contra Serra, porque os nomes não teriam aparecido ao acaso. E esta denúncia já havia sido feita, apesar de todos os desmentidos e negativas de dona Dilma. Eram investigados pela mesma turma que, ontem, aqui, apresentamos testemunhos de pessoas ligadas ao PT e que já os denunciaram pela fabricação de dossiês contra adversários políticos. Esta é a razão pela qual os seus sigilos foram ilegalmente quebrados, mas não acaso, tiveram uma escolha pré-determinada. Conforme o mesmo Cinchetto da reportagem de ontem, tratava-se de informação "requentada", atualização do banco de dados onde se produzem dossiês, contra as mesmas pessoas que vinham sendo "investigadas" desde ...2002.

Em 2006, no caso dos aloprados, a versão que se tentou “vender” à sociedade, teve comportamento mais ou menos semelhante ao de agora. Reparem que coisa curiosa:

a.- Havia a materialidade do crime, já que o dossiê fajuto acabou aparecendo;

b.- Havia a materialidade da propina com que se ia comprar o dossiê, eram 1,7 milhão, cuja foto acabou vazando na imprensa, o que deixou o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, extremamente irritado;

c.- Havia, claro, os aloprados, gente da copa e cozinha tanto de Lula quanto de Aloísio Mercadante;

d.- Sabia-se exatamente quem venderia o tal dossiê, seu nome, endereço, CPF e filiação.

E, mesmo diante de tudo isso, a nossa Polícia Federal encerrou o inquérito inconcluso e ninguém foi punido. Aliás, segundo se mentiu à opinião pública, sequer foi possível descobrir a origem do dinheiro!!! Ah, também naquela ocasião, tanto quanto agora a Receita Federal declarou, as investigações seriam encerradas SOMENTE após as eleições. Mesmo diante de tudo que já se sabe e se sabia !!!??? O tipo de crime pode ser um pouco diferente, os personagens envolvidos também (alguns operários ao menos), mas o objetivo é exatamente igual: fraudar as eleições.
Ora, o que esta gente pensa que somos? Imbecis? Idiotas? Que a oposição nada faça contra o governo do crime organizado que está aí, lá isso é problema deles. Mas não venha a turma do governo tomar o restante da nação por perfeitos dementes, que não são capazes de distinguir a mentira descarada da verdade dos fatos.

E, por fim, uma perguntinha que já na quarta feira deixara no ar: por que, somente após a justiça haver determinado que a Receita permitisse a Eduardo Jorge ter acesso ao inquérito, é que todos estes fatos e evidências vieram a público? E por que o senhor Cartaxo demorou todo este tempo para contar esta versão dos fatos e, mesmo com uma investigação inconclusa, já descartar a motivação política como móvel direto da ação criminosa?

Querem saber de uma coisa: pela quantidade de furos contidos nesta versão do senhor Secretário da Receita Federal, não duvidem que surja uma nova versão, rapidinho, com mais “explicações” e “alternativas” que possam descartar a conotação política na quebra de sigilo dos tucanos. Eis um bom prato para os jornalistas sérios e independentes irem atrás. Tem muito mais chumbo grosso por detrás desta roseira.

E para quem tiver dúvidas do que esta turma é capaz, leia o artigo com que encerramos a edição de ontem “Um partido com longa ficha corrida de crimes. Ou, o lugar do PT é na cadeia, não no governo!”. Aliás, ali, se identifica o método – produção de dossiês contra adversários políticos – e os principais responsáveis pelo comando das operações ilegais. Ah, vejam lá também: tudo é de conhecimento de Lula que sempre autorizou as ações clandestinas deste submundo ilegal. E por que ele autorizaria? Simples: é, diretamente, o único que se beneficia.