sexta-feira, agosto 27, 2010

Um país na lama

Sebastião Nery

RIO – A praça cheia esperava o candidato chegar ao palanque. De repente, lá no fundo, a multidão começava a se movimentar, abrindo espaço para um fusca cinza passar com duas pessoas. No volante, camisa esporte, um motorista magro, bigode, cabelos negros desgrenhados e olhos arregalados, apoteoticamente aplaudido. Não ria, não agradecia, passava.

Ao lado dele, um homem alto, elegante, terno cinza, sorriso aberto, saudando o povo. Era o candidato. O fusca parou ao pé da escada, ele saiu do carro, subiu rápido os degraus, pegou o microfone :

- Antes dos oradores, quero agradecer a meu amigo motorista, que me trouxe até aqui e está saindo porque tem outros compromissos.

JANIO
O motorista era Janio Quadros, cassado pelo golpe de 1964 e, sem direitos políticos, proibido de qualquer atividade política. O candidato era o brigadeiro Faria Lima (José Vicente) que, naquele março de 1965, disputava a prefeitura de São Paulo pelo PTB, contra Laudo Natel do PR, Auro de Moura Andrade do PSD, Franco Montoro do PDC , Lino de Matos do PTN e Paulo Egidio Martins da UDN.

Faria Lima derrotou a todos, com 30% dos votos. Com Janio governador, tinha sido presidente da VASP e secretario de Viação e Obras Publicas de São Paulo. Janio presidente, foi para o BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Economico).

Na prefeitura, fez uma administração que o Dicionário da Fundação Getulio Vargas - CPDOC considerou “excepcional”:criou as subprefeituras, fez o Plano Básico Viário, abriu a avenida 23 de Maio, começou o metrô.

FARIA LIMA
Faria Lima sabia a diferença entre uma cidade e um acampamento. No discurso de posse, fez um retrato dramático de São Paulo e do pais :

- Uma cidade, para ser cidade, tem que ter mais de 50% dos serviços públicos. Se não, não é uma cidade, é um acampamento. Infelizmente, fui eleito para ser prefeito não de uma cidade mas de um acampamento.

E mostrou, um a um, os serviços públicos que faltavam à cidade de São Paulo. O discurso dele causou grande impacto. Exilado e clandestino em São Paulo, falso baiano e falso paulista, esperando o Superior Tribunal Militar me absolver, como absolveu, da condenação idiota da Justiça Militar baiana por “subversão e ameaça à segurança nacional”, acompanhei toda a campanha e o primeiro ano da administração de Faria Lima.

CASAS
Essa semana, o “Globo” trouxe duas grandes manchetes :

1.- “Governo Lula não Mudou a Calamidade do Saneamento”.
2. -“Retrato do Saneamento no Brasil”.

É inacreditável que, quase meio século depois da denúncia de Faria Lima, só três Estados brasileiros (Brasília, São Paulo e Minas) tenham “mais de 50% de domicílios atendidos por uma rede geral de esgotos” :

- “Pesquisa do IBGE revela que em 2008, sexto ano do governo Lula, o país ainda enfrentava situação de calamidade no saneamento: nada menos que 32 milhões de domicílios brasileiros (56% do total) ainda não eram atendidos por rede de esgoto, índice de país subdesenvolvido. Em 2000, quando a pesquisa foi feita pela última vez, havia 36 milhões de domicílios sem esgoto (66%), o que mostra que a situação pouco mudou”.

CIDADES
“Nesse período, os municípios sem rede coletora diminuíram apenas de 2.630 para 2.495 – cinco deles no Estado do Rio. O Ministério das Cidades descumpriu prazo para apresentar um plano de orientação dos investimentos em saneamento. O prazo acabou em dezembro de 2008”.

Este é o “retrato do saneamento no Brasil”, de sul a norte, de São Paulo a Rondônia. Uma devastadora realidade mostrando como, apesar de todos os discursos, sobretudo de Lula, os governos brasileiros trabalham mesmo é antes de tudo para os banqueiros, os especuladores, os ricos:

ESTADOS
- “Ranking nacional dos estados com domicílios atendidos por rede geral de esgoto:

Distrito Federal 86,3%,
São Paulo 82,1%,
Minas Gerais 68,9%,
Rio de Janeiro 49,2%,
Paraná 46,3%,
Pernambuco 33,9%,
Goiás 33%,
Bahia 28,8%,
Espírito Santo 28,3%,
Rio Grande do Sul 24,3%,
Ceará 23,9%,
Paraíba 22,9%,
Rio Grande do Norte 17,4%,
Mato Grosso do Sul 17,3%,
Sergipe 15,7%,
Santa Catarina 13,5%,
Tocantins 11,3%,
Roraima 10,9%,
Acre 10,1%,
Alagoas 9,6%,
Maranhão 7,6%,
Mato Grosso 5,4%,
Piauí 4,9%,
Amazonas 4,2%,
Amapá 3,5%,
Pará 1,7%,
Rondônia 1,6%.

Média do Brasil: só 44% com saneamento”.

Não é um pais, é um acampamento.

LAMA
Resumindo: em 2000, o Brasil tinha 36 milhões (66,5%) de “domicílios sem rede de esgoto.” Em 2008 o país ainda tinha 32 milhões (56%) de “domicílios sem rede de esgoto.”

Em termos de municípios, de cidades, é pior ainda. Em 2000 eram 2630 cidades (47,7%) e em 2008 ainda eram 2495 (44,8%) “cidades sem rede de esgoto”. Nem a metade das 5560 cidades do país.

Se eu não tivesse sido um menino bem educado no seminário e fosse um boca suja como o Lula, diria que o Brasil é “um país na merda”.

Não direi. Mas é impossível deixar de dizer que, 510 anos depois de Cabral, em pleno século 21, o Brasil ainda é “um país na lama”.