sexta-feira, agosto 27, 2010

Isabelita do PT

Sebastião Nery

No jantar de aniversário de um radialista amigo, em São Paulo, em 2002, José Serra, candidato a presidente da Republica pelo PSDB-PF, tenso, pegou pelo braço o deputado e criador da Força Sindical, Luís Antonio Medeiros, e levou-o para a varanda:

- Medeiros, desta vez você vai ficar conosco?

- Não posso, Serra. Sou PL e meu partido deve apoiar o Lula. Pela primeira vez vou ficar com o Lula. Da próxima conte comigo.

- Não haverá a próxima vez, Medeiros. Será agora ou nunca. Estou com 60 anos e sei que minhas energias e chances são agora. Vi o Montoro acabar o governo gagá, aos 70 anos. (Montoro nasceu em 16 de julho de 1916, terminou o governo em 1986, e morreu em 16 de julho de 1999. Serra nasceu em 19 de março de 1942.) Vai ser tudo ou nada, Medeiros. Vou jogar tudo e passar por cima de quem se puser na minha frente.

Serra
No dia seguinte, publiquei a conversa, Medeiros confirmou. Agora, 8 anos depois, novamente candidato a presidente, Serra mostra que estava enganado. Aos 68 anos, ainda tem energia, e muita, para disputar outra vez.

O que falta a Serra não é energia. É campanha, é candidatura. Seu marqueteiro Luiz Gonzalez, com o ar blasé de vendedor de apartamento em Barcelona, quer que Serra seja um sub-Lula. Então o candidato da oposição devia ser Dirceu, Palocci, Genoino, Delubio, e não Serra.

Nunca se viu uma campanha tão necessitada de Vitamina C (“Vitamina Carater”). Serra quer ser o Lula, Marina quer ser a Dilma. Se é assim, deviam ir embora para casa e deixar como está para ver como fica.

A derrocada dos dois na “pesquisa” é um silencioso e humilhante suicídio.

Pesquisa
Agora ficou claro porque o Congresso e a Justiça Eleitoral proibiram comícios, cantores, camisetas e foguetes. Nunca houve campanha em pais nenhum sem isso. É para que os recursos de campanha fossem todos canalizados para os marqueteiros da televisão e os institutos de “pesquisa”, associados às redes de TV e grandes jornais. Juntos, manipulam tudo.

É uma catapulta.Antes,as pesquisas eram mensais.Viraram semanais. Cada semana um deles lança seus números a serviço dos candidatos oficiais (nacional ou estaduais). E as televisões e jornalões martelam aqueles “números” a semana inteira, de manhã, de tarde, de noite. As TVs fazem um carnaval, de hora em hora, em dezenas de jornais diários.

No fim de semana, lá vem outro instituto escalado para a nova “pesquisa”. E nova bateria de noticiários, dezenas de vezes ao dia. A primeira “pesquisa” empurra a segunda, a segunda empurra a terceira e assim consecutivamente. Mas havia um, o “Datafolha”, fora da jogada.

Datafolha
Cada mês, uma vez por mês, a “Folha” publicava o “Datafolha”. Sempre mais de 10 mil entrevistados, ouvidos durante uma semana em milhares de municipios de todos os Estados. E daí vinha sua credibilidade.

E a “Folha” resolveu entrar na roda da fortuna, no baú da felicidade

Sábado, surpreendentemente, o “DataFolha”, que havia apresentado sua pesquisa mensal no ultimo dia 13 de agosto, aparece com “nova pesquisa”, uma semana depois. E na primeira pagina confessa o jogo:

- “Esta pesquisa foi realizada com 2.727 entrevistados, em 171 municipios, no dia 20 de agosto (sexta-feira) de 2010”.

TV
Como pode ser? Mais de 2.700 pessoas ouvidas em 171 municipios, em um dia só?Como chegar a tanta gente em um só dia?Nem Chico Xavier.

- “Dilma Dispara, Dobra Vantagem e Venceria Serra no 1º Turno”.

Todas as TVs passaram o sabado inteiro repetindo “ad nauseam”. E com elas todos os “blogs” da Internet e todos os jornalões e jornalecos da poderosa, incomparável e imbatível rede de imprensa do Franklin Martins.

Com uma “maquina de governo” desse poderio, a eleição está liquidada. E vem o parlapatão espanhol e joga Serra na garupa de Lula. Como dizia um velho mestre do Seminário, só não relincham de modéstia.

Marina
A campanha de Serra dizia que, quando o horário eleitoral chegasse à televisão, ele tirava a diferença. Só piorou. A frieza do programa dele transmite uma irreversivel mensagem de derrota. E Dilma, com seu “mestrado de mentira”, diz qualquer coisa, sem compromisso com a ética. O brasileiro tornou-se refém da TV. A TV falou, virou verdade. No “Globo”, Merval Pereira cita a Marina Silva, que denuncia “a infantilização do eleitorado brasileiro”. Não é infantilização. É “imbecilização”. E o grande culpado é precisamente a televisão. Merval sabe disso de casa.

Big Brother
Um povo que paga, e paga caro, mais de 300 mil telefonemas, quase 400 milhões de reais, para votar no “Big Brother”, o “tele-bordel” do Pedro Bial, é um povo que foi imbecilizado. E sobretudo pela TV.

O grande crime de Lula, que um dia o pais vai pagar, é haver “somosado”, “peronizado”, “chavesado”, “mexicanizado” a democracia brasileira. Esperem o governo da Isabelita do PT. Vai logo aparecer um Lopez Rega e tomar conta dela com uma “Triple A”, como na Argentina.

O “PRI” e o “Peronismo” já estão ai: o PT é filho deles. Só falta saber quem será nosso Lopez Rega: Dirceu,Marco Aurélio Garcia, Antonio Palocci, José Eduardo Dutra. Ou um Nelson Jobim de estrela no peito.