quarta-feira, setembro 29, 2010

Angu sem sal

Villas-Bôas Corrêa

Não sei se alguém já tentou fazer o mais prato mais insosso que consegui imaginar. Mas é o que imagino de mais parecido com a campanha eleitoral, com a vitória virtualmente assegurada do presidente Lula, que deve ser reeleito com o pseudônimo de Dilma Rousseff. A oposição não conseguiu inscrever um candidato com as mínimas possibilidades de vitória. No vácuo da campanha sem mote do tucano José Serra, que repetiu como papagaio ensinado a lista de milagres que realizaria “quando eleito” – duas potocas numa mesma frase, a candidata Marina Silva com brilhante desempenhou a urgência da defesa do meio ambiente e ficamos por aí.

A verdade é que a campanha não era para valer, uma brincadeira do faz-de-conta para fugir dos temas ausentes, taticamente escondidos no ridículo do programa de propaganda eleitoral, com o patusco blablablá de candidatos que não diziam coisa-com-coisa e, pior quando tentavam propor soluções para a crise da desmoralização do Legislativo e a orgia de gastos do Executivo.

Mas, não havia como consertar o pau que nasceu torto. A campanha fugiu sempre, no blá-blá-blá dos candidatos do temas que a desafiavam e para os quais nem governo nem oposição têm propostas claras e viáveis.

A bagunça que se instalou no Legislativo, com o avanço ao cofre da Viúva para o mais descarado saque que transformou o mandato de senador e de deputado – copiados pelas assembleias estaduais e câmaras municipais – num dos melhores empregos do mundo, só tem paralelo na distribuição de sinecuras aos seus cupinchas nos dois mandatos do presidente Lula, o viajante que correu o mundo na cabala para o reconhecimento com o líder mais popular do planeta.

Ninguém na campanha apresentou uma proposta para enxugar o monstrengo do ministério que inchou até a obesidade mórbida, a reclamar dieta severa, a pão e laranja.

E nada foi proposto para moralizar Brasília, a capital construída pelo presidente Juscelino Kubitscheck e inaugurada antes de estar pronta em 21 de abril de 1960, um canteiro de obras no lamaçal do planalto. Dos 350 mil habitantes do projeto de Lúcio Costa, nela se espremem mais de três milhões. Em vez do distrito federal, sede dos três poderes é uma cidade com governador, assembleia legislativa, câmara municipal invadidas pelos rorizes, com os espetáculos da distribuição de pacotes de propinas escondidas nas meias, nas cuecas.

No terceiro mandato de Lula-Dilma não haverá uma gaveta de escrivaninha para tais aborrecimentos. Mas, certamente continuaremos a construir milhares de casas populares, a distribuir as cestas básicas que garantem as três refeições diárias dos pobres e demais itens da rotina de trabalho do presidente Lula.

A malha rodoviária em pandarecos depois dos temporais deste ano continua à espera de reparos. Não se pode fazer tudo ao mesmo tempo.

Depois, ninguém é de ferro. O presidente precisa viajar, conhecer o mundo para ser conhecido. E nenhum presidente na história deste país viajou mais do que o presidente Lula. A presidenta Dilma Rousseff parece mais sossegada.

Os servidores do Palácio do Planalto vão estranhar muito.