quarta-feira, setembro 29, 2010

Especialistas veem investimento e contas públicas como desafios para o Brasil

BBC Brasil

A geração de novas fontes de investimento e o equilíbrio das contas públicas são os principais desafios para o Brasil garantir um crescimento econômico sustentável nos próximos anos, afirmaram nessa segunda-feira os participantes do debate “A Riqueza do Brasil – Os Desafios da Economia”, promovido em São Paulo pela BBC Brasil e pela rádio CBN.

Na opinião do economista e ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Franco, a taxa de juros no Brasil deve ser reduzida para possibilitar um maior investimento do setor privado na economia. Ele comparou o desafio de reduzir os juros com o de acabar com a hiperinflação, em meados dos anos 1990.

“Continuamos sendo uma economia se recuperando de uma patologia muito séria. (...) Ela ainda incomoda a ponto de produzir essa taxa de juros que prejudica o nosso crescimento”, disse Franco, em referência ao uso dos juros como mecanismo de controle da inflação.

O economista e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Antônio Corrêa de Lacerda defendeu uma revisão no atual sistema de metas de inflação – tido como um dos pilares da política macroeconômica brasileira – por, em sua opinião, induzir uma taxa de juros maior que o necessário. Para ele, é necessário criar alternativas privadas de investimento para garantir a sustentabilidade do crescimento.

Competitividade
Na opinião de Lacerda, também há espaço no país para o que chamou de “políticas de competitividade”, com foco nas áreas de indústria, comércio e ciência e tecnologia.

A competitividade também foi citada pelo diretor do Departamento de Pesquisa e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Francini. Para ele, tanto as taxas de juros como a carga tributária são fatores que dificultam a posição dos produtos manufaturados brasileiros frente aos de outras economias, como a chinesa.

Francini reconhece como positivas as projeções quem apontam para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) superior a 7% em 2010 no Brasil, mas ele afirma que a base de comparação é “muito débil” - no caso, o ano de 2009, quanto o aumento do PIB foi de -0,2%.

Já para o economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Fábio Giambiagi, o crescimento do Brasil já é consolidado e não pode ser comparado a um “voo de galinha”. Mas Giambiagi ressaltou o déficit de conta corrente e a baixa taxa de investimento em relação ao PIB como problemas a serem resolvidos no país.

Giambiagi afirmou que, além de executar políticas sociais, o Estado tem um papel a cumprir nas áreas de financiamento e infraestrutura. No entanto, ele espera que ocorra um fortalecimento do setor privado enquanto investidor nos próximos anos. "A resposta [sobre o papel do Estado na economia] dada hoje difere daquela dada 15 anos atrás, como provavelmente difere da que poderemos dar daqui a dez anos", disse.

Contas públicas
O equilíbrio no orçamento público foi apontado por Gustavo Franco como um dos principais objetivos a serem alcançados pelo governo que tomará posse em janeiro. Segundo o ex-presidente do BC, o papel do próximo ministro da Fazenda deverá ser “pedagógico”, para ensinar à sociedade a importância de equiparar receita e despesa nas contas públicas e evitar o endividamento.

“Nós estamos sempre criando encargos para nossos filhos e netos. Hoje nós nos endividamos para eles amanhã pagarem o custo”, disse o economista.

Na opinião de Antônio Corrêa de Lacerda, é importante a sociedade ter consciência de que o custo do financiamento da dívida pública fica entre 5% e 6% do PIB ao ano, o que representa um valor de 6 a 8 vezes maior que a taxa anual de investimento.

O debate, realizado no Espaço Reserva Cultural, foi o primeiro da série “O Futuro do Brasil”. O segundo encontro, que ocorreu dia 20, teve como tema “A Capacidade do Brasil – O Papel da Educação”.

Já o terceiro debate, aconteceu dia 27, intitulado “O Brasil no Mundo – Política Externa e a Defesa do Meio Ambiente”.