Adelson Elias Vasconcellos
Nos últimos dias, temos destacado o grande desafio que o próximo governante brasileiro terá pela frente: recuperar a sanidade das contas públicas.
A irresponsabilidade de Lula neste quesito só não estourou ainda devido a três aspectos: primeiro, recebeu o país já com as reformas no campo econômico em pleno andamento. Fernando Henrique entregou um Estado com suas finanças recuperadas, um mercado financeiro também saneado mas devidamente bem regulado, programas sociais em pleno andamento e dotados de um cadastro excepcional das famílias que poderiam ser incluídas nos programas, uma reforma na área da educação através da qual universalizou-se o ensino fundamental e a adoção de exames de avaliação em todos os níveis para detectar os pontos nevrálgicos e atacá-los de forma pontual, políticas públicas na área da saúde reconhecidas mundialmente, e que muito contribuíram para redução da mortalidade infantil, além de um projeto de recuperação e saneamento da infraestrutura e com muitas obras em execução.
Este quadro foi fundamental para Lula poder governar com tranquilidade. Caberia dedicar-se no aprofundamento das políticas sociais e tocar em frente outras reformas indispensáveis à modernização do país. Escolheu a primeira, por ter efeitos eleitoreiros que poderia colher nas urnas.
Pode viver um primeiro mandato e metade do segundo, com uma velocidade de crescimento e desenvolvimento da economia mundial como nunca vista. Não apenas o Brasil, mas todos os países cresceram suas economias. Os emergentes puderam também avançar no campo social. Como o Brasil fizera seu dever de casa no período 1995-2002, estava em condições plenas para crescer também.
Porém, as mudanças que a crise mundial de 2008-20009, trouxe para o país a necessidade de não mais adiar suas reformas. Contudo, Lula a partir de 2007, mas, principalmente, em 2008 e 2009, passou a governar o país com um único propósito: fazer ele próprio seu sucessor ou sucessora. Assim, dali em diante, todos os recursos do Estado foram canalizados com o propósito eleitoreiro. Não importavam mais assumir os riscos políticos que as reformas pudessem acarretar, mesmo que elas fossem e sejam indispensáveis para a sustentabilidade do nosso crescimento. Importava mais impactar o eleitorado com políticas de curto prazo, capazes de engordar estatísticas positivas.
E a política fiscal de Lula, até então disciplinada, foi jogada para escanteio. Os gastos públicos dispararam de forma impressionante. Resultado? Como tais políticas tem prazo de validade pequeno, neste final de mandato, não se consegue disfarçar e maquiar com truques contábeis, a política fiscal irresponsável . E, cada vez mais, tais práticas passam a trazer desconfianças quanto ao clima favorável para novos investimentos que deem novo impulso ao nosso desenvolvimento.
Nada do que se vê no horizonte, será capaz em curto tempo, de abalar a confiança lá fora sobre a saúde econômica do país. Só que um quadro de desconfiança não ocorre da noite para o dia, nem tampouco é derivado de uma ou outra medida impensada. Trata-se de um processo que, lentamente, vai se afirmando até eclodir em um conceito completo.
Temos apresentado inúmeras análises sobre estes sintomas, feitas por especialistas econômicos que apontam quais falhas precisam ser corrigidas e quais pontos devem ser atacados com urgência, para que o país possa sustentar seu crescimento em níveis satisfatórios.
Não são, ainda, avaliações críticas do tipo terra arrasada, mas sinais de advertência para adoção preventiva de medidas saneadoras para evitar uma total deterioração das contas públicas, cujos resultados negativos o Brasil sabe bem quais são.
Já disse aqui várias vezes que Lula teve um excepcional período para alavancar e consolidar o crescimento do país. E, pelas condições favoráveis que encontrou associado ao seu capital político, poderia sim ter levado adiante reformas que precisam ser implementadas como a reforma tributária – esta, então, prioridade número um -, mas também reforma política, reforma da previdência, estabelecimento e fixação de marcos regulatórios que tenham regras seguras para atração de investimentos produtivos e na área da infraestrutura, qualificação da educação, dentre outros.
Ao não levar avante estas reformas, evitando o risco de perda de capital político, Lula abriu mão de se tornar um estadista, para restringir-se apenas ao papel de governar. Seu excepcional índice de aprovação nada tem a ver com isso. Tanta aprovação não se concentra efetivamente aos aspectos objetivos de governo. Já mostramos pesquisas que avaliavam negativamente o governo nos campos da educação, saúde, segurança e infraestrutura, como se o governo fosse um ente distanciado de seu comandante.
Portanto, é bom que todos comecem a cobrar do eleito ou eleita, atenção às questões econômicas para assegurarem os necessários recursos para investimentos na melhoria e qualificação dos serviços públicos que, como já vimos várias vezes, foram solenemente esquecidos de 2003. Não basta apenas ter vontade de se realizar coisas boas para o país. É preciso assegurar que , não apenas não faltem os recursos necessários, mas, principalmente, para que eles sejam aplicados com competência.
Em resumo: está na hora do Brasil voltar a fazer de casa, esquecido nestes últimos anos, e cuja negligência pode comprometer o crescimento do país no futuro.