domingo, setembro 19, 2010

Caso Erenice : Capítulos de uma tragédia inacabada.

***** Marido negociou com Ministério da Defesa
O Globo

Além de obter um contrato de trabalho na Eletronorte quando a mulher, Erenice Guerra , era conselheira da estatal, o engenheiro elétrico José Roberto Camargo Campos tentou fechar um contrato com o Ministério da Defesa para uma empresa de telefonia.

Em 2004, ele fez gestões para implantar o serviço móvel da Unicel Telecomunicações do Brasil na Defesa, à época comandada pelo ministro José Viegas Filho, conforme reportagem publicada pelo jornal "Correio Braziliense".

O marido de Erenice trabalhou para a empresa telefônica, que opera no interior de São Paulo. O ministério confirma que a empresa tinha interesse no negócio e chegou até a apresentar um projeto, mas informa que a transação não foi adiante.

À época, por ordem de Viegas, um grupo de trabalho avaliou os testes na tecnologia, mas, segundo a Defesa, eles "não prosperaram".

A Unicel nega que o marido de Erenice tenha intermediado a negociação. Em nota, explicou nesta sexta-feira que ele não estava em seus quadros em 2004 e, quando contratado, teve apenas funções técnicas.

Na telefônica, ele teria sido o responsável por implantar a rede móvel de celular em São Paulo, de 2008 a 2009. A empresa informou que outras pessoas fizeram contato com o ministério.

"Nunca houve negócios (serviços remunerados de qualquer espécie) em discussão com Ministério da Defesa, mas sim testes com soluções tecnológicas inovadoras", diz a empresa no comunicado, acrescentando que o serviço não teria custo para o ministério e que ainda não obteve a licença comercial da tecnologia na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Procurado nesta sexta-feira, José Roberto Campos desligou o telefone assim que o repórter do GLOBO se identificou.

Atualmente, ele é sócio de Ércio Muniz Lima, gerente da Eletronorte, na Matra Mineração, empresa que faz pesquisas no entorno do Distrito Federal com autorização do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

***** Filho levou amigos para a Casa Civil
Fernanda Odilla, Andreza Matais, Fábio Amato e Rubens Valente, Folha De S. Paulo

Três pessoas que trabalharam com Israel na Anac, uma delas seu sócio oculto em empresa, foram nomeadas para a pasta

Um dos amigos de Israel pediu demissão ontem; envolvidos não foram localizados para falar sobre nova revelação

O filho de Erenice Guerra, que perdeu o cargo após acusações de tráfico de influência, levou amigos para trabalhar na Casa Civil quando o ministério era comandado por Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência.

Israel Guerra e dois amigos são apontados por empresários como o "grupo do lobby" que usava uma empresa privada para intermediar reuniões, viabilizar projetos e liberar recursos no governo.

Israel, Stevan Kanezevic, Vinícius Castro e Marcelo Moreto trabalharam juntos na Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

Em seguida, os três amigos do filho de Erenice foram nomeados para ocupar cargos na Casa Civil sob Dilma - quando Erenice, seu braço direito e depois sucessora, era secretária-executiva da pasta.

***** Funcionários da Abin estavam presentes
Roberto Maltchik e Geralda Doca, O Globo

Quatro dias depois de romper com a Capital, empresa de filho de Erenice Guerra que teria feito lobby junto ao BNDES , o consultor Rubnei Quícoli enviou uma mensagem aos sócios da EDRB, responsável pelo projeto, relatando a presença de dois supostos agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) numa reunião, em Brasília, com o ex-diretor de operações dos Correios Marco Antonio de Oliveira.

No e-mail, enviado em 6 de fevereiro de 2010 a Aldo Wagner e Marcelo Escarlassara, Quícoli relata como foi reunião, da qual teriam participado, além de Oliveira, um auxiliar identificado como Guilherme e agentes da Abin.

O encontro teria ocorrido no flat 3044 do Hotel Brasília Alvorada Towers, usado por Marco Antonio.

Na conversa, segundo Quícoli, Oliveira desabafou sobre o estrago provocado pela negociação fracassada, irritando a então secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra. Quícoli cobrava aprovação de financiamento no BNDES para EDRB.

Segundo o e-mail, após 30 minutos de conversa "escutando a choradeira de MA" (Marco Antônio), apareceram no ambiente "dois PF da Abin que (sic) estavam escondidos no banheiro do flat".

Quícoli relata que os agentes teriam dito que "estavam ali para me ouvir e não seria para prejudicar (a negociação)".

Ao GLOBO, Quícoli disse nesta sexta-feira que a reunião ocorreu à noite, e que não conseguiu identificar os supostos agentes que acompanhavam a negociação com Oliveira:

- Estava escuro e minha preocupação maior era com o Marco Antonio e com o que estávamos conversando.

Quícoli afirmou que, mais tarde, o grupo foi ao encontro de Vinícius Castro, sobrinho de Oliveira e peça-chave do lobby dentro da Casa Civil.

Nessa conversa, Vinícius teria reforçado que os dois vigias seriam agentes do serviço de inteligência.

Vinícius pediu demissão na última segunda-feira, após a revelação pela revista "Veja" de que ele estaria intermediando a renovação da licença da empresa de transporte de carga Master Top Airlines junto à Anac, mediante propina. A MTA nega a negociata.

***** Funcionário sob suspeita é afastado
O Globo

Stevan Knezevic, um dos envolvidos na denúncia de tráfico de influência no governo, confirmou que foi afastado de suas funções na Casa Civil. Ele havia sido cedido pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), para onde voltará.

Na última segunda-feira, outro funcionário da Casa Civil, Vinícius Castro, já havia caído . Na quinta-feira, foi a vez da própria ministra, Erenice Guerra.

Segundo a revista "Veja", Stevan, juntamente com Vinícius e o filho de Erenice, Israel Guerra, controlavam a Capital Consultoria, empresa acusada de cobrar comissão para viabilizar negócios de outras empresas dentro do governo.

Um dia depois de pedir demissão do cargo de ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra sofreu uma "censura ética" da Comissão de Ética da Presidência, por não ter prestado informações sobre patrimônio, sociedade em empresas e a relação de seus parentes com o serviço público, quando tomou posse na pasta, em abril.

A comissão também decidiu, por unanimidade, converter o processo de apuração preliminar das denúncias de tráfico de influência contra Erenice em um processo de apuração ética.

Avaliado dentro do Palácio do Planalto como o nome natural para assumir o comando da Casa Civil no lugar da ex-ministra Erenice Guerra, a coordenadora-geral do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), Miriam Belchior, perdeu força ao longo do dia.

Preocupado com a possibilidade de um novo desgaste para o Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode prolongar a interinidade do secretário-executivo da Casa Civil, Carlos Eduardo Esteves Lima, no posto.

O temor de Lula é que a nomeação de Miriam possa resgatar, a apenas duas semanas da eleição, o polêmico episódio do assassinato do ex-prefeito petista de Santo André Celso Daniel, com quem ela foi casada.

***** Serra pede mais decência, e o Brasil honesto também
Letícia Lins, O Globo

O presidenciável José Serra (PSDB) afirmou nesta sexta-feira que o Brasil precisa de decência e advertiu que nenhum país vai para o Primeiro Mundo "mergulhado em sucessivos escândalos no coração do governo, que é a Casa Civil".

Em visita a Aracaju (SE) - onde chegou três horas e meia atrasado -, o candidato comentou o escândalo na Casa Civil , envolvendo parentes da então ministra Erenice Guerra, que deixou o cargo na quinta-feira .

Serra chamou a atenção dos eleitores para a necessidade de moralizar o país.

- Nós temos oportunidade de darmos um basta a isso (à corrupção e ao tráfico de influência) através dessa eleição. Essa eleição é precisamente para resolver isso. O problema da ética não pode ser tratado como algo natural, da menor importância. A eleição é para mudar essas coisas que estão erradas, para se dar um rumo de ética mo Brasil - afirmou o candidato, em uma tumultuada entrevista ao desembarcar no Aeroporto Santa Maria, de onde saiu para uma carreata pelas ruas principais da cidade.

Ele acrescentou que var nomear gente que conhece porque "não dá para nomear para cargos chave, pessoas que você não conhece ou conhece há pouco tempo":

- Na Casa Civil, já é o terceiro escândalo. É um atrás do outro. Você tem que nomear gente, tem que dar um padrão de comportamento dentro do governo. Eu tenho 27 anos de vida pública, de cargos no Congresso e no governo e nunca nada disso aconteceu. Por quê? Porque você forma equipes com pessoas que você conhece e você controla. O que é fundamental.