terça-feira, setembro 28, 2010

Cirurgias por votos em São Gonçalo

Rafael Galdo, O Globo

Em São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado (Rio de Janeiro), o voto pode valer uma consulta médica ou o caminho facilitado para uma cirurgia.

Às vésperas das eleições, cabos eleitorais do candidato a deputado estadual Márcio Panisset (PDT), ex-secretário municipal de Saúde e irmão da prefeita Aparecida Panisset, encaminham eleitores para atendimentos prioritários no pronto-socorro da cidade, sem passar pela emergência lotada.

Na última terça-feira, uma equipe do GLOBO foi até um comitê de Panisset, na Rua Francisco Portela, no bairro Camarão. O repórter passando-se por um eleitor, com uma tia precisando de cirurgia para retirada de mioma, foi recebido por duas mulheres. Elas indicaram uma pessoa, que poderia ser encontrada no terceiro andar do pronto-socorro, chamada Patrícia (seria ex-secretária de Panisset), com objetivo de viabilizar a cirurgia.

A equipe voltou duas outras vezes para tentar encontrá-la. Para chegar até ela era preciso passar por uma entrada lateral do hospital, onde se forma uma fila, apelidada de "fila dos abençoados".

A primeira tentativa ocorreu, na última sexta-feira, mas não houve atendimentos. A segunda foi ontem: por volta das 9h, sete pacientes já esperavam, mas foram informados de que só seriam atendidos a partir de 4 de outubro. Eles perguntavam se haveria consultas mesmo após as eleições. E alguns contaram ter sido encaminhados à unidade por cabos eleitorais de Panisset.

— Foram na minha casa — afirmava uma delas, acrescentando que uma amiga teria sido operada no fim de semana.

A equipe do GLOBO retornou, então, ao comitê de Panisset, onde outro integrante da campanha, identificado como Josildo, suposto chefe do comitê, afirmou que haveria atendimento, às 11h.

De volta à "fila dos abençoados", mais pacientes aguardavam. Em vez de Patrícia, chegou outra mulher, às 12h, que se identificou como Sheila.

Antes mesmo de entrar no hospital, ela foi cercada por pacientes. Ao saber do caso da suposta mulher com mioma, indicada pelo comitê de Panisset, Sheila pediu para que a "paciente" a procurasse, a partir das 17h no pronto-socorro, com exames prontos, para ser consultada sem passar pela emergência.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Reparem no detalhe: isto acontece em um estado como o Rio de Janeiro. Agora, imaginem o que não se passa nos grotões do país? Sei que é difícil para o TSE estar presente em todo o território nacional, fiscalizando cada um dos milhares de candidatos soltos por aí. Mas o TSE tanto pode quanto deve reunir todas as forças de segurança, civis e militares, para os procedimentos de segurança e fiscalização para garantir a lisura das eleições. E sem condescender com os que forem pegos em flagrante. Afinal, qual é a missão do TSE? Por certo, não é apenas contar votos e declarar o resultado final. Também é a de garantir que ninguém, com ações fraudulentas, comprometa a vontade final dos eleitores. Porém, duvido que o TSE tenha tomado tal providência. Quando muito destacará, para determinadas cidades, alguns agentes da Polícia Federal e colocará destacamentos militares em municípios onde haja alguma possibilidade de confusão. Mas isto tudo só não basta. O caso acima comprova que a fiscalização deve ser extensiva e ostensiva.