terça-feira, setembro 28, 2010

Se lixando... E rumo à reeleição

Maria Lima, O Globo

Deputado que afirma não ligar para a opinião pública deve ser reeleito no RS

SANTA CRUZ DO SUL (RS) - Destituído da relatoria do caso Edmar Moreira (o homem do castelo) no Conselho de Ética da Câmara por inocentá-lo antes do julgamento, o deputado Sérgio Moraes (PTB-RS) mantém o poder na região de 40 municípios ao redor de Santa Cruz do Sul. Ele ficou conhecido no país ao dizer: "Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Nós nos reelegemos mesmo assim." Um ano depois, com o apoio dos produtores de fumo, ele deve se reeleger com votação recorde e ainda dar ao filho Marcelo um mandato de deputado estadual.

A mulher, Neiva Terezinha Marques, conhecida como Kelly Moraes, já é prefeita da cidade. Domingo, ele liderou uma carreata com mais de 400 veículos por Santa Cruz, desfilando num caminhão enfeitado com cartazes da presidenciável Dilma Rousseff e propaganda dos fumicultores, ao lado de Marcelinho e Kelly. Por onde passa, é saudado com devoção.

Como ele mesmo diz, em vez de atrapalhar sua carreira, o fez famoso nacionalmente. Na eleição passada teve 80 mil votos. Agora, diz que será reeleito com cerca de 100 mil. Ao descer do carro e ser abordado pelo GLOBO, Moraes levou um susto:

- Essa aí é aquela bandida do estouro daquele caso que me deixou famoso. Vou gravar tudo porque tenho medo de ti - disse ele para a repórter.

Depois de gravar parte da entrevista, relaxou e fez questão de passear pela cidade para mostrar como era querido. A primeira parada foi num bar, onde abraçou e conversou com intimidade com os presentes. Disse que em toda a campanha umas 20 pessoas questionaram sobre o caso do "se lixa", mas poucos teriam se incomodado.

- Eles ( os eleitores) não se importam. Ficaram furiosos com vocês. Eu abraço, sou do carinho, sou do beijo. Não sou demagogo - disse Moraes.

No bar, isso foi confirmado por Rogério Guineval, comerciante de alimentos.

- Ele pode ter dado um palavreado errado, mas foi culpa da imprensa, que imprensou ele muito. Ele é do povo - disse.

A outra parada foi na frente do prédio onde se realiza a October Fest, a partir do dia 6. Numa tenda encontrou vendedores comendo churrasco. Um deles, Antonio Tim, riu ao lembrar outro caso que deu o maior bafafá. Kelly resolveu erguer uma estátua em homenagem aos fumicultores. Ao apresentar o projeto, mostrou uma imagem de Santo Agostinho, que acharam parecido com Moraes.

- A prefeita mudou o desenho, mas o santo continuou a cara do Moraes - disse Tim, às gargalhadas.

- Viu? É assim que o povo faz: ri das coisas que acontecem comigo - disse Moraes, culpando a imprensa pela confusão.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Pois é, não faz muito, publicamos aqui declaração de uma eleitora de Alagoas que afirmou que sabia que Collor roubava, mas que votaria nele mesmo assim. Acima, vemos que, apesar da declaração do deputado gaúcho, na época, ter estarrecido muito gente, eis aí no que consiste a consciência cidadã de grande parte da população brasileira.

E se alguém ainda tiver dúvidas, é só procurar no arquivo do blog, pesquisa feita pelo IBOPE para a Associação dos Magistrados do Brasil, comentando no artigo COMPRA E VENDA DE ELEITORES (clique aqui), e do qual destacamos este trecho:
“(...) E aí chegamos ao terceiro e mais importante aspecto demonstrado pela pesquisa. Quando questionada sobre compra/venda de voto, a maioria da população se indigna, diz conhecer quem já comprou e quem já vendeu voto, 43% e 41%, respectivamente, recrimina a atitude, etc. Mas, pouco mais de 40% afirmaram que denunciaram algum caso se conhecessem. Porém, reparem neste ponto: 13% informaram que votariam em alguém, mesmo que este “alguém” comprasse votos. E mais: uma grande parcela da população informou que trocaria seu voto por algum tipo de benefício que algum candidato lhe oferecesse, ou seja, “venderia” seu voto.

Quando este dado é classificado por regiões, a gente alcança algumas respostas para algumas questões intrigantes que as pesquisas deixam solta no ar. Antes disso, veja-se o mapa do Brasil, dividido em regiões, sobre a venda de voto por parte dos eleitores:

• Sul – 8%
• Sudeste – 10%
• Norte e Centro Oeste – 13%
• Nordeste – 21%

A exceção do Nordeste, nas demais regiões o resultado da pesquisa acredito não ser tão significativa, afinal, num total de mais de 130,0 milhões de eleitores, com diferentes formações, cultura, escolaridade, condição sócio-econômica, sempre encontraremos neste universo, faixas de pessoas com pensamentos sobre comportamento político também variado.

O assustador é que, no Nordeste, a margem de eleitores que se aceitariam vender seu voto é bastante elevada. Um em cada 5 eleitores não se constrangeria em cometer um crime, porque tanto a compra quanto a venda de voto são considerados crimes eleitorais(...)”.

Portanto, diante de um eleitorado que se comporta desta forma na hora de votar e, mesmo com grande parcela admitindo vender seu voto, como se espera que a classe política vá tomar jeito e criar vergonha na cara? Fica difícil, não é mesmo? Sabedores desta degradação dos costumes políticos, nossos “representantes” deitam e rolam na imoralidade absolutos, certos de que na próxima eles se reelegem.

Claro que se o país contasse com uma educação pública de qualidade, até seria possível ter esperanças  de alguma melhora. Mas e quem disse que há interesse de que a escola pública forme cidadãos? Quem?