Adelson Elias Vasconcellos
Ouço, aqui e ali, gente dizendo que Lula, em Santa Catarina, teria pedido que se extirpasse o DEM da vida política brasileira apenas no contexto eleitoral. MENTIRA. Esta é versão cínica e mistificada com que tentam juntar os cacos de um discurso marcantemente odioso e estúpido, tendo em vista que a reação consequente à fala imbecil foi negativa. Se, em tal contexto eleitoral a frase de Lula pudesse ter conotação, por mínima que fosse, deveria tê-la dito no próprio discurso. Dias antes, com o mesmo ódio e furor, dirigiu-se ao eleitorado paulista com agressões verbais desmedidas em relação aos tucanos.
Da mesma forma, Lula sempre que sobe num palanque, esquece do cargo que ocupa, põe de lado o decoro indispensável para quem tem sido presidente há quase oito anos. Sendo assim, que faça política partidária, é uma coisa, outra, bem diferente, é chutar a linha de respeito e educação, inerente ao qualquer ser humano. E, se alinharmos o Lula, seja na oposição, seja no governo, seus discursos inflamados e plenos de um repulsivo ódio contra os “outros” nunca mudou de tom. Então, sem esta de “contexto eleitoral”. Para Lula nunca houve “contextos”, como nunca houve limites para o desrespeito e descompostura. Ele é o que sempre foi, além de demagógico e bravateiro, um cão raivoso, apesar de politicamente dotado de uma inteligência fora do comum..
A versão hipócrita do tal contexto eleitoral tem sido repetida por Dilma Roussef que, em complemento, ainda tenta justificar que o DEM, há alguns anos, teria se manifestado sobre um “finalmente vamos nos livrar desta raça por uns 30 anos”. Só que o contexto em que esta frase foi proferida, Dilma faz questão de ignorar, faz questão de não lembrar. Mas, alguns decentes e honestos deste país, nem tampouco ignoram como ainda fazem questão de lembrar. Ela foi dita por Jorge Bornhausen, na época presidente antigo PFL, mais tarde DEM, e foi pronunciada no auge do mensalão que escondia um golpe sim, mas não das oposições, e sim de Lula e seu partido, na tentativa de cooptar o Congresso Nacional para aprovar projetos não de interesse do país, mas de interesse do partido, dentro de seu projeto de poder. Já Lula, viajando com dinheiro público até Santa Catarina, subiu no palanque na condição de presidente da República. Será que a Dilma consegue perceber a diferença entre um fato e outro? Acho que não, para fazê-lo, teria que ter um mínimo de senso moral, atributo impossível de se encontrar em qualquer petista.
Vou além: se, na ocasião em que o mensalão viesse a público, não tivesse o PSDB se acovardado miseravelmente, e seguido a lei maior do país, deveria e poderia ter aberto, sim, um processo de impeachment contra Luiz Inácio, porque, por muito menos, Fernando Collor havia sido despejado do Planalto em 1992. E não se poderia dizer, sob hipótese alguma, de que o ato representava um golpe. Ao contrário: o que ali se praticaria seria exatamente um ato absolutamente legal, previsto na legislação vigente do país, para evitar justamente um golpe contra a democracia, contra suas instituições e contra o estado de direito. A ação seria, justamente, para preservar e legitimar a normalidade democrática.
Que Dilma, a exemplo de Lula, venha querer contar sua visão distorcida dos fatos, é a isto que chamamos de o jeito cínico e mistificador do PT de fazer política. Contudo, não lhe cabe impor a mentira em lugar da verdade, na tentativa de reescrever a história com as tintas da pura falsidade. Pode até tentar, porém não é um direito.
Portanto, Lula agiu do modo como agiu em Santa Catarina não movido por “contextos eleitorais” coisíssima nenhuma. Até porque, fora dos períodos eleitorais, o seu discurso tem se sintonizado no mesmo diapasão. Desde que assumiu tenta apagar os feitos do governo que, graças aos projetos que implementou, se tornaram a base de sustentação na qual Lula construiu o sucesso de seu próprio governo. A estabilidade tanto econômica quanto social tiveram suas linhas mestras devidamente costuradas entre 1995 a 2002. Porque se a gente for fazer um apanhado do que seguiu depois, provavelmente, a lista do que se deixou de fazer – e que era necessário para o Brasil – será muito maior daquilo que realmente Lula, de fato, realizou. Mentir, sem dúvida, ele mentiu bastante, como nuncadantez na nossa história um presidente foi capaz de fazer. Iludir, sem dúvida, aí está a propaganda oficial que se tornou a grande farsa e peça ficcional para exibir aos olhos do povo, um Brasil que não existe, de pura fantasia. Corrupção, tráfico de influência, desvio de dinheiro público, superfaturamento, falta de transparência, agressão constante às instituições de Estado e transgressão sistemática aos códigos legais em vigor, acobertamento e até impedimento de investigações de atos ilegais, nisto é que se resume oito anos de poder. Porém, e sempre que quiser falar de projeto de país, de construção das bases de um futuro promissor, por uma questão de inteira justiça, a régua do tempo precisará recuar para 1995 até 2002.
É meritório manter o legado do governo anterior e depois, de forma cínica, apropriar-se da obra alheia e vendê-la como se sua fosse? Para pessoas de caráter, a resposta seria um sonoro “não”. Para as outras, não veriam aí nenhum constrangimento. É decente – para se dizer o mínimo – boicotar todos os programas e projetos implementados no governo anterior e contra os quais berrou e esbravejou, boicotou e tentou impedir suas realizações enquanto esteve na oposição para, em contrapartida, já assentado no poder, não apenas nada mudar, como ainda vender a obra alheia como sendo sua? E seria lícito e moralmente admissível alguém passar mais de 20 anos vociferando que, no poder, “vou mudar tudo isso que está aí”, para, uma vez instalado na cadeira presidencial, querer modelar seu figurino ao traje que um dia negou-se em usar?
Por isso, fica inconcebível imaginar-se que o povo brasileiro possa declarar-se livre. Porque, além da má formação escolar, ou, até em números injustificáveis a falta dela, saber-se que cerca de 90% não consegue ter acesso à informação, sabendo-se que, no recente caso de quebra de sigilo fiscal que, em outros países representariam um desastre total para candidatura governista e, no Brasil, ao contrário, ela se mantém nos mesmo índices justamente porque a população, em sua quase totalidade, sequer sabe o que significa este direito contido na constituição do país, é possível perceber o quanto este mesmo povo acabou se constituindo em verdadeira massa de manobra, despojada de sua cidadania sobre a qual sequer tem consciência.
Fica claro, portanto, que povo educado é povo livre, e vice-versa. Infelizmente, no caso brasileiro, este ainda é um sonho distante, gostem ou não, porque por aqui, ainda se troca voto por um cartão de plástico através do qual consegue se manter em pé. No que dia em este povo passar a ser tratado com respeito e dignidade, não porque os governantes acham conveniente à sua desmedida ambição política, mas porque assim o povo exige que seja feito, o faz por ser direito inalienável de cidadão, com plena consciêncica de si mesmo e de seus direitos, com a clareza que apenas o conhecimento, a educação e a cultura são capazes de lhe dar, é que começará a se livrar, definitivamente, dos grilhões que o mantém escravo da vontade dos oligarcas políticos mas, principalmente, dos tiranos populistas que lhes acenam com a fantasia colorida das mentiras, travestidos em salvadores da pátria.