Monica B. de Bolle - O Estado de São Paulo
Há dois anos o mundo enfrentava o impensável: a paralisação total dos mercados de crédito globais, com consequências devastadoras para a atividade e o comércio mundiais. Passado o pior, o estado da economia global ainda é sofrível. O sucesso da estabilização dos sistemas financeiros estancou a sangria das instituições bancárias, mas não impediu a manifestação dos outros sintomas da doença do excesso de endividamento. A complexidade dos dilemas remanescentes tem incitado os países a buscar formas mais fáceis de viabilizar o ciclo virtuoso de crescimento e redução de passivos. É essa a tentação que ameaça a estabilidade econômica mundial.
Administrar a transição para um crescimento autossustentável em meio aos balanços sobrecarregados coloca os gestores de política econômica diante de um dilema particularmente intrincado. Por um lado, a resolução do excesso de endividamento, necessária para restaurar o crescimento de médio prazo, requer medidas de austeridade para gerar os fluxos que permitirão reduzir a dívida. Mas a geração desses fluxos, por intermédio de um aumento das poupanças privada e pública, limita ou compromete o crescimento de curto prazo, impedindo que a demanda doméstica catalise o ciclo virtuoso de retomada da atividade e encolhimento dos passivos.
Alguns argumentam, inclusive, que a tentativa de gerar os fluxos para reduzir os passivos hoje, em meio à fragilidade das economias avançadas, aumenta os riscos de uma espiral deflacionária, razão pela qual insistem na adoção de estímulos adicionais. A enorme dificuldade de resolver esse dilema gera, inevitavelmente, a tentação de buscar formas aparentemente menos onerosas de reativar o crescimento. A mais óbvia é a tentativa de reinstituir as velhas políticas de desvalorização competitiva, deflagrando a "guerra cambial" que ganhou as manchetes dos principais jornais.
Para EUA, Europa e Japão, por exemplo, o enfraquecimento das moedas é visto como fundamental para impulsionar a retomada da atividade. Embora as autoridades americanas estejam contemplando novas rodadas de afrouxamento quantitativo, há limites sobre o quanto uma queda adicional dos juros poderia agilizar a desalavancagem das famílias. Na Europa, os problemas fiscais agravados pela fragilidade do sistema bancário são uma severa ameaça à sustentação da recuperação econômica. A forte desvalorização do euro, que resultou da turbulência de maio, favoreceu o surpreendente desempenho da economia alemã no segundo trimestre. Com o fortalecimento subsequente da moeda europeia, a máquina exportadora da Alemanha desacelerou, ilustrando o quanto o enfraquecimento do euro é importante para auxiliar uma região onde os focos de incêndio não só não foram extintos, como continuam a se alastrar. O Japão, ameaçado por uma nova espiral deflacionária e sem instrumentos para fortalecer a demanda doméstica, retomou as intervenções no mercado de câmbio depois de seis anos de flutuação relativamente livre. E no centro do embate sobre o valor relativo das moedas está a política cambial chinesa.
O Brasil está entrincheirado nessa batalha. Embora no contexto em que todos estão dispostos a desvalorizar suas moedas como forma de atenuar os problemas internos e os instrumentos à disposição das autoridades brasileiras para conter o fortalecimento do real sejam relativamente pouco eficazes, a neutralidade não é uma opção. Por um lado, é importante sinalizar, como fizeram as autoridades brasileiras, que as desvalorizações competitivas tendem não só a ser contraproducentes, como podem vir acompanhadas de medidas protecionistas prejudiciais ao comércio. Por outro, embora a deterioração atual da conta corrente brasileira tenha pouca relação com a evolução do câmbio, uma valorização excessiva do real dificulta o manejo interno de política econômica.
Ainda que os países estivessem realmente dispostos a implementar mecanismos de coordenação cambial, os dilemas de política impostos pelo endividamento excessivo permaneceriam. O pior talvez tenha passado, mas ainda resta o mais difícil.
(*) Economista, Professora da PUC-RJ, é Diretora do IEPE/CDG