Nelson Merlin (*)
Em outras palavras, façam bem-feito e não teremos escândalos. Mas se errarem, devolvam tudo e continuem a vida, que não tem problema. Pois entre nós o roubo inexiste quando reparado pela devolução da coisa roubada
Roubar pode, mas, se descoberto, o gatuno tem que devolver o dinheiro. Se não for descoberto, não tem problema: pode ficar com o dinheiro. O que não pode é a Oposição chamar o sujeito, que devolveu o dinheiro, de gatuno. Pode, no máximo, chamá-lo de descuidado porque foi pego. Chamar de gatuno é preconceito, pois o ato em si não tem a menor importância. Gatunagem é não devolver o dinheiro depois de ser descoberta a rapinagem. Capicci? Tem lógica: o sujeito só é gatuno depois que cometer a gatunagem. Antes, é um sábio: roubou sem dar vistas a ninguém.
Não estou falando da reforma do Código Penal, de algum novo artigo no recém-reformado Código Penal brasileiro. Não! Este ainda considera crime o ato, o vil e simples ato de furtar. Portanto, a regra acima exposta não vale para o comum dos cidadãos. Mas por que então me ocupo disto? Seriam os prolegômenos de uma obra de ficção, um filme que vai contar um assalto heróico ao cassino, como em Onze Homens e um Segredo 1, 2 e 3? Seria uma telenovela? Um novo tratado sobre a Moral?
Não, caro leitores. Não tenho intenções literárias, filosóficas ou cinematográficas. O que eu digo é o que eu ouvi, no silêncio da autoridade maior, sobre os atos cometidos por dois bacanas que lesaram os cofres públicos no exercício de seus cargos enquanto parlamentares federais na legislatura que acaba de findar.
Estou falando de uma lógica travessa, mal intencionada e impune, que permitiu aos dois parlamentares pegos com a boca na botija continuarem suas vidas confortavelmente, em paz com suas consciências e céleres nos seus destinos como próximos ministros de Estado. Devolveram o dinheiro e deram a velha e esfarrapada desculpa do "não fui eu, foram eles", transferindo as responsabilidades aos seus assessores, os quais, num ato da mais normalíssima desatenção, cobraram afoitamente da viúva o que esta não lhes devia. Num dos casos, a desatenção foi tanta que puseram até uma nota fiscal de empresa inexistente para justificar o gasto. No outro, sabiam que a patroa tem residência fixa na capital federal, paga pelos cofres públicos - isto é, por mim, por você, por todos os desatentos que recolhem impostos nesse país -, mas por uma ligeira desatenção, a danada, cobraram da viúva a hospedagem da senhora num hotel a poucas quadras de seus aposentos oficiais.
O que a futura ministra foi fazer no hotel não me interessa, assim como não me interesso pelo que seu colega e octogenário futuro ministro foi fazer, ou deixar de fazer, no motel também próximo de sua residência maranhense. O que me interessa, nos dois casos, é que nem os supostos autores das respectivas desatenções foram chamados à chincha, nem seus chefes foram incomodados, seja por perguntas inconvenientes da Oposição, seja por um sabão no melhor estilo dos colégios de freiras do passado - daqueles em que a iminente presidenta da República estudou.
Aaaaah, não existem mais padres-prefeitos e madres-diretoras como os havia, às pampas, nos anos 50. A presidenta, se passou algum sabão nos dois, foi no escurinho do banheiro, ninguém soube, ninguém viu. Mas pelo jeito não fez nada, e isso é o que me interessa e me preocupa. Se tivesse feito alguma coisa ou se indignado com as referidas caga... digo, mancadas, teria vindo a público para cassar-lhes sumariamente a indicação ao ministério. Como nada fez, nada disse, seu silêncio é um recado claro, alto e bom som, de que em seu governo não vai permitir... que não se devolva dinheiro surrupiado por quem foi pego com a mão no alheio!
Em outras palavras, façam bem-feito e não teremos escândalos. Mas se errarem, devolvam tudo e continuem a vida, que não tem problema. Pois entre nós o roubo inexiste quando reparado pela devolução da coisa roubada. Assim como, por estas bandas, os crimes de um tal Cesare Battisti na Itália deixam de existir ao declarar-se arrependido pelo que os outros (não ele) fizeram com suas vítimas. Capicci? A única diferença, nesse caso, é que as vítimas se recusam a ressuscitar. Mas, nem tudo pode ser perfeito.
(*) Nelson Merlin é jornalista aposentado e representante comercial.