Adelson Elias Vasconcellos
Há momentos em que sou levado a acreditar que, não fosse o Brasil rico por natureza, fosse seu povo depender exclusivamente de seus governantes, ou não teríamos mais povo algum, ou, fôssemos uma empresa, já teríamos decretado falência há muito tempo.
O lombo do governo deve estar bastante inchado, crivado de tanto hematoma, devido a tanta paulada que vem sofrendo há uma semana, em relação ao seu descaso com a prevenção de acidentes e desastres naturais, principalmente, no Rio de Janeiro.
Reproduzimos aqui reportagem do site Conta Abertas, informando-nos que no Ministério Integração Nacional dorme há dois anos, esquecido em alguma gaveta destes assessores de porra nenhuma, um projeto de prevenção que conta inclusive com dotação orçamentária para sua implantação e que, até agora, não foi prá frente pela dificuldade dos “técnicos” em definirem em que terreno irão construir a sede que abrigará o tal sistema de prevenção. Enquanto isso, a população continuará sendo enterrada viva.
Pois bem, face à comoção nacional diante dos já 672 mortos, cidades arrasadas, milhares de pessoas ao desabrigo e tendo perdido tudo o que construíram com trabalho, suor e sacrifício ao longo de uma vida, e sendo o governo cobrado a responder com alguma atitude decente, o que Dilma anuncia? Um superpacote, devidamente embrulhado prá presente, para ser entregue daqui há ... quatro anos. QUATRO ANOS ! O anúncio foi feito nesta segunda feira pelo homem que revolucionou o pensamento moderno ao revogar o irrevogável: sim, ele mesmo, Aloysio Mercadante. Quatro anos, hein? Só pode ser brincadeira, ou o autor da “genialidade” devia estar de porre!
Se bem me lembro, na campanha eleitoral, quando Serra apresentou dentre seus projetos a proposta de criação de superestrutura em nível nacional para a Defesa Civil, que atuaria na prevenção de acidentes, mas com estrutura bem montada para agir rápida e organizadamente diante de desastres (ele mirava na tragédia de 2010, no mesmo Rio de Janeiro, em Ilha Grande e Angra dos Reis), Dilma apontou no horizonte com a desnecessidade de tal estrutura e nos acenou com as maravilhas do pac2. (Por justiça, diga-se que a idéia inicial foi de Dona Marina Silva, e que Serra encampou rapidamente).
Agora, depois de eleita, e diante de uma nova tragédia, Dilma não teve dúvidas: ao melhor estilo chupeta de Lula, clonou o projeto do adversário, (terá esquecido a versão 2.0 do PAC?), e tascou um quatro anos de espera. E até lá, vai se fazer o quê?
Vimos, ontem, pela reportagem do Fantástico, que é o ser humano que está no caminho das águas, e não o contrário. Assim, quem deve sair das áreas de risco, para proteger sua própria existência, é o homem. Muito bem: nas reportagens inúmeras feitas pelas emissoras de televisão, em seus telejornais, temos assistido dezenas pessoas se negando abandonar suas moradias, mesmo diante do perigo de tudo ir abaixo, por uma única razão: “...moço, a gente não tem prá onde ir”!
Pois é, hoje se anunciou que Dilma Rousseff vai se dedicar a destravar o Minha Casa, Minha Vida. Mas, ué, o programa já não tinha atingido a meta de 1 milhão de novas moradias? Travou aonde, afinal, e por quê? Sei não, mas acho que ninguém pensou muita coisa além da publicidade oficial e da solenidade de lançamento. Na propaganda, o programa era tão bonitinho, tão perfeito, tão primeiro mundo, não é mesmo?
Mas a questão de fundo, meus amigos, é justamente esta: política habitacional de verdade, ou a falta dela. Não esta que incorpora até puxadinho de pessoas que já tem residência, como a vigarice que Lula e Dilma encamparam de dois anos para cá. Política habitacional, de verdade, deve priorizar (o que o programa esteve muito longe de atender) construção de novas residências – casas ou apartamentos, não ampliação das que já existem – para pessoas de baixa renda porque, no fundo, são estas pessoas que formam a grandiosa maioria residente em áreas de risco. E elas lá estão por absoluta falta de opções, dever que compete ao Poder Público providenciar.
Lê-se, no exterior, a estupefação geral diante das afirmações dos moradores de áreas de risco de que não tem outro lugar para morarem. Mas como pode um país de extensão continental feito o Brasil, não ter lugar para seus habitantes morarem? Pois é, a gente aqui vive da mesma indignação.
E, atenção, quando falo de “política habitacional”, não se trata de jogar o povão no fim do mundo, sem segurança, sem transporte, sem assistência médica, longe de tudo e de todos. Criar áreas habitacionais em pontos seguros, é criar áreas que contem com toda a infraestrutura básica para proporcionar aos seus moradores melhor qualidade de vida. Se assim for feito, estas pessoas não se sentirão compelidas a morarem em pontos onde, além da infraestrutura carente, suas vidas vivam ameaçadas diante de qualquer chuva mais torrencial.
Isto dá trabalho? Custa rios de dinheiro? Requer planejamento? Ótimo, é isso mesmo, e foi para cumprir tais metas que a sociedade escolheu governantes, governantes que, aliás, prometeram fazer exatamente isto, durante suas campanhas Recursos? Já está provado: dinheiro não falta, falta vontade política de fazer o que precisa ser feito, e com competência e sem corrupção. Nem serão necessárias solenidades faustosas de lançamento e campanhas publicitárias com fins eleitoreiros. Tudo isto é dinheiro que pode ser incorporado nas melhorias das áreas habitacionais a serem construídas.
Agora o que fica difícil de entender é um governo, sabendo da dor e sofrimento de milhares de pessoas, não apenas no Rio de Janeiro, mas também em São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, gente que sequer tem hoje uma cama sua para dormir, vir diante de todos anunciar medidas para daqui há anos! É um absurdo!!! É uma falta de respeito e de seriedade !!!
Olhe-se para a confusão armada no socorro aos atingidos pela tragédia: sequer se tem uma lista oficial de vítimas, e olhe que esta lista nem seria de pessoas de áreas mais distantes ou rurais, mas nos centros das cidades de Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo!
Incrível, também, é ver os próprios moradores, com seu voluntarismo, quem estão se encarregando de dar uma certa ordem no atendimento às vítimas. Cadê um coordenador federal, do próprio Ministério de Integração (?) Nacional? Ele é quem deveria estar comandando os trabalhos, interagindo com as diferentes forças deslocadas para a região serrana fluminense. E ainda se vem acenar com projetos mirabolantes para daqui há quatro anos? Até lá o que o governo pretende fazer para alojar estes milhares de desabrigados que perderam tudo o que tinham e que não tem onde morar? Vão transformar a região serrana do Rio de Janeiro num enorme Haiti, improvisando as pessoas em barracas? E por quatro anos?
Em tempo: alguém poderia avisar a Dona Dilma e seus ministros que, em Minas Gerais, segundo dados de hoje, já morreram 26 pessoas, há 20 mil desabrigados e 84 municípios em situação de emergência, todas vítimas das chuvas que caem desde novembro de 2010, e que estão à espera da atenção federal? Ou será que o socorro é só dedicado para os estados governados por aliados do governo, porque aqueles governados por partidos da oposição, foram desmembrados do mapa brasileiro e a seus habitantes foi concedida outra nacionalidade diferente da brasileira?
A menos que me engane, no discurso de posse, Dilma teria dito que “...a partir desta data serei a presidente de TODOS os brasileiros”. Eis um bom momento para provar que não mentiu.