Claudio Schamis, Opinião & Notícia
Deveria ser inconstitucional não dar um aumento digno aos trabalhadores e, num caso mais pontual, aos bombeiros do Rio de Janeiro.
Enquanto a chapa com a história dos bombeiros continua quente e sem ainda uma luz no fim do túnel que leve a um “happy ending”, Dilma entra em cena colocando panos molhados para ter a certeza de que não haverá fogo nos documentos do governo que ela decidiu que serão mantidos em sigilo por tempo indeterminado. Com isso, ela acabou causando criticas do próprio partido no Senado. Teria sido essa decisão um tiro no pé? Ou seria apenas mais uma demonstração de que existem pessoas no governo que têm ainda muito a esconder? Ou foi também por muita pressão de gente da “melhor qualidade”, mas que não tem o selo ISO 9000 ou qualquer ISO que seja: José Sarney e Fernando Collor.
Na Câmara, o projeto da Lei de Acesso à Informação Pública foi aprovado com previsão de 50 anos, no máximo, para o sigilo de papeis oficiais. Há no Senado uma intenção de se retirar essa ressalva. Mas entre a intenção e o acontecer existe um abismo. Ainda mais se tratando de Brasília, políticos, enfim…
Mas legal saber que tem gente que quer isso. Resta saber se vão levar outros 50 anos para resolver essa questão.
E convenhamos. Em 50 anos, muitos de nós não estarão mais aqui. Eu talvez não esteja mais aqui. O Sarney com certeza não estará mais na presidência do Senado e nem aqui. Mas tirando tudo isso, é ainda muito tempo para esconder o nosso passado. Ter acesso à informação, além de ajudar a todos nós entendermos certas coisas, é um direito nosso. E garantido pela Constituição.
Falando em Constituição, deveria ser inconstitucional não dar um aumento digno aos trabalhadores e, num caso mais pontual, aos bombeiros do Rio de Janeiro. Não estou, com isso, querendo dizer que foi lindo ver a invasão e a depredação do nosso patrimônio. Mas sabemos que não são todos os bombeiros — nossos verdadeiros heróis, que arriscam suas vidas a cada dia para nos salvar –, que podem ser considerados baderneiros e que portanto merecem punição. Temos que saber separar o joio do trigo. Assim como em Brasília. Lá ainda há (pouca) gente honesta. E não é por causa de poucos que muitos têm que ser punidos. O que continua me incomodando é o fato de sempre que o aumento a ser dado é para qualquer classe trabalhadora fora do ciclo Brasília, se cai na questão de que não há dinheiro, não há como. E todo aquele blá, blá, blá, que é preciso pensar, é preciso ceder, é preciso um sacrifício da nossa parte, pois isso e, pois aquilo.
Pois então eu pergunto: “Realmente é necessário mais sacrifício da nossa parte?”
Qual é o milagre que eles operam quando em questão de minutos aprovam aumentos inimagináveis para nós mortais e que se fossem dados seriam em parcelas nos próximos 20 anos, e ligam o ‘não quero nem saber como vão nos pagar’, que é mais light do que falar que eles ligam aquilo que você já sabe o que é e tem seis letras e um hífen separando o ‘oda do se’.
Mas a nossa realidade é essa que está aí e que a grande maioria acaba aceitando. O que acho um erro. Deveríamos ter mais voz ativa, saber que temos força e que não deveríamos permitir certos abusos. Em todas as esferas, em todos os sentidos.
Deveríamos saber cobrar mais e não nos contentar quando o governo acena com esmola e parece então que o povo se derrete todo com isso e engole todo o resto. Isso é errado.
Já está mais do que na hora de mostrarmos que somos gente grande, que temos sentimentos, que o que está aí não está bom. E de mostrar que juntos somos fortes. E temos que mostrar isso principalmente quando o que está em “campo” são nossas vidas, nosso bem-estar, nossos direitos de cidadão, e não somente quando sediamos uma Copa do Mundo. Temos que ser esses mesmos 190 milhões em ação pra frente Brasil, salve nós. A seleção deixa, que é assunto para o Mano Menezes.
E claro…
Salvem as baleias. Não joguem lixo no chão. Não fumem em ambiente fechado.