quinta-feira, junho 21, 2012

Brasil é derrotado na proposta de retomar a rodada de Doha


Flávia Barbosa
O Globo

Presidente Dilma Rousseff pressionou para que os países deixassem expirar em 2013, conforme acordado, o compromisso comum de não serem adotadas novas barreiras comerciais entre o G-20

OSWALDO RIVAS / REUTERS
Dilma cobra que os países assumam a responsabilidade 
de resolver os desequilíbrios do comércio global

LOS CABOS, México — O Brasil foi derrotado em sua proposta de retomar a rodada de Doha de negociações de regras para o comércio internacional em 2014, durante a reunião de cúpula do G-20 (grupo das maiores economias do mundo), no México. A presidente Dilma Rousseff pressionou para que os países deixassem expirar em 2013, conforme acordado, o compromisso comum de não serem adotadas novas barreiras comerciais pelos 20 países, de forma a se instalar no ano seguinte uma ampla discussão global a respeito de regras comerciais e se evitar uma guerra entre as nações. Mas não houve consenso.

Antes do desfecho, próxima de seu embarque para o Brasil, Dilma afirmou que a proposta do Brasil visava a evitar a prorrogação indeterminada, como nas últimas cúpulas, da chamada cláusula de standstill — pela qual as 20 maiores economias se comproteram em 2008 a não levantar novas barreiras protecionistas e remover as que tiverem sido criadas por causa da crise global. No ano passado, ela foi esticada a 2013.

O que o Brasil quer, disse ela, é que os países assumam a responsabilidade de resolver os desequilíbrios do comércio global, que, apesar dos compromissos, vive uma onda protecionista por trás do "biombo da crise internacional". Para a presidente, a prorrogação do standstill, na prática, estende barreiras levantadas durante as turbulências e impede o livre comércio, com consequências para países como o Brasil.

— É óbvio que há muita resistência à reabertura da Rodada de Doha. O que se prefere é o free lunch, o almoço grátis. O café da manhã, o jantar, pode colocar a refeição que for, o importante é que seja grátis — afirmou Dilma, em referência ao fato de que, numa negociação multilateral, ao contrário, os países, para ganhar, também precisam ceder em acesso a seus mercados.

Para a presidente, os desequilíbrios do comércio internacional são amplamente conhecidos - subsídios agrícolas excessivos, altas tarifas industriais, falta de critérios no setor de serviços - e é hora de as nações sentarem à mesa de negociações para oferecer soluções e promover um sistema justo, com regras claras, em que países não se aproveitem de brechas e falta de regulações para levantar barreiras.
— O que achamos é que a crise já deu tempo suficiente para as coisas baixarem. Tem gente que acha que Doha não pode ser retomada nos mesmos termos. Tudo bem. Mas não aceitamos prorrogar (o standstill) por prorrogar. Senão é como dar um cheque em branco — afirmou Dilma.

Parágrafo sobre o comércio foi o último a ser fechado
O parágrafo sobre comércio foi o último do documento final do G20, a "Declaração de Los Cabos", a ser fechado, sendo concluído menos de uma hora antes da divulgação do comunicado. Coube ao presidente do México e do G-20, Felipe Calderón, informar que a decisão do colegiado, apesar de resistências de vários países, foi estender o standstill até 2014.

A proposta inicial, bancada pelos países ricos, era até 2015. O compromisso de rotomar Doha em 2014 não entrou no documento, que fez apenas menção genérica à intenção dos países de retomarem o diálogo. Calderón reconheceu a dificuldade quanto ao tópico. Mas preferiu ressaltar que há consenso entre os países sobre a importância do livre comércio:

— O acordo foi de rechaçar o protecionismo e esticar por um ano o standstill, preservar o estado atual das coisas até 2014. Houve resistência, mas o importante é a postura. Todos manifestaram a importância do poder do comércio para gerar empregos e crescimento.