quinta-feira, junho 21, 2012

A irresistível chapa branca


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Há muitos e muitos anos, Luiza Erundina contava que Lula lhe havia dito que, se um dia o PT acabasse, os dois seriam os últimos a sair. Erundina contava isso com orgulho - o que não a impediu de aceitar um Ministério no Governo Itamar, mesmo sabendo que seria, como foi, expulsa do partido. Agora ela garantiu que com Maluf não faria campanha. Ameaçou desistir da candidatura a vice. Mas não precisou de muito tempo de conversa para desistir da desistência e desistir de novo.

Nesta aliança e desaliança de Lula, Maluf, Haddad e Erundina não há nada de estranho: novidade, mesmo, só a presença de Lula na mansão de Maluf. "Você é nosso e nós somos teu" faz tempo - desde o segundo turno de 2004, quando Maluf apoiou Marta Suplicy (que o chamava de "nefasto", mas gostou do apoio, embora tenha perdido para Serra). Lula (que Maluf chamava de "ave de rapina", "que não trabalha há 15 anos e não explica como vive") levou Maluf (para quem pedia "prisão perpétua por causa da roubalheira") para seu Governo, com direito a indicar ministro. E Haddad, o pai do kit gay, ao lado de Jair Bolsonaro, do PP?

Em antigas eleições, os repórteres Ennio Pesce e Ferreira Netto, excelentes imitadores, criaram no gravador um diálogo entre os adversários Adhemar de Barros e Jânio Quadros. Ennio, como Jânio, dizia: "Chamá-lo-ei de rato". Ferreira, como Adhemar, respondia: "Vou responder que rato é a mãe". Tocavam o gravador nas viagens e os eleitores se indignavam ao ouvir seus ídolos combinar como os enganariam. 

Não mudou muito. Só não é mais preciso usar imitadores.

Encontro marcado
Só há uma explicação para que Lula tenha se submetido à humilhação de atender à exigência de Maluf, com todo o simbolismo que carrega, e ir à sua casa para fechar o acordo: preocupação com o lento crescimento de seu candidato. O tempo extra de 1m35 seria essencial, a partir deste ponto de vista, para martelar no eleitor a imagem de Haddad como candidato de Lula e assim alavancar sua popularidade. No momento, segundo o Instituto Datafolha, Haddad está empatado com Soninha Francine, do PPS, tem menos da metade do índice de Celso Russomanno, o candidato do PRB, até agora o segundo colocado, e pouco mais de um quarto do índice de José Serra, o favorito nas pesquisas, do PSDB. 

Entre na casa com ele
Do colunista Cláudio Humberto (www.claudiohumberto.com.br):
"Campanha eleitoral do PT em São Paulo: R$ 30 milhões. Tempo extra do petista Haddad na TV: 1m35s. Ver Maluf com Lula: não tem preço".

O mundo gira
Não fique ansioso: o empreiteiro Fernando Cavendish, da Delta, personagem eminente da Turma do Guardanapo, amigo de fé e irmão camarada do governador fluminense Sérgio Cabral, dono de uma empresa que foi declarada inidônea, será chamado a depor na CPI do Cachoeira. 

Mas, repetindo, não fique ansioso: Suas Excelências tiveram de suspender o trabalho por causa da Rio+20. Depois há as festas juninas, que exigem a presença dos nobres parlamentares em suas bases eleitorais. E o sacrossanto recesso parlamentar, em que Suas Senhorias vão de novo a suas bases parlamentares, trabalhar duro junto aos eleitores. Agosto, pois - mas aí todos estarão preocupados com as eleições. 

Aguarde, caro leitor!

CUT x PT
Quando a gente pensa que já viu de tudo, aparece coisa nova: a CUT, central sindical ligada ao PT, abriu fogo contra a política industrial do Governo petista da presidente Dilma Rousseff. A CUT acusa o Governo de privilegiar setores da economia com benefícios fiscais, sem exigir em troca nenhuma compensação, como por exemplo, a garantia da manutenção do número de empregos. Critica os benefícios concedidos à indústria automobilística, "composta unicamente por multinacionais"; e faz um ataque frontal à Telefônica, multinacional espanhola que controla a Vivo e domina boa parte das telecomunicações do país: "Qual o sentido de desonerar a Telefônica, que em 2011 teve lucro de R$ 5 bilhões?"

Baderna rebatizada
A invasão por índios dos escritórios da Norte Energia, com quebra de computadores, mesas e cadeiras e depredação geral das instalações, no sábado, não foi baderna, nem vandalismo: segundo o Movimento Xingu Vivo, "foi um ato espiritual". Acham os índios que a hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará, é ruim ambiental e socialmente, "e impõem uma dor à empresa da mesma forma como estão sofrendo". A Norte Energia foi invadida por 30 índios, segundo o Xingu Vivo; ou 80, segundo a empresa. 

O "ato espiritual" do quebra-quebra se realizou após uma pajelança e um discurso do padre que acompanhava os índios.

Paradeira
Espantado com a queda da economia? Não se espante: não se cresce sem investimentos. Para crescer 4%, seria preciso investir uns 4% do PIB - ou seja, R$ 800 bilhões por ano. O BNDES acaba de liberar R$ 20 bilhões para os Estados, com o objetivo, declarado pelo ministro Mantega, de reativar a economia. Não dá: é pouco, será distribuído ao longo de cinco anos e representa, assim, menos de 1% do necessário para que o país cresça 4% ao ano. 

Continue esperando.

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