Ricardo Galuppo
Brasil Econômico
Que a Argentina marcha a passos acelerados para o abismo é fato sobre o qual não cabe dúvida. Nada que diga a presidente Cristina Kirchner em defesa da política problemática e febril adotada por seu governo será capaz de evitar o cambalacho total na segunda maior economia da América do Sul.
As providências recentes adotadas pela Casa Rosada cheiram àquelas soluções mágicas que, no final do século 20, eram defendidas pelos economistas mais à esquerda como a panacéia para os males latino-americanos.
A atual cruzada de dona Cristina contra o dólar, por exemplo, seria risível se não fosse reveladora da estupidez que rege o país.
Diante da erosão acelerada da moeda local, os cidadãos argentinos fizeram o que faz qualquer gato escaldado diante da água fria: com medo, fugiram do peso e procuraram abrigo no velho e conhecido dólar. Todos que tinham algum dinheiro fizeram isso.
Até a própria presidente fez aplicações na moeda americana: US$ 3 milhões. Mesmo assim, ela baixou medidas que tornam ilegal até o gesto banal de carregar dólares nos bolsos pelas ruas de Buenos Aires ou de qualquer outra cidade do país. Além de estúpida, a providência é inútil. (Em tempo: só depois que foi flagrada com as burras forradas de dólares, Cristina prometeu converter tudo em pesos.)
A Argentina vira, mexe e não aprende que mandracarias cambiais nada resolvem e servem apenas para piorar um cenário que nada tem de bom.
Décadas atrás, o antigo ministro da economia do ex-presidente Carlos Menen, Domingo Cavallo, baixou uma lei que previa a conversibilidade total do peso. Equiparado ao dólar à base de 1 para 1, ele podia ser trocado livremente em qualquer esquina.
Não deu certo. A economia andou para trás e a falta de instrumentos de intervenção da autoridade sobre a moeda ajudou a tornar a situação ainda pior. Quando o inevitável aconteceu e tudo foi por água abaixo, Cavallo jogou a culpa sobre o Brasil, que não havia feito a besteira de atrelar sua moeda à de outro país.
Isso é história. Mas aponta o dedo na direção de quem o governo de dona Cristina culpará quando a alegria da milonga atual for substituída pelos acordes trágicos do tango. E esse dia não está distante.
Esta semana, a Adefa (a associação local dos fabricantes de veículos) divulgou números que revelam a inutilidade das medidas de proteção concedidas às montadoras da Argentina.
Por mais rigorosas que tenham sido, elas foram incapazes de aumentar a produção e as vendas de carros. A razão foi a queda de vendas ao Brasil. Entre janeiro e maio, as importações brasileiras de carros argentinos foram 30% menores do que as dos primeiros cinco meses de 2011.
As vendas caíram também no mercado interno: 15% em maio deste ano, na comparação com maio do ano passado. Esses números mostram que, ao contrário do que indicam as estatísticas fajutas produzidas por um governo sem qualquer credibilidade, a situação está ruim.
E que o Brasil precisa pensar no que fazer para não ser contaminado pela bancarrota do vizinho.