Adelson Elias Vasconcellos
Hoje, numa daquelas cerimônias custosas para encenar ações de governo, Dilma deu uma declaração que considero no mínimo estúpida. Disse a soberana que “...Quem aposta na crise, como alguns apostaram há quatro anos atrás, vai perder de novo. Enfrentaremos novas dificuldades com transparência, sem esconder problemas, mas com metódica e cuidadosa ação governamental. Vamos continuar crescendo, incluindo, protegendo e conservando o meio ambiente”. Adoraria que em situações como essa, a tal transparência de que se gaba a presidente, o fosse também para apontar aqueles a quem acusa de apostadores da crise. Quem são “estes”, dona Dilma? Querem saber: isto é mais um daqueles lugares comuns que os covardes se utilizam para, criando o fantasma do inimigo oculto, se justificarem por seus erros e fracassos. Simples assim.
Na verdade, o fato de sermos críticos a este ou a qualquer governo, não é porque se queira apostar em crise coisa nenhuma, até pelo contrário. Afinal estamos juntos neste barco chamado Brasil. Este é o país que vivemos, que vivem e viverão nossos filhos e netos, por que desejaríamos que ele ruísse? Só um débil mental ou um rematado estúpido de vez seria capaz de desejar o quanto pior melhor, coisa na qual, aliás, o PT sempre foi e é especialista quando está ou esteve na oposição. A história, senhores, não mente, não engana, não fantasia, não mistifica. Há fatos muito bem registrados e comprovadores desta assertiva. Assim, melhor que a presidente Dilma não fique comparando seus críticos pelo perfil dos canalhas que inundam o seu partido.
Entendo o duplo sentimento da presidente. De um lado, ela está uma fera em razão do pibinho (mais um) alcançado pelo seu governo. E, de outro lado, precisa se livrar das críticas que os ecoterroristas lhe endereçam até com certa fúria tendo em vista o código florestal.
Falemos pois do PIB divulgado no início da semana. Grande parte dos comentários e análises de jornalistas e economistas em relação ao baixo desempenho do PIB brasileiro neste começo de 2012, se deu e se dá sob o ângulo do “aquém das estimativas”. Ou seja, praticamente, era unanimidade que o PIB mostraria alguma reação, algum vigor não para chegar ao previsto e desejado pelo Ministro Mantega, mas algo próximo aos 4,5% que o ministro anunciava. Porém, se as estimativas de grande maioria não se concretizou, para este escriba, contudo, ela ficou dentro do possível dada a forma como o governo Dilma vem conduzindo a economia brasileira.
Comecemos pelo fraco desempenho da indústria. Ela acaso é novidade? Não, os reflexos de uma política muito mal calculada que o país vive há quase um ano, tiveram suas raízes fincadas lá atrás, como o descuido proposital do governo Lula em relação ao câmbio. Já em 2006, quando este blog nasceu, advertíamos pela perda colossal da participação da industria manufatureira na balança comercial. Já naquele ano, percebia-se a inversão entre indústria e agropecuária nas vendas externas do país.
Qual a leitura que o governo Lula fez? É preciso incentivar o consumo interno para o país crescer. Nada contra a escolha, mas tudo contra ao modo como se escolheu percorrer este caminho. Também aqui alertamos que uma economia não chegará a ser robusta centrada apenas em crédito subsidiado. O que torna um mercado interno é forte é a associação bem dosada entre crédito barato e renda proveniente do trabalho. O Brasil gerou milhões de empregos nos últimos anos, contudo, mais de 90% destes empregos foram de baixa qualidade e, principalmente, e até como consequência, com baixa remuneração. Ninguém fornece crédito de graça a ninguém, é preciso que o tomador tenha renda suficiente para cumprir com o compromisso assumido. Se a massa de salário cresce pouco, chegará o momento em que ou a inadimplência se dirá forte e constante, ou simplesmente, o consumo sofrerá uma freada brusca. Outra não é a situação atual. E qual a resposta que o governo tem dado? Insistir na fantasia, no faz-de-conta, anunciando pacotinhos semanais (já vimos este filme antes, e com resultados catastróficos), que servem apenas para cobrir necessidades imediatas às pesquisas de popularidade. Solução permanente que é bom, zero.
Durante anos criticamos a forma como o governo Lula olhava para o câmbio e insistia nas virtudes do país para ser recebedor de tantos dólares que empurravam o real para cima, numa valorização desastrada fosse para o mercado interno, fosse até para a indústria nacional. Bastou o governo reduzir os juros para a fantasia logo mostrar sua cara. Simplesmente, a enxurrada de dólares parou de entrar, e a cotação sofreu um abalo imediato. Do R$ 1,60 por dólar o salto foi a mais de R$ 2,00 cinco meses depois. Ou seja, o grande volume de dólares que entravam na economia brasileira, a grande parte do volume se devia exclusivamente a política de juros, e não as nossas virtudes econômicas, e não ao comércio exterior centrado quase que exclusivamente em commodities.
Na crise de 2008-2009, as medidas adotadas foram emergenciais e surtiram efeito positivo, mas foram apenas emergenciais e tiveram a felicidade de encontrar uma conjuntura favorável de fatores, como o ingresso de novos consumidores, via crédito, via programas sociais e renda de salários frutos dos empregos gerados. Deveriam ter sido retiradas tão logo o consumo estabilizou-se internamente. E deram certo por uma razão que não havia, e que hoje impede que se produzam os mesmos resultados: entre dez a 14 milhões de famílias esgotaram sua capacidade de endividamento e o nível inadimplência praticamente atingiu o limite do suportável. Lá havia, também, uma eleição presidencial no caminho, e o governo preferiu atender às necessidades partidárias, do que pensar no interesse do país.
É claro que o consumo segue fortalecido, mas já dá sinais de exaustão. Para crescer, portanto, o Brasil precisa fazer muito mais do que se propôs em fazer até aqui. Enquanto insistir em medidas provisórias e tomadas ao sabor do improviso, continuaremos patinando no crescimento que o país pode experimentar. Potencial não nos falta. Falta gestão econômica centrada em um projeto de país. E projeto de médio e longo prazo. Não basta adotar, de um lado, incentivos específicos a meia dúzia de atividades privilegiadas, enquanto de outro, aplica-se o garrote da compensação. Isto é, enquanto o governo reduz o IPI para carros, de outro, aumenta o mesmo IPI para refrigerantes e bebidas em geral. E isto é feito para atender ao apetite de gastos correntes que não param de crescer, enquanto os investimentos vão minguando dia a dia.
A fórmula está errada, o diagnóstico está furado, e as soluções não atendem ao que a economia precisa para crescer com robustez e dentro das possibilidades reais que existem. Enquanto o governo apenas age na periferia, acabamos desperdiçando oportunidades para o salto de qualidade que precisamos. e isto já afirmamos aqui muitas vezes.
Assim, o PIB de agora não deveria ser surpresa prá ninguém, nem para o próprio governo. Há muito tempo que dez em dez analistas apontam para a necessidade urgente de medidas estruturais, coisa da qual o governo Dilma, e antes dela o próprio Lula, se afastavam e se afastam com um ferocidade impressionante.
Volto ao câmbio. Quantas vezes, aqui, se disse que rezássemos para que o consumo de commodities não sofresse queda abrupta no comércio internacional? Era previsível que, ao primeiro solavanco da economia mundial, o Brasil sofreria enormes prejuízos. Isto já está acontecendo. Tanto o consumo, quanto os preços entraram em queda e os primeiros efeitos já se percebe em nossa balança comercial. A forma arrastada como a indústria brasileira tem se comportado é apenas consequência da política cambial mantida irresponsavelmente por Lula. Paramos de exportar manufaturados e semimanufaturados. Quem manteve o equilíbrio seja na balança comercial ou até na estabilidade interna, foi a agropecuária, que neste ano, por conta do clima, sofreu enorme queda, com resultado devastador no PIB do primeiro trimestre. Assim, seja pelas commodities em baixa, em volume e preços, seja pelos industrializados sem competitividade internacional, já é possível perceber o efeito desta combinação na balança comercial.
Nem os países mergulhados em crise crescem tão pouco como o Brasil. Ora, terá o ministro Mantega se perguntado por que sua ação até agora não deu certo? Se fez a si mesmo tal pergunta, não deve ter gostado da resposta, porque ela aponta na direção oposta a que ele tem adotado para impulsionar o PIB brasileiro.
Quanto a questão é PIB per capita, isto é o total da riqueza produzida dividido pela população, o Brasil aparece na 54º colocação, o que comprova a baixa qualificação dos empregos que temos gerados. Somente o funcionalismo público federal é que, de fato, sofreu enorme impulso em sua renda, o que se explica pelo interesse eleitoreiro e sindical-partidário que se esgueira nesta elevação dos salários.
É fácil atribuir aos outros as culpas pelo baixo crescimento, a exemplo do que Dilma tem feito sobre o tal tsunami monetário. Difícil é compreender e aceitar que o volume imenso de dólares despejados no mundo pelas economias europeias e americana só chegaram aqui atraídas pelos juros praticados pelo Brasil, e não por suas virtudes, decantadas em verso e prosa pelo governo petista.
Enquanto o governo Dilma insistir em não ver o óbvio, insistir em adotar apenas medidas emergenciais, de curto prazo, enquanto o Estado insistir, em todos os seus níveis, em gastar de forma imprudente bilhões de reais em desperdício, em privilégios e castelos de areia, não há como o Brasil deixar de patinar e continuar alcançando pibinhos ridículos e insignificantes.
Juntando tudo isto, não acredito que o ambiente no Palácio seja de sorrisos e comemorações. Não se trata mais de um sinal amarelo, advertindo para o que nos espera. O sinal já é vermelho, e estes pacotinhos semanais dão bem conta disso. Vai bater o desespero, porque, apesar de todas as advertências, o governo jogou fora o tempo precioso que teve para implementar as reformas estruturais e não o fez, desperdiçando oportunidade preciosa de encaminhar o desenvolvimento brasileiro para um estágio superior. Preferiu o improviso, sem o custo político que um trabalho mais adequado e necessário lhe iria impor.
Volto a afirmar: de um lado, o esforço central, prioridade das prioridades deve ser investir em educação de qualidade. Vimos ontem, que isto está muito longe de acontecer. O Poder Público, em todos os seus níveis e esferas, apesar do discurso, ainda não se conscientizou da importância da educação para o crescimento e desenvolvimento do país. E de outro lado, é preciso mudar a rota de gastos: ao invés de se fortalecer o Estado, já mastodôntico e ineficiente por excesso, deve-se investir no país, na infraestrutura, no saneamento, na saúde. Até agora, o que vemos é o governo insistindo na papagaiada de torrar bilhões e bilhões de reais para tornar o Estado maior, mais dispendioso, mais oneroso para a sociedade, menos ineficiente, dado que os prêmios por sua ineficiência se observa nos gastos com pessoal. É bom que a Lei de Acesso à Informação seja implementada em toda a sua extensão. Na medida em que os salários dos servidores públicos forem sendo divulgados, o país assistirá o descalabro que se tem cometido em se privilegiar em demasia uma classe menor do país. Esta “distribuição” de renda às avessas é um dos problemas que o Brasil terá que enfrentar no curto prazo. Do contrário, não está longe o dia em que nos tornaremos uma comunidade europeia. As raízes da crise que abalam o Velho Continente podem ser observadas por aqui mesmo, porque estamos cometendo exatamente os mesmos erros e bobagens que os europeus vêm cometendo há vinte, trinta anos. Chegou a hora deles pagarem a conta de sua política torta e, se o Brasil não corrigir o rumo, nosso dia também chegará. Portanto, ninguém aqui está apostando em crise. Pelo contrário: as críticas que fazemos ao governo federal são justamente para evitar que o Brasil importe da Comunidade Europeia as mesmas mazelas e pague pelos mesmos erros.
Amanhã, ainda retornaremos a este tema e vamos mostrar aqui que há hoje, visivelmente, um certo desencanto lá fora em relação ao Brasil. Por que estamos deixando de ser os queridinhos dos investidores internacionais? Justamente porque o governo Dilma, e mesmo antes durante o governo Lula, o país não sai do discurso e, quando alguma coisa sai errado internamente, como no caso do baixo crescimento, ao invés de se voltar para seus próprios problemas e falta de ação corretiva, o Brasil insiste em medidas paliativas e improvisadas de pouco ou nenhum efeito prático no médio prazo, e insiste na balela de atribuir aos outros suas próprias culpas e responsabilidades.
Assim, ao tal programa “Brasil sem miséria” deveria o governo Dilma agregar, urgentemente, um sem miséria às políticas de Estado no campo da economia. Porque, uma economia forte, saudável, com crescimento vigoroso, ainda é o melhor caminho para a redução da pobreza e miséria. Ainda não se inventou caminho melhor. E tal lição o governo Dilma precisa aprender rápido e por em prática com a máxima prioridade, fazendo o dever de casa que lhe compete. Do contrário, e como tantas vezes já advertimos, o país assistirá mais uma vez a enorme procissão de oportunidades desperdiçadas passando a sua frente e mais adiante as desculpas pelo não feito serão substituídas pelo choro e lamento pelo tempo perdido e desperdiçado. A troco do quê? Apenas para um partido se manter indefinidamente no poder? Acho que o Brasil merece e pode muito mais do que apenas esta coisa bolorenta, e que as grandes nações do mundo já rejeitaram dado sua caducidade, e que o PT quer nos deixar por legado. O País para ser moderno, precisa andar para frente, e não retroceder a cinquenta anos atrás como os governos petistas insistem em perseguir.