Fabiana Ribeiro, Clarice Spitz, Henrique Gomes Batista e Gabriela Valente
O Globo
Analistas criticam pacotes de redução de impostos e defendem estímulos a investimentos para evitar ‘voo de galinha’
GIVALDO BARBOSA / AGÊNCIA O GLOBO
Casal Paulo Henrique e Mayra decidiu demitir empregada doméstica e
trocar os dois carros que tinha por modelo mais barato ao ver a renda diminuir
RIO e BRASÍLIA — O PIB fraco coloca na berlinda a estratégia usada pelo governo para reanimar a economia brasileira. Estimular o consumo, com a redução de impostos sobre veículos ou eletrodomésticos, pode, segundo alguns especialistas, não ser suficiente para garantir o tão sonhado crescimento sustentado. Para eles, o governo deveria estudar um pacote para ampliar o investimento da indústria — cujos reflexos amenizariam os impactos da demanda mais fraca no mercado internacional, em decorrência da crise nos países centrais.
A tese desses analistas se sustenta nos números menos exuberantes dos gastos das famílias, que já estariam dando sinal de arrefecimento, agora que completa o 34 trimestre seguido de altas. No primeiro trimestre, o consumo dos brasileiros, que representa pouco mais de 60% do PIB, subiu 1% ante os três últimos meses do ano passado. Na comparação anual, avanço de 2,5%.
— Com parte da renda das famílias comprometida, o consumo cresce num ritmo morno. A receita de crescimento do governo não está se mostrando eficaz. E, por isso, deveria estimular o investimento de forma mais direta, com desonerações tributárias temporárias e agressivas — disse Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, acrescentando que, se o investimento sobe, há uma elevação no PIB potencial do país.
— O país amplia sua capacidade de crescimento, sem pressão inflacionária.
Para o coordenador do Grupo de Análise e Previsões (GAP) do Ipea, Roberto Messenberg, a indústria passa por um momento de ajustes de estoques, que, contudo, não cria condições para dar fôlego às decisões de investimento.
— Esse modelo de crescimento, que vem desde a época do governo Lula, está se esgotando. É um modelo de distribuição de renda, ampliação da base de crédito, crescimento de consumo, com base em juros elevados e câmbio segurando a inflação. Só que, sem ampliar a capacidade produtiva, o crescimento da economia não se sustenta. São apenas voos de galinha. É o investimento que alimenta o consumo, e não o contrário. É um modelo que está se tornando esquizofrênico.
‘Estimular investimento passa por reduzir custos’
Estimular o investimento passa por reduzir a estrutura de custo da indústria, disse Messenberg. De um lado, o custo Brasil deve ser reduzido, complementa, por meio de, por exemplo, reformas tributárias. Seria um caminho para ampliar a baixa produtividade do país. Mas o investimento também deve sair do governo:
— Investimento em infraestrutura é fundamental. O país tem como investir: a trajetória da dívida pública não é uma ameaça. Não somos uma Grécia. Sem pensar numa estratégia de crescimento, não vamos ver avanços duradouros.
Apesar de ter crescido menos do que os gastos do governo, o consumo das famílias teve impacto maior na expansão do PIB, por causa seu peso na composição das contas nacionais.
— O consumo das famílias foi o componente que mais contribuiu para o crescimento do PIB, muito influenciado pelo crescimento da massa salarial real, pelo crédito, que apesar de ter desacelerado, continua crescendo, e também pelas medidas do governo de incentivo ao consumo, como isenção de IPI para alguns segmentos. O que puxou para baixo foram os investimentos, na produção nacional, apesar de máquinas e equipamentos e construção terem crescido — afirmou Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais do IBGE.
Cortes de gastos: do plano de saúde ao sapato novo
O casal Paulo Henrique e Mayra Figueiredo-Matos viu sua renda cair 60% no início de 2012, porque decidiu fechar o restaurante que tinha dentro de uma concessionária em Brasília. Com o orçamento apertado, a saída foi colocar o pé no freio na hora de consumir. Então, para enxugar as despesas, Paulo e Mayra tomaram decisões que eles mesmos consideram drásticas. A primeira foi demitir a empregada doméstica. Venderam os dois carros que tinham e trocaram por um modelo mais barato.
Até mesmo o plano de saúde teve de ser encerrado. Para não deixar o neto Daniel — de apenas 11 meses — desassistido, o pai de Mayra passou a arcar com a despesa. O casal diminuiu as duas saídas semanais para jantar fora. Agora, são duas por mês. Cortou as férias com a família no verão passado. Paulo cancelou a matrícula na academia onde malhava. Já a mulher deu adeus às compras.
— Antes, toda a semana eu estava com pelo menos uma peça de roupa nova ou um sapato diferente. Agora, não é mais assim — relata Mayra.
Rafael Leão, analista econômico da Austin Rating, acredita que a base estatística pode fazer a fazer com que o resultado do PIB do segundo semestre fique mais forte, de certa maneira podendo camuflar os problemas do modelo econômico:
— A indústria da transformação deve fechar o ano com um crescimento de 1,8%, não só graças às medidas que devem aquecer a produção, mas também pela base de comparação mais fraca no segundo semestre, ou seja, o resultado poderá ser favorecido por um efeito estatístico — afirmou o economista da empresa de classificação, que reduziu sua estimativa do PIB para este ano de 3,2% para 2,9%.
