Luis Pellegrini
Brasil247
Há políticos talhados para trabalhar à luz do sol e há políticos feitos para a sombra. As coisas se complicam quando quem é do dia resolver agir na noite, e vice-versa.
Foto: Edição/247
Há políticos talhados para trabalhar à luz do sol. É o caso de Lula, por natureza de seu caráter e gosto do espalhafato; e também de Dilma, por evidente desejo pessoal de pragmatismo, ordem e clareza.
Há políticos feitos para trabalhar na sombra. No passado, nosso melhor exemplo foi Golbery do Couto e Silva, rei dos bastidores durante os últimos governos militares; no presente, o destino melhor desenhado para agir por trás das cortinas parece ser o de José Dirceu.
As coisas se complicam, e quase sempre não dão certo, quando quem é do dia resolve agir na noite, e vice-versa. Vide o caso recente do rendez-vous entre Lula e Gilmar. Deu no que deu, com evidente prejuízo para o ex-presidente que tanta dificuldade demonstra em suportar o prefixo.
Carma é carma, diria algum experto em filosofia oriental. Cada macaco no seu galho, confirmaria algum sábio matuto.
Assim é que, ao ver as imagens que abrem estas considerações – Dirceu ainda líder estudantil a discursar em cima do carro; Dirceu no último congresso da UNE, conclamando os estudantes a sair às ruas em sua defesa – fica-se a pensar se o mesmo equívoco não está sendo cometido mais uma vez.
Vociferar em cima do carro – e tudo aquilo que isso simboliza – contribuiu para a sua prisão e subsequente exílio, pondo em sério risco a sua própria vida. Chamar aos brados os estudantes só serve para levantar as orelhas dos patrulheiros de plantão, os que, como disse na Folha de 12/06 o produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto, não perdem a ocasião de perguntar “Por qué no lo matan?” toda vez que o nome de Dirceu é citado.
Os meninos da UNE não sairão às ruas por você, Dirceu. Nem por ninguém. Melhor seria você ter recorrido ao pessoal da Parada Gay, a classe social mais corajosa da atualidade brasileira. Eles, pelo menos, não têm medo de dizer a que vieram. Sua companheira de partido, a senadora Marta, que também é política diurna, sabe disso muito bem. Por isso participou da parada no último domingo, e o fez de forma exponencial, vestida de estrasses e paetês, sambando no alto do trio elétrico que abriu o desfile.
Fale com ela. Marta é sabida, e poderia lhe ensinar uma porção de truques úteis, Dirceu. Outro que certamente teria muito a lhe dizer é o próprio general Golbery. Pena que esteja agora em algum canto do purgatório, provavelmente entretido na releitura de algum clássico da literatura esotérica e ocultista, da qual sempre foi ávido consumidor.
Golbery gostava do Lula e provavelmente gostava de você também, Zé Dirceu. Achava a participação de vocês importante no processo de abertura democrática que encetou nos bastidores da ditadura, e que levou, entre outras coisas, à criação do primeiro partido realmente popular do Brasil, o PT. Pelo menos isso é o que disse Jarbas Passarinho, alguém que também sabe das coisas, em entrevista. O general via Lula como uma espécie de avatar de Gandhi, um combatente da desobediência civil. Apaixonado por mitologia, ele certamente tentaria enquadrar você nos panos arquetípicos de algum herói olímpico. Prometeu, por exemplo. Aquele que roubou o fogo dos deuses e o deu aos homens, e que por isso foi punido por Zeus a permanecer amarrado no alto de um rochedo, tendo seu fígado diariamente devorado por uma águia. O fígado, como sabemos – sede da bile e da raiva – é um dos poucos órgãos do corpo humano capaz de se regenerar.
Em interessante estudo sobre a pessoa e o papel político de José Dirceu, Gilson Caroni Filho, jornalista e professor de sociologia da Facha (Faculdades Integradas Hélio Alonso, no Rio de Janeiro) escreveu: “Em raras ocasiões, na conturbada história política brasileira, houve tamanha unanimidade em torno de qual deve ser o destino de um ator político relevante. Diariamente, em colunas e editoriais dos jornalões, em solenidades com acadêmicos e políticos de extração conservadora, em convescotes de fim-de-semana da burguesia ‘cansada’, todos os que chegam aos holofotes da mídia proferem a mesmíssima sentença: é preciso banir de uma vez por todas da vida pública o ex-ministro José Dirceu.”
Por que tamanha pusilanimidade e açodamento? Por acaso, acertada ou erradamente, ele é o único a subir e continuar subindo no carro? Se for condenado no processo do Mensalão, expiará sozinho essa culpa? Deve recair apenas sobre sua cabeça o estigma de maquiavelismo? Ora, deixemos as piadas de lado. Estamos no Brasil.
Sempre detestei a hipocrisia. Razão pela qual recorro ao general, que no reino dos mortos não mais precisa dessas artimanhas, para que envie, através de alguma forma benévola de mediunidade, uma resposta à questão: “Por qué no lo matan a José Dirceu?”
O apelo foi atendido: “Por medo”, responde o velho militar. “Medo do que ele representa como símbolo: a perenidade da esquerda”.
A resposta é séria. Não devemos esquecer que, em matéria de medo, Golbery tinha PHD e era catedrático. Sabia o que dizia quando escreveu: "Na verdade, é a insegurança generalizada e crescente em que se debate, agoniada, a humanidade de hoje, o ópio venenoso que cria e alimenta essas hórridas visões, capazes, entretanto, de se tornarem uma realidade monstruosa".
Querer o fim de alguém é uma realidade monstruosa, não há dúvidas. Sua única segurança, Dirceu, é permanecer fiel a seu destino de político das sombras. Com condenações mensaleiras ou não, sabemos de antemão que todos os participantes desse processo – juízes, acusados, acusadores, advogados e promotores, inclusive o público da assistência – irão depois à pizzaria comemorar com margheritas, napolitanas e calabresas. Inclusive você.
Toque portanto o seu barco, Dirceu. Como um pai para um filho, Golbery lhe manda apenas um último recado. Diz que você deve, sim, agora e no futuro, continuar com suas investidas. Mas para conseguir lugar melhor na posteridade, e não terminar como ele num canto qualquer do purgatório, deve aceitar de uma vez por todas que, na ação política, como em qualquer outro setor da vida, o que realmente conta e importa são os meios, e não os fins.
Mensalão com dinheiro, portanto, nunca mais.
