segunda-feira, agosto 06, 2012

‘Espírito olímpico’ deu lugar a ‘obrigações de patrocínio’?


Hugo Souza
Opinião & Notícia

Os Jogos Olímpicos da era moderna parecem balizados menos pela confraternização dos povos pelo esporte e mais por patrocínios e marketing

(Divulgação)
O McDonald's - restaurante oficial dos Jogos Olímpicos de Londres -
 solicitou a proibição da venda de batatas fritas em 800 restaurantes britânicos

Na última segunda-feira, dia 23 de julho, o McDonald’s, “restaurante oficial” dos Jogos Olímpicos que começam nesta sexta-feira, 27, publicou em sua página na internet dedicada às Olimpíadas de Londres algumas linhas sobre o “espírito olímpico”. Falou-se no lema olímpico, Citius, Altius, Fortius, explicou-se que a expressão latina significa “mais rápido, mais alto, mais forte”, e exaltou-se o juramento olímpico escrito pelo Barão de Coubertin:

“A coisa mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas participar, assim como a coisa mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta. O essencial não é ter vencido, mas ter lutado bem”.

O McDonald’s fez até um concurso cultural valendo viagens a Londres, sob o slogan “Viver o Espírito Olímpico”, e calhou de um dos vencedores ser o jovem Lucca de Barros Casalenovo, habitante de uma cidade mineira chamada — veja só — Patrocínio. Nada mais emblemático!

Mais do que ninguém, Ronald McDonald sabe de cor que, em Olimpíadas dos tempos que correm, lado a lado com o chamado “espírito olímpico”, figura um outro conceito, este bem menos, digamos, abstrato: as “obrigações de patrocínio”.

Exclusividade de batatas fritas
Alguns dirão que o espírito, o olímpico, já foi há tempos substituído pelas obrigações, as assumidas junto a multinacionais de vários ramos, em um evento balizado menos pela confraternização dos povos através do esporte e mais por patrocínios e marketing.

Veja a polêmica causada pelo próprio McDonald’s nas Olimpíadas 2012. Ronald solicitou ao Comitê Organizador dos Jogos de Londres que fosse proibida venda de batatas fritas em 800 restaurantes localizados nas 40 sedes olímpicas espalhadas pelo Reino Unido.

Pedido feito, pedido atendido: às vésperas do início dos jogos, os restaurantes receberam instrução para retirar as batatas fritas dos seus cardápios em submissão a elas, as “obrigações de patrocínio” — com uma exceção, a do Fish and Chips, prato mais tradicional da culinária britânica. Este, nem a McFritas conseguiu desbancar.

Quadro de medalhas e cotas de ‘sponsors’
Outro patrocinador das Olimpíadas de Londres 2012 que levou ao limite sua prerrogativa de exclusividade foi a operadora de cartão de crédito Visa. A empresa exigiu a remoção de 27 caixas eletrônicos que haviam no entorno das sedes dos jogos e as substituiu por oito cabines onde só entram cartões da sua própria bandeira. O presidente da maior empresa de caixas automáticos do Reino Unido protestou, evocando o “espírito olímpico” contra o poder econômico: “as pessoas estão se reunindo para celebrar a excelência desportiva e devem ser autorizados a fazê-lo, sem entraves pela manobra comercial de patrocinadores”.

Diria o mesmo se fosse ele mesmo um patrocinador? O fato é que, nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, como em jogos pregressos e nos futuros (como as Olimpíadas do Rio em 2016), mais importante do que o quadro de medalhas talvez sejam as cotas de “sponsors”…

Por falar em 2016, o Rio de Janeiro que se cuide. Há casos de cidades-sede dos jogos que amargaram prejuízos olímpicos, como Montreal, no Canadá, que depois de 1974 levou décadas para pagar as dívidas assumidas. Esse risco diminuiu a partir da ascensão justamente dos grandes patrocinadores, mas, tendo em vista que os organizadores dos jogos do Rio recentemente admitiram que perderam as contas de quanto o país gastará com o evento, não é difícil que fiquemos no vermelho quando o COI, o McDonald’s e a Visa desarmarem o circo e forem se apresentar em outras praças.

Caro leitor,
Você acha que o “espírito olímpico” evaporou, ou apenas “materializou-se”, por assim dizer, no pragmatismo da contabilidade dos grandes eventos internacionais?

As Olimpíadas estão demasiadamente reféns das “obrigações de patrocínio”?

Ou o COI e as cidades-sede estão certos ao se curvar às exigências das grandes marcas, tendo em vista que só com o investimento de grandes empresas é possível arcar com os custos da organização dos jogos?