sábado, agosto 04, 2012

O "ão" importante é o do feijão


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Mensalão é importante, o julgamento no Supremo vai ocupar todos os meios de comunicação. Mas, para cada um de nós, muito mais importante é o preço dos alimentos, é o bloqueio das estradas, é o abastecimento em geral. Dá para viver muito bem sem saber de Mensalão - Lula, por exemplo, diz que não sabia, e toca a vida normalmente; mas carne, arroz, feijão e pão mudam a vida de todos nós.

Com a greve dos caminhoneiros e o bloqueio de estradas, a batata já subiu 150% no atacado - daí para o varejo é um pulinho. Outros setores estão ameaçados: aves, carne e leite, pela falta de ração; rações, pela falta dos ingredientes; produtos agrícolas em geral, pela falta de transporte. E não é só questão de espera: muita coisa, como hortaliças e produtos refrigerados, é para consumo imediato. Não há como guardá-los. E como exportar frutas se os caminhos para portos e aeroportos estão bloqueados, com risco de agressão a quem tentar passar?

Nos tempos de Collor, a ministra da Economia, Zélia Cardoso de Melo, ficou irritadíssima com as críticas à demora na liberação do crédito agrícola. Como dizia, só atrasou um mês. Totalmente urbana, a ministra não sabia que há um momento certo para plantar. Um mês depois é tarde demais.

Este Governo faz como o de Collor: deixa para depois. Só na terça o ministro dos Transportes conversou com os grevistas, o que devia ter feito antes da greve. A situação é difícil: os ânimos estão acirrados, negociar exige mexer na lei. Talvez tudo seja resolvido, mas o impasse parece grave. Sem caminhões o país para.

A lei e o protesto
A lei 12.619 cria uma série de normas para o trabalho dos caminhoneiros - normas que, a propósito, são absolutamente corretas. E por que os protestos? Vejamos um item: os caminhoneiros têm de parar a cada quatro horas rodadas e descansar meia hora. Reclamam, no caso, da infraestrutura inexistente: onde é que vão estacionar? Se houver postos com estacionamento, terão de pagar por ele, e o frete, alegam, é insuficiente para isso. "O trabalhador paga para rodar. É obrigado a aceitar frete baixo, senão não tem dinheiro nem para o diesel", diz Jose Acácio Carneiro, do Movimento União Brasil Caminhoneiro. 

Algo semelhante ocorre no descanso diário obrigatório de onze horas, entre o término de uma etapa da viagem e o início de outra: a viagem fica mais longa e o frete se torna insuficiente. Enfim, há muito a discutir - e o Governo Federal começou tarde.

Mensalão, enfim
Sete anos depois da denúncia dos fatos, o Supremo Tribunal Federal inicia o julgamento dos 38 do Mensalão. O PT ainda luta para que o julgamento ocorra após as eleições, para não influenciá-las; e a imprensa mais ligada ao partido garante que a maior parte da população não se interessa pelo tema. Bom, se ainda não se interessa, vai se interessar, com a avalanche diária de notícias. 

E, se não há interesse, por que tanta luta para que o caso seja julgado só após as eleições?

Hora de refletir
É importante não transformar o julgamento do Mensalão numa partida de futebol, eles contra nós. Cabe ao Supremo julgar os réus de acordo com as leis e as provas dos autos; cabe à população aguardar com calma. Exigir condenações ou absolvições, caso contrário o julgamento terá sido desonesto, é um erro: sempre haverá quem se decepcione com as sentenças, mas dificilmente o decepcionado terá o conhecimento do processo e o saber jurídico dos ministros do Supremo. 

O juiz e a moça
Estranhíssimo o episódio envolvendo o juiz Alderico Rocha Santos e Andressa, esposa do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Ele a acusa de tê-lo ameaçado com um dossiê, que seria publicado na Veja, se não libertasse seu marido. Mas:

1 - Não é habitual que o juiz receba parentes de réus. Habitual é receber os advogados. Mas concordou em recebê-la. Exigiu manter sua assessora na sala. 

2 - Ela pediu que a assessora saísse, para falar a sós com ele. Ele aceitou. Se queria uma testemunha, por que depois desistiu dela?

3 - Segundo o juiz, ela o ameaçou. Poderia prendê-la imediatamente, por coação no curso do processo. Não o fez. Mais tarde, mandou prendê-la. A fiança foi fixada em R$ 100 mil, mas poderia ser paga alguns dias depois. O habitual é que a fiança seja paga antes da libertação. Credifiança não é comum.

4 -Ainda mais estranho: logo após o episódio, o advogado de Cachoeira, Márcio Thomaz Bastos, desistiu de defendê-lo e retirou sua equipe do caso. Não deu os motivos, mas as datas coincidem. 

Terá considerado inaceitável a conduta de Andressa? Que é que ele sabe que nós não sabemos?

Mordomia sempre!
A deputada estadual petista Telma de Souza, mais uma vez candidata à Prefeitura de Santos, não resiste a um carro oficial: nesta segunda, chegou ao hotel em que o ex-presidente Lula tirava fotos com todos os candidatos do PT no carro oficial da Assembléia Legislativa de São Paulo. Fotografada, irritou-se e não quis dar entrevista: só disse que aproveitou a viagem, já que a Assembléia é perto do hotel de Lula.

A candidata petista não achou nada de estranho em usar carro, combustível e motorista pagos com dinheiro público em sua campanha.

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