Lá, em caso de roubalheira, o camarada vai do palácio para a cadeia. Confira esses casos
(Foto: Jeff Haynes / Reuters)
ROD BLAGOJEVICH --
Acusação: como governador de Illinois, extorquia empresários e chegou
a leiloar a cadeira de senador antes ocupada por Barack Obama.
Pena: 14 anos de prisão
Mensalão: DO PALÁCIO PARA A CADEIA
Por que Washington, a capital que os americanos amam odiar, nunca foi tomada de assalto por uma “organização criminosa” – e, se tivesse sido, a quadrilha de mensaleiros teria recebido punição exemplar
Larry Seabrook tem 61 anos e viveu as últimas três décadas como estrela na política de Nova York. Foi deputado, senador estadual e vereador eleito pelo Bronx. Agora, depois de ser apanhado desviando milhares de dólares de dinheiro público através de uma fundação, passará a velhice na cadeia.
No julgamento realizado na semana passada, a defesa de Seabrook não contestou a existência da rede de corrupção. A tese dos seus advogados é que Seabrook não sabia de nada. Familiar? Era o chefe, contratou todos os envolvidos, mas não sabia de nada. Não colou. O caso de Seabrook, que demorou dois anos do começo da investigação à sentença da semana passada, não tem nada de especial.
Ele é apenas o mais recente político corrupto a ser mandado para a cadeia – mas é exatamente por isso, por ser apenas mais um caso entre vários, que sua condenação tem valor pedagógico.
Nos EUA, quando os políticos saem da linha, o braço da lei chega logo
Quando A repetida punição de corruptos que atuam nos níveis inferiores da política – nas prefeituras e câmaras de vereadores, nas assembleias e governos estaduais – é o anteparo que preserva Washington, a capital federal, do cotidiano de escândalos de corrupção. Como as instituições estaduais e municipais funcionam e a vigilância é incessante, é mais difícil que ladrões, mensaleiros e criminosos diversos consigam chegar ao Congresso americano. Quando chegam, o braço da lei revela-se longo.
Na década passada, no governo de Bush filho, o célebre lobista Jack Abramoff pintou e bordou em Washington, subornando políticos e servidores públicos para atender aos interesses de seus clientes. O escândalo derrubou o líder da maioria republicana na Câmara de Representantes, o poderoso deputado Tom DeLay, que recebia mimos variados do lobista, entre eles uma viagem à Escócia para jogar golfe.
O caso terminou com dezenove encarcerados: oito trabalhavam no governo e onze, no Congresso. No ano passado, DeLay foi finalmente julgado. Pegou três anos de cadeia. Está apelando em liberdade.
Neste momento, dois ex-governadores estão na cadeia. Um deles pegou 14 anos
Para um brasileiro, é mais difícil encontrar um governador na cadeia do que o bóson de Higgs. Nos Estados Unidos, neste momento, há dois ex-governadores em cana – ambos de Illinois. Na economia americana, Illinois tem importância equivalente à do Paraná no Brasil, mas na crônica da corrupção política vale por duas Alagoas.
Um dos ex-governadores presos é Rod Blagojevich, o Blago. Monitorado por escutas telefônicas do FBI, ele foi apanhado achacando meio mundo e leiloando a cadeira de senador antes ocupada pelo presidente Barack Obama. [Obama deixou sua cadeira de senador quando foi eleito presidente e, nos EUA, ultrapassada a metade do mandato de um senador que vai para outro posto, quem designa o sucessor que completará o mandato é o governador do Estado.]
O outro é George Ryan, antecessor de Blago. Condenado por suborno, tráfico de influência e desvio de dinheiro de campanha, pegou seis anos e meio. Sairá da prisão em julho de 2013, aos 79 anos. Em Illinois, a média é de um governador na prisão por década.
Como a corrupção parece não recuar, o juiz do caso de Blago resolveu dar-lhe uma sentença dura, para servir de exemplo aos políticos do Estado: catorze anos de prisão. Por isso, os Blagos da política penam para chegar a Washington.
Há também prefeitos, deputados estaduais, vereadores…
Nos últimos dois anos, houve mais de vinte casos de corrupção que alcançaram alguma repercussão nacional envolvendo ocupantes de cargos públicos – todos terminaram em prisão. Na última década, foram quase noventa. Parece muito, mas é uma impressão comum apenas para os que não estão habituados a ver gatos gordos e ratos magros na cadeia.
Nessa massa, há prefeitos, deputados estaduais e vereadores, e servidores públicos que ocupam cargos não eletivos. Quando o corrupto tem um cargo de prestígio, as sentenças costumam ser pesadas. Salvatore DiMasi ocupava a presidência da Assembleia de Massachusetts, posto de enorme destaque. Embolsou 65 000 dólares para favorecer uma empresa de software. Foi condenado a oito anos de cadeia. Sua vida virou um inferno. Na prisão, descobriu-se com câncer na língua e o banco penhorou o imóvel onde ele e sua mulher moravam.
A sucessão de casos de corrupção nos níveis estadual e municipal dá aos americanos a sensação de viver num vulcão de roubalheira. O jornalista Clyde Haberman, do The New York Times, escreveu uma coluna irônica dizendo que Nova York estava fazia muito tempo – sete semanas – sem uma acusação formal de corrupção, e aí apareceu Larry Seabrook.
Na alfinetada final, Haberman dizia que Nova York não corria o risco de esgotar o estoque de corruptos no banco dos réus porque Albany, capital do estado, jamais decepcionará. O veterano jornalista só não sabe o que é um mundo ao contrário, aquele em que políticos nunca se sentam no banco dos réus. Ou, quando se sentam, logo se levantam livres, leves e soltos.
VEJA DEZ CASOS DE GATOS GORDOS QUE ESTÃO NA PRISÃO
Carl Kruger
Acusação – Embolsar cerca de 1 milhão de dólares para defender interesses de empresários quando era senador no estado de Nova York
Pena – Sete anos de cadeia
Don Siegelman
Acusação – Receber 500 000 dólares para sua campanha ao governo do Alabama e, eleito, nomear o doador para um cargo no governo
Pena – Sete anos de prisão
George Ryan
Acusação – Aceitar suborno e fazer tráfico de influência como governador de Illinois
Pena – Seis anos e meio de prisão. Em julho de 2013, terá cumprido toda a pena
John Rowland
Acusação – Como governador de Connecticut, favorecia empreiteiras que faziam obras de graça em sua casa de campo
Pena – Dez meses de cadeia e quatro de prisão domiciliar
Ken Ard
Acusação – Desviar dinheiro da campanha para vice-governador da Carolina do Sul
Pena – Cinco anos sob vigilância, multa de 5 000 dólares e 300 horas de serviço comunitário
Larry Seabrook
Acusação – Como vereador de Nova York, desviava dinheiro público para si mesmo e para amigos, por meio de uma fundação
Pena – Foi condenado, mas a pena ainda não foi definida
Pedro Espada
Acusação – Como senador estadual de Nova York, desviava dinheiro de clínicas financiadas pelo governo
Pena – Foi condenado, mas aguarda a fixação da pena
Richard Miranda
Acusação – Embolsar 230 000 dólares de uma entidade agrícola no Arizona quando cumpria mandato de deputado
Pena – Vinte e sete meses de prisão e multa de 230 000
Salvatore Dimasi
Acusação – Receber 65 000 dólares, como deputado em Massachusetts, para favorecer uma empresa de software
Pena – Oito anos de prisão e multa de 65 000 dólares
Terry Spicer
Acusação – Como deputado no Alabama, aceitou dinheiro e favores para atender aos interesses de um lobista
Pena – Quatro anos e nove meses de prisão










