sábado, agosto 04, 2012

UM MENSALÃO não teria vez nos EUA

Reportagem de André Petry, de Nova York, publicada na edição de VEJA que está nas bancas


Lá, em caso de roubalheira, o camarada vai do palácio para a cadeia. Confira esses casos



(Foto: Jeff Haynes / Reuters)
ROD BLAGOJEVICH -- 
Acusação: como governador de Illinois, extorquia empresários e chegou
 a leiloar a cadeira de senador antes ocupada por Barack Obama. 
Pena: 14 anos de prisão 

Mensalão: DO PALÁCIO PARA A CADEIA

Por que Washington, a capital que os americanos amam odiar, nunca foi tomada de assalto por uma “organização criminosa” – e, se tivesse sido, a quadrilha de mensaleiros teria recebido punição exemplar

Larry Seabrook tem 61 anos e viveu as últimas três décadas como estrela na política de Nova York. Foi deputado, senador estadual e vereador eleito pelo Bronx. Agora, depois de ser apanhado desviando milhares de dólares de dinheiro público através de uma fundação, passará a velhice na cadeia.

No julgamento realizado na semana passada, a defesa de Seabrook não contestou a existência da rede de corrupção. A tese dos seus advogados é que Seabrook não sabia de nada. Familiar? Era o chefe, contratou todos os envolvidos, mas não sabia de nada. Não colou. O caso de Seabrook, que demorou dois anos do começo da investigação à sentença da semana passada, não tem nada de especial.

Ele é apenas o mais recente político corrupto a ser mandado para a cadeia – mas é exatamente por isso, por ser apenas mais um caso entre vários, que sua condenação tem valor pedagógico.

Nos EUA, quando os políticos saem da linha, o braço da lei chega logo
Quando A repetida punição de corruptos que atuam nos níveis inferiores da política – nas prefeituras e câmaras de vereadores, nas assembleias e governos estaduais – é o anteparo que preserva Washington, a capital federal, do cotidiano de escândalos de corrupção. Como as instituições estaduais e municipais funcionam e a vigilância é incessante, é mais difícil que ladrões, mensaleiros e criminosos diversos consigam chegar ao Congresso americano. Quando chegam, o braço da lei revela-se longo.

Na década passada, no governo de Bush filho, o célebre lobista Jack Abramoff pintou e bordou em Washington, subornando políticos e servidores públicos para atender aos interesses de seus clientes. O escândalo derrubou o líder da maioria republicana na Câmara de Representantes, o poderoso deputado Tom DeLay, que recebia mimos variados do lobista, entre eles uma viagem à Escócia para jogar golfe.

O caso terminou com dezenove encarcerados: oito trabalhavam no governo e onze, no Congresso. No ano passado, DeLay foi finalmente julgado. Pegou três anos de cadeia. Está apelando em liberdade.

Neste momento, dois ex-governadores estão na cadeia. Um deles pegou 14 anos
Para um brasileiro, é mais difícil encontrar um governador na cadeia do que o bóson de Higgs. Nos Estados Unidos, neste momento, há dois ex-governadores em cana – ambos de Illinois. Na economia americana, Illinois tem importância equivalente à do Paraná no Brasil, mas na crônica da corrupção política vale por duas Alagoas.

Um dos ex-governadores presos é Rod Blagojevich, o Blago. Monitorado por escutas telefônicas do FBI, ele foi apanhado achacando meio mundo e leiloando a cadeira de senador antes ocupada pelo presidente Barack Obama. [Obama deixou sua cadeira de senador quando foi eleito presidente e, nos EUA, ultrapassada a metade do mandato de um senador que vai para outro posto, quem designa o sucessor que completará o mandato é o governador do Estado.]

O outro é George Ryan, antecessor de Blago. Condenado por suborno, tráfico de influência e desvio de dinheiro de campanha, pegou seis anos e meio. Sairá da prisão em julho de 2013, aos 79 anos. Em Illinois, a média é de um governador na prisão por década.

Como a corrupção parece não recuar, o juiz do caso de Blago resolveu dar-lhe uma sentença dura, para servir de exemplo aos políticos do Estado: catorze anos de prisão. Por isso, os Blagos da política penam para chegar a Washington.

Há também prefeitos, deputados estaduais, vereadores…
Nos últimos dois anos, houve mais de vinte casos de corrupção que alcançaram alguma repercussão nacional envolvendo ocupantes de cargos públicos – todos terminaram em prisão. Na última década, foram quase noventa. Parece muito, mas é uma impressão comum apenas para os que não estão habituados a ver gatos gordos e ratos magros na cadeia.

Nessa massa, há prefeitos, deputados estaduais e vereadores, e servidores públicos que ocupam cargos não eletivos. Quando o corrupto tem um cargo de prestígio, as sentenças costumam ser pesadas. Salvatore DiMasi ocupava a presidência da Assembleia de Massachusetts, posto de enorme destaque. Embolsou 65 000 dólares para favorecer uma empresa de software. Foi condenado a oito anos de cadeia. Sua vida virou um inferno. Na prisão, descobriu-se com câncer na língua e o banco penhorou o imóvel onde ele e sua mulher moravam.

A sucessão de casos de corrupção nos níveis estadual e municipal dá aos americanos a sensação de viver num vulcão de roubalheira. O jornalista Clyde Haberman, do The New York Times, escreveu uma coluna irônica dizendo que Nova York estava fazia muito tempo – sete semanas – sem uma acusação formal de corrupção, e aí apareceu Larry Seabrook.

Na alfinetada final, Haberman dizia que Nova York não corria o risco de esgotar o estoque de corruptos no banco dos réus porque Albany, capital do estado, jamais decepcionará. O veterano jornalista só não sabe o que é um mundo ao contrário, aquele em que políticos nunca se sentam no banco dos réus. Ou, quando se sentam, logo se levantam livres, leves e soltos.

VEJA DEZ CASOS DE GATOS GORDOS QUE ESTÃO NA PRISÃO

Carl Kruger


Acusação – Embolsar cerca de 1 milhão de dólares para defender interesses de empresários quando era senador no estado de Nova York

Pena – Sete anos de cadeia




Don Siegelman

  

Acusação – Receber 500 000 dólares para sua campanha ao governo do Alabama e, eleito, nomear o doador para um cargo no governo

Pena – Sete anos de prisão




George Ryan


Acusação – Aceitar suborno e fazer tráfico de influência como governador de Illinois

Pena – Seis anos e meio de prisão. Em julho de 2013, terá cumprido toda a pena




John Rowland


Acusação – Como governador de Connecticut, favorecia empreiteiras que faziam obras de graça em sua casa de campo

Pena – Dez meses de cadeia e quatro de prisão domiciliar




Ken Ard

  
Acusação – Desviar dinheiro da campanha para vice-governador da Carolina do Sul

Pena – Cinco anos sob vigilância, multa de 5 000 dólares e 300 horas de serviço comunitário



Larry Seabrook


Acusação – Como vereador de Nova York, desviava dinheiro público para si mesmo e para amigos, por meio de uma fundação

Pena – Foi condenado, mas a pena ainda não foi definida




Pedro Espada


Acusação – Como senador estadual de Nova York, desviava dinheiro de clínicas financiadas pelo governo

Pena – Foi condenado, mas aguarda a fixação da pena




Richard Miranda


Acusação – Embolsar 230 000 dólares de uma entidade agrícola no Arizona quando cumpria mandato de deputado

Pena – Vinte e sete meses de prisão e multa de 230 000





Salvatore Dimasi


Acusação – Receber 65 000 dólares, como deputado em Massachusetts, para favorecer uma empresa de software

Pena – Oito anos de prisão e multa de 65 000 dólares




Terry Spicer


Acusação – Como deputado no Alabama, aceitou dinheiro e favores para atender aos interesses de um lobista

Pena – Quatro anos e nove meses de prisão