sexta-feira, setembro 28, 2012

Em se plantando


Carlos Brickmann
Observatório da Imprensa

Abre-se o jornal e lá está, em tom de notícia exclusiva, a informação: pesquisa interna de um partido indica que seu candidato está caindo mais do que manga madura e perdendo a posição para seu principal adversário. A informação vai para o rádio, a Internet, os blogs, os repórteres em geral. Só que não há lógica na coisa: se o partido faz uma pesquisa interna, com o objetivo de ajustar sua campanha, e essa pesquisa é desfavorável, por que diabos o próprio partido a divulgaria? As informações internas da campanha seguem a Lei de Ricúpero: o que é bom pode ser vazado, o que é ruim fica escondido.

OK, aí sai a pesquisa normal dos institutos, e verifica-se que a tal informação, além de ilógica, era também falsa. E daí? Daí que até agora se finge, nos meios de comunicação, que esse tipo de erro é cometido de boa-fé. Não, não é: certas informações, quando improváveis, têm de ser verificadas cuidadosamente, com cruzamento de fontes e tudo. Se eventualmente forem publicadas e se comprovarem falsas, cabe ao veículo de comunicação abrir a fonte, identificar quem é que está tentando fazer campanha eleitoral com a plantação de noticiário. Se nada disso foi feito, certamente o procedimento jornalístico foi falho.

Pesquisa influencia eleição? Em certas circunstâncias, pode influenciar diretamente o resultado, ampliando uma onda, ajudando a murchar uma posição. Normalmente, tem influência indireta, inflando ou reduzindo contribuições de campanha. Pesquisa honesta faz parte do jogo democrático; pesquisa desonesta deve ser combatida na Justiça, até para minar a credibilidade de quem eventualmente a faça. 

Mas números plantados não são nem pesquisa: são a demonstração de que um profissional ou veículo tomou partido, ou que cobre a eleição com descaso inadmissível para um evento de tamanha importância.

Que língua é essa?
Júlio César, o grande comandante romano, falava uma só língua - e tão bem que seus livros são até hoje usados nas aulas de latim. Churchill só falava uma língua, e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Os meios de comunicação brasileiros contratam apenas gente que fale pelo menos duas línguas, estude uma terceira e tenha um quarto cheio de diplomas, de preferência internacionais. 


Bem, este colunista acompanhou um grande jornal durante uma semana, sempre procurando uma única palavra: o verbo "agradecer". Não houve nenhuma regência correta: agradecer alguma coisa a alguém. O que havia era "o agradeceu", "Sicrano agradeceu Fulano". "agradeceu-o". E uma frase daquelas de demolir todas as regências, mas com outro verbo: "é um direito que os assiste". São coisas que dão muita saudade dos revisores - cujo trabalho, a propósito, não era corrigir erros de português, e sim de tipografia.

Mas este não é todo o problema. Os meios de comunicação adoram usar termos parecidos como se fossem sinônimos. Por exemplo, se alguém tem aparência jovem, ou juvenil, usam "jovial" - que quer dizer "alegre" e não tem nada a ver com idade. Se um automóvel tem acabamento simples, dizem que é "simplório" - que quer dizer "tolo". Um doce fino, exclusivo, é chamado de "especiaria" - que quer dizer "tempero", não tem nada a ver com "especialidade". E bagatela, claro, quer dizer bugiganga, coisa de pouco valor. Exceto nos meios de comunicação, onde se imagina que "bagatela" é uma fortuna daquelas capazes de seduzir baciadas de mensaleiros. 

Há, nos meios de comunicação, quem fale muitas línguas. Mas não há jeito de escrever "cast", que em inglês significa "elenco", "equipe": preferem "casting", que é a formação de elenco. Quando alguém diz que fulano está no "casting" da emissora, gostaria de dizer que ele foi contratado - mas diz, na verdade, que ele está participando da escolha de quem será contratado.

O "button", aquele botãozinho de lapela, é chamado de "botton", "bottom", de tudo, menos por seu nome tão simples. De botão, jamais: qual o charme de usar um objeto com nome tão brasileiro?

A melhor que este colunista viu nos últimos dias se refere às eleições: os partidos fazem pesquisa para uso interno, "tracking". E saiu "trekking" - prática de esportes radicais. Tudo bem, não é preciso falar e entender várias línguas: é só não usá-las no lugar do velho e bom Português. 

Esplendor e sepultura
É festa, caro colega. Uma reportagem sobre os problemas do Palmeiras informa que outros times que estiveram em situação semelhante "há 14 rodadas do fim" foram rebaixados. Um jogador entrou em campo, não jogou nada e ainda levou amarelo. "O jogador ironizou o pouco tempo em campo, aferindo que só teve tempo de ser advertido". Ou "mais um resultado negativo faria com que a situação se tornasse praticamente irredutível". Será que queriam dizer "irremediável"? Talvez: "irredutível", que não pode ser reduzido, ou que não pode ser movido, é que não podia ser.