Veja online
Descoberta feita a partir de análise genética pode levar a novos tratamentos com drogas já aprovadas para casos de câncer em outras partes do corpo
(Thinkstock)
Câncer de mama:
Pesquisa classifica doença em quatro classes principais
A mais ampla análise genética já realizada sobre o câncer de mama, publicada neste domingo no site da revista Nature, reclassificou a doença em quatro tipos principais. Os pesquisadores encontraram mutações genéticas que podem aproximar o câncer de mama a outros tipos de câncer, como o de ovário. O achado revela uma nova maneira de ver a doença, que pode passar a ser definida não apenas pelo órgão que ele afeta.
A investigação identificou pelo menos 40 alterações genéticas que podem ser atacadas por medicamentos — dentre eles, muitos já foram desenvolvidos para outros tipos de câncer que têm as mesmas mutações. A nova classificação divide o câncer de mama nas seguintes classes: HER2 amplificado, Luminal A, Luminal B e basal. Essa divisão foi feita com base em dados antes não disponíveis, que identificaram novos caminhos de atuação do tumor, possibilitando aos pesquisadores novos alvos para combater a doença.
A maior surpresa do estudo envolveu um tipo de câncer atualmente conhecido como triplo negativo, mais frequente em mulheres mais jovens, em negras e em mulheres com genes cancerígenos BRCA1 e BRCA2. Segundo os pesquisadores, os distúrbios genéticos tornam esse tipo de câncer mais similar ao do ovário do que a outros cânceres de mama. Suas células também se assemelham às células escamosas do câncer de pulmão.
O estudo dá uma razão biológica para se tentar os tratamentos de rotina para câncer de ovário neste tipo de câncer de mama. E uma classe comum de drogas usadas no câncer de mama, as antraciclinas, pode ser descartada, já que não ajudam muito no câncer ovariano.
Atlas genético –
Para os autores do trabalho, essas descobertas deverão levar a novos tratamentos com drogas já aprovadas para os casos de câncer em outras partes do corpo, além de novos tratamentos mais precisos no combate a anomalias genéticas que hoje não têm tratamento. "O estudo é a indicação do caminho para uma cura do câncer no futuro"”, diz Matthew Ellis, da Universidade de Washington, um dos especialistas envolvidos na pesquisa.
O estudo é parte de um amplo projeto federal americano, o Atlas do Genoma do Câncer, destinado a criar mapas de mudanças genéticas em cânceres comuns. O levantamento sobre o câncer de mama foi baseado numa análise de tumores em 825 pacientes.
Opinião do especialista
José Luiz Bevilacqua
Mastologista
do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo
"Esse artigo é muito
importante e interessante, já que o estudo foi feito por pesquisadores de todo
o mundo e tem proporções enormes. A pesquisa recolheu dados de pacientes com
tumores na mama e analisou, de forma bastante completa, aspectos de genes, RNAs
e DNAs desses tumores.
A equipe conseguiu analisar as
características genéticas desses quatro subtipos de câncer de mama descritos,
compreendendo quais são os tipos e a quantidade de mutações genéticas dos
tumores que ocorrem em cada grupo.
Com base nessa análise
detalhada, o estudo mostrou que um desses grupos, associado a um tipo agressivo
e resistente a quimioterapias de câncer de mama, se assemelha ao câncer de
ovário. Esse resultado abre uma certa perspectiva para sabermos como tratar
esse tipo de câncer de mama, mostrando, talvez, que ele deva ser tratado de
forma parecida com o câncer de ovário."
CONHEÇA
A PESQUISA
Título original: Comprehensive
molecular portraits of human breast tumours
Onde foi divulgada: revista Nature
Quem fez: Elaine Mardis, Richard Wilson, Matthew Ellis e Ron Bose
Instituição: Universidades
de Washingotn e de Harvard, nos Estados Unidos, Universidade British Columbia,
no Canadá, e outras
Dados de amostragem: 825
pacientes com câncer de mama
Resultado: A
partir da análise de novos dados genéticos, o câncer de mama foi classificado
em quatro tipos principais. Essas informações também apontaram para uma relação
entre a doença e o câncer de ovário. As descobertas podem ajudar no
desenvolvimento de novos tratamentos para a doença
