sexta-feira, setembro 21, 2012

Surpresa paralisante


Carlos Brickmann 
Observatório da Imprensa

As eleições para a Prefeitura de São Paulo mostram um quadro diferente do habitual: o líder nas pesquisas é o candidato de um partido nanico, sem ligação com os mamutes da política local, PSDB e PT. Esta mudança no quadro eleitoral deixou perplexos os meios de comunicação: todos já tinham farto material de crítica aos candidatos dos dois grandes partidos, mas nada tinham providenciado a respeito do nanico. E, como as duas grandes legendas pouparam o líder nas pesquisas, pensando em afastar do segundo turno o candidato do principal partido adversário, o candidato-surpresa até agora navegou tranquilamente, sem que pontos estranhos de seu passado político-partidário tenham sido trazidos à tona. 

E não é que falte material: Celso Russomanno, a novidade das eleições paulistanas, é sócio de um cavalheiro condenado à prisão por violação da ordem tributária; duplicou seu patrimônio entre 2010 e 2012, sem grandes explicações. Está sendo processado por falsidade ideológica, por ter transferido seu domicílio eleitoral para Santo André, onde se candidatou a prefeito, sem jamais ter-se mudado para lá. Há muitas histórias circulando, mas não há repórter que as investigue. Falsas ou verdadeiras? Como no antigo programa de TV, Você Decide. E decide sem qualquer colaboração dos meios de comunicação, que continuam ecoando a disputa entre o segundo colocado nas pesquisas, o tucano José Serra, e o terceiro, Fernando Haddad, esquecendo exatamente o primeiro.

Serviço público
Os meios de comunicação consideram importantíssimas as redes sociais e a correspondência eletrônica, tanto que praticamente todos os grandes e médios estão na Internet, têm edições on-line e fazem chamadas para suas páginas eletrônicas no noticiário impresso; e muitos dos grandes veículos oferecem endereços de e-mail. Todos têm, também, dedicado muito espaço às novidades tecnológicas da área, de e-books a tablets, com matérias minuciosos sobre aplicativos.

OK, já que o assunto interessa aos meios de comunicação, que tal cuidar também de seus clientes, e não apenas dos anunciantes? Pode procurar: nenhum veículo procura os emissores conhecidos de spams para saber por que insistem em mandar suas mensagens a pessoas que já declararam formalmente que não querem recebê-las. Não, não se trata daqueles spams que buscam disseminar vírus, ou vender produtos que não existem: aqui se trata de empresas de porte, cuja falha principal é saturar as caixas postais (e a paciência) de quem cai nas suas listas de possíveis clientes. Lojas como a Wal-Mart, por exemplo, ou a Dafiti, incluem em todas as suas mensagens o link para descadastramento; só que ignoram totalmente os pedidos e não descadastram ninguém. Trabalham de duas formas diferentes: ou "parceiros" - outras empresas que enviam as mesmas ofertas de que o receptor quer se livrar - ou vão mesmo na ignorância, recebendo os pedidos de descadastramento, comunicando que os clientes foram atendidos e descadastrados, e continuando a enviar seus spams como se nada tivesse ocorrido.

Que é que os meios de comunicação podem fazer? Uma pesquisa, por exemplo, mostrando quantas pessoas estão sendo prejudicadas com o envio do lixo eletrônico, e quanto tempo desviado do serviço é desperdiçado em sua eliminação; ou uma reportagem didática, mostrando como denunciar, como produtoras de spam, as empresas que insistam em enviá-lo, de maneira a que sejam incluídas nas listas de indesejáveis. Pautas não faltam; é só levar em conta o que dizia Octavio Frias de Oliveira a respeito da importância de Sua Excelência, o leitor.

Reportagem, reportagem 1
Um assíduo leitor desta coluna se considera discriminado: gostaria de ter o mesmo tratamento das multinacionais que produzem automóveis no país. Entre 2009 e 2012, informa, as fábricas receberam R$ 2,2 bilhões para pesquisa. Que pesquisa? Os carros, segundo informam as próprias empresas, são produtos globais, mundiais, apenas adaptados a determinadas circunstâncias de cada país. Para colocá-los em condições de rodar no Brasil, basta reforçar a suspensão por causa da buraqueira, reprogramar a injeção eletrônica para que o carro ande com esses combustíveis que nos são fornecidos, reduzir os itens de segurança, já que a legislação brasileira é bem menos dura que a estrangeira. E tudo isso já está pesquisadíssimo - ou alguém acha que as fabricantes de equipamento de injeção eletrônica não têm ainda o mapeamento dos combustíveis nacionais?

Traduzindo, o BNDES dá, com juros baixinhos e prazos bem longos, dinheiro para pesquisar o que já está pesquisado. Aliás, se houvesse necessidade de fazer novas pesquisas, isso seria da competência das próprias empresas, já que não há nenhuma tecnologia revolucionária em criação.

E a imprensa? Os cadernos de veículos continuam fascinados com frases como "estrutura fluida", com a potência que os motores "entregam" (é assim que dizem), com a delicadeza dos materiais de acabamento. Quais as modificações que um carro global sofre para entrar no mercado brasileiro? Quanto isso custa? E, considerando-se que as fábricas são donas do resultado das pesquisas, por que não são elas que as pagam?

Este colunista também gostaria de ter alguma verba para pesquisa. E simplesmente ficaria com ela, sem atochar o país com mais carros e mais poluição.

Reportagem, reportagem 2
Ah, a educação! Será o construtivismo a solução mais adequada? E a progressão continuada, será ela um bem ou um mal? Mais matérias no currículo, para garantir uma visão ampla da realidade, ou menos matérias, para que os estudantes possam focar melhor seus esforços e aprendê-las com mais profundidade?

Tudo isso deve ser importantíssimo. Mas há certas coisas inaceitáveis que os meios de comunicação aceitam como fatos da vida, em vez de investigar o que está acontecendo por trás das manifestações exteriores de ignorância. Um exemplo está no cartaz afixado na porta de determinada escola, informando que não haveria aula na sexta-feira, 7 de Setembro, dia da Proclamação da República.

Errar é humano, tudo bem. Mas justo numa escola, e um erro desses?

Reportagem, reportagem 3
Assim que tomou posse no Ministério da Cultura, a senadora Marta Suplicy do PT paulista, mostrou a Lídice da Mata, do PSB baiano, um e-mail no qual seu suplente, Antônio Carlos Rodrigues, do PR paulista, é classificado como "evangélico" e "homofóbico". Marta era a relatora do projeto que tornava crime a homofobia; e Rodrigues, se herdar a relatoria, pode mudar o que está sendo feito e afastar do PT o voto evangélico, especialmente em São Paulo.

A foto de Iano Andrade é impecável: ele aproveitou a oportunidade e fez um trabalho tecnicamente perfeito, permitindo ler todo o e-mail. Mas os meios de comunicação se limitaram à foto e à legenda. A história por trás da foto ainda precisa ser contada: por que, por exemplo, Marta escolheu para suplente alguém que considera homofóbico; como pretende evitar que a luta contra a homofobia seja prejudicada. Seria terrível imaginar que, ao aceitar o Ministério em troca de seu apoio ao candidato petista Fernando Haddad, Marta tenha pensado apenas em si mesma.