Josias de Souza
Ao ler a parte do seu voto na qual condenou Delúbio Soares por corrupção ativa, a ministra Cármen Lúcia disse que a defesa do réu lhe proporcionou algo “inédito” em toda sua “vida profissional”. Referia-se à admissão da defesa de que o PT fez caixa dois. Um lero-lero que a maioria dos ministros do STF já rechaçou.
“Alguém afirmar que houve ilícito, com a tranquilidade que se fez aqui, é realmente algo inusitado e inédito na minha vida de profissional. [...] Como se o ilício fosse uma coisa normal, que pudesse ser alegada tranquilamente.”
No dizer da ministra, ao tentar dar “uma nova capitulação ao crime de corrupção, a defesa de Delúbio como que disse à plateia: “ora, brasileiros, o ilício é normal.” Em homenagem ao óbvio, Cármen Lúcia declarou: “A ilegalidade não é normal. No Estado de direito, muito mais quando se atua no espaço público, o ilícito há de ser processado, verificado e, se comprovado, punido.”
Presidente do TSE, Cármen Lúcia fez questão de dizer que as alegações da defesa lhe causaram “um profundo desconforto.” Dá gosto ouvi-la: “Acho estranho e muito, muito grave que alguém diga, com toda tranquilidade: ‘ora, houve caixa dois’. Caixa dois é crime. Caixa dois é uma agressão à sociedade brasileira. Caixa dois, mesmo que tivesse sido isso ou só isso, e isto não é só, e isto não é pouco.”
A ministra prosseguiu: “Dizer isso da tribuna do Supremo Tribunal ou perante qualquer juiz me aprece realmente muito grave, porque fica parecendo que ilícito no Brasil pode ser praticado, confessado e tudo bem. Não é tudo bem! Tudo bem é estar no Brasil, num Estado de Direito, quando todo mundo cumpre a lei.”