Humberto Viana Guimarães*
Jornal do Brasil
Metas governamentais são inatingíveis
O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2021), com as metas para o período entre 2011 e 2021, foi disponibilizado para Consulta Pública pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no dia 24/09, através do site www.epe.gov.br. O Plano dá uma ampla visão dos objetivos governamentais para o setor energético até o ano 2021. No entanto, no que se refere ao setor de geração de energia elétrica, afirmo que as metas ali colocadas são inatingíveis, como analisarei a seguir.
O PDE 2021 prevê um representativo incremento de 65.910 MW da potência instalada – 116.498 MW, 31/12/2011 para 182.408 MW, 31/12/2021 –, ou seja, um crescimento de 56,58% em 10 anos (pág. 74/386). CORREÇÃO: somando-se os valores constantes das tabelas citadas mais abaixo (42, 43 e 44), o total do acréscimo é de 61.487 MW e não o constante do PDE; portanto, deverão ser corrigidas as tabelas ou o gráfico da página 74/386 para que haja adequação dos números.
Esse aumento da potência instalada (61.487 MW) foi distribuído em dois períodos: 1) de 2012 e 2016: 1.1) expansão de biomassa (1.804 MW), PCH (768 MW) e eólica (6.630 MW), total = 9.202 MW; e 1.2) expansão hidrotérmica contratada e em construção, com 32.612 MW, distribuídos entre 15 hidrelétricas (22.415 MW) e 35 termelétricas (10.197 MW), tabelas 42 e 43, respectivamente (pág. 76/386); e 2) de 2017 a 2021: novos projetos hidrelétricos a serem viabilizados, com um total de 19 UHEs (19.673 MW), tabela 44 (págs. 77 e 78/386).
Absolutamente inatingível! Por quê? Basta observar que a expansão contratada e em construção está concentrada no período entre 2012 e 2016. Para se cumprir esse objetivo, teria que haver uma oferta média anual de 8.363 MW (41.814 MW/5), potência equivalente a 2,7 UHE Santo Antônio (3.150 MW). Ademais, há que se ter presente que, nesse período, das 15 UHEs previstas, sete estão localizadas na Região Norte com potência de 20.878 MW, aí incluída a polêmica e slow-and-go UHE Belo Monte, recém-iniciada, com uma potência instalada de 11.233 MW. Com tantas interferências, greves e palpiteiros nacionais e internacionais de toda espécie, é o tipo do empreendimento stop-and-go, ou seja, não há prazo seguro para o seu término.
Para o período entre 2017 e 2021, para o qual estão previstos 19.673 MW a ser viabilizados e provenientes da hidroeletricidade (19 UHEs), o panorama, também, não é nada confortável, pois a quase a totalidade dos empreendimentos, 17.627 MW – 89,60% – estão localizados na Região Amazônica, com o agravante de que as UHEs desse período sequer foram licitadas.
É interessante observar que, por fim, as autoridades do setor energético abriram os olhos para o fabuloso potencial eólico do Brasil, estimado em mais de 130.000 MW. Por outro lado, vemos que foi dado um incremento para as termelétricas – mais caras e poluentes –, em detrimento do enorme potencial para geração a partir da biomassa, limpa e renovável – só a cana-de-açúcar tem um potencial real em torno de 40.000 MW –, que foi deixado de lado e tem uma pífia participação de 2,93% do total (1.804 MW).
Não obstante a preferência pela geração hidrelétrica – limpa, renovável e barata –, é importante ressaltar que do total de 42.088 MW a ser implantado nas diversas regiões, a quase totalidade – 38.505 MW, o que representa 91,49% – está localizada na Região Norte, o que mostra de forma inconteste ser essa região a última grande fronteira para este tipo de geração. A título de comparação, para a Região Sudeste, onde atualmente está o maior potencial instalado, estão previstos somente 1.243 MW, o que não representa nem 10% do total de Itaipu (14.000 MW).
É importante ressaltar que há um fator preocupante nessa concentração de empreendimentos na Região Amazônica, pois a maioria das hidrelétricas previstas para essa região é do tipo “fio d’água”, sem reservatórios, ou seja, toda vazão afluente (a água que chega à barragem) é diretamente turbinada ou vertida (se for no período de grandes cheias). Ou seja, nos rios onde as variações de nível são muito representativas, como, por exemplo, o rio Xingu – somadas aos cada vez mais intensos períodos de seca –, há o risco real de se ter que desligar todas as turbinas de uma hidrelétrica por falta de água necessária para geração. Tendo em vista a extensão deste assunto, o mesmo será tratado em outro texto.
* Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento.