Editorial
O Globo
Desempenho de Capriles indica que Chávez terá de levar em conta, no novo mandato, a opinião de 6 milhões de eleitores que pedem mudanças
Hugo Chávez provou mais uma vez sua capacidade de sobrevivência. Física, porque há 15 meses luta contra um câncer que o manteve muito tempo internado em Havana, sem abrir mão do poder. E política, porque derrotou a investida mais bem organizada da oposição, unida em torno de Henrique Capriles nas eleições presidenciais de domingo. Capriles fez uma bela campanha, mas Chávez lançou mão da poderosa máquina de propaganda estatal e dos subsídios de todo o tipo com os quais conquista o apoio das classes menos favorecidas, mesmo às custas de graves desequilíbrios nas finanças públicas.
O pleito mostrou que há duas visões distintas na Venezuela. A chavista, ainda majoritária, e a oposicionista, que obteve 44,5% dos votos, atraindo 6 milhões de eleitores. Chávez felicitou a oposição “porque reconheceu a vitória do povo, a vitória bolivariana”, e isto, declarou, “é um passo muito importante na construção da paz na Venezuela, da convivência entre nós”. A frase traz embutido um problema. Ele se refere à “vitória do povo”, como se os demais 6 milhões que votaram em Capriles povo não fossem. Como bem lembrou o oposicionista, “um bom presidente deve trabalhar por todos os venezuelanos”. Pressionar Chávez a fazê-lo é o novo desafio da oposição que emergiu das urnas, um amálgama de partidos de várias tendências que terá de se manter unida para defender o terreno que conquistou. O próximo teste já está marcado: as eleições para governadores, em dezembro.
A revolução bolivariana de Chávez conseguiu alguns feitos, a partir da injeção dos bilhões de dólares obtidos com as exportações de petróleo. A pobreza passou de 50,4% em 1998 para 31,6% em 2011. O desemprego caiu de 16,6% para 7,9%. Mas a produção de petróleo despencou de 3,5 milhões de barris/dia em 1998 para 2,4 milhões este ano. A inflação foi de 20% em 1999 para 27,9% ano passado e continua em alta.
A violência disparou e hoje Caracas é a capital mais perigosa da América Latina. A infraestrutura está em frangalhos, com estradas e pontes desmoronando e frequentes apagões. O país importa 80% do que consome, e as reservas se esvaem, graças também ao assistencialismo chavista para aumentar a influência externa. A oposição estima que, de 2005 a 2011, cerca de US$ 82 bilhões foram destinados a países aliados. A Venezuela substituiu a ex-URSS como mantenedora de Cuba, que recebeu US$ 28,5 bilhões naquele período. Calcula-se que sejam enviados a Cuba 120 mil barris de petróleo/dia.
Essa política de apoio a aliados políticos jamais foi discutida com a sociedade venezuelana, que certamente teria outras prioridades para tamanhos gastos. Mais um sinal de que Chávez, com mais seis anos de mandato, precisa abandonar a postura de caudilho messiânico. Mas dificilmente o fará.