Lucianne Carneiro
O Globo
Indústria da aviação tem custo alto e é pouco rentável, afirmam especialistas
RIO – Aumento do preço do petróleo, alta do dólar e elevadas taxas aeroportuárias são algumas das razões que comprometem o ganho das empresas aéreas em todo o mundo. No Brasil, as dificuldades ainda incluem uma infraestrutura precária, apontam especialistas. Para enfrentar este cenário, o mercado brasileiro vive um período de concentração de mercado, com a união de Trip e Azul e agora o fim da Webjet, que vai reduzir a oferta de voos e deve levar a aumento no preço das passagens aéreas para os consumidores.
— É uma atividade extremamente difícil no mundo e muito mais no Brasil. Não tem uma empresa aérea no Brasil que não fechou suas portas e vai continuar acontecendo assim — afirma a gerente de análise da Lopes Filho & Associados, Leila Almeida.
O professor da Fundação Dom Cabral Paulo Vicente Alves lembra que a indústria de aviação é uma das menos rentáveis entre os diferentes setores. Sem possibilidade de inovação, as empresas competem entre si por horários e preços, o que compromete suas margens de lucro.
— A longo prazo, a cada pancada de preço de petróleo algumas empresas vão à falência — diz Alves.
Combustível subiu 16% no ano
Diferentemente da gasolina e do diesel, cujos preços são controlados no Brasil, o querosene de aviação (QAV) acompanha a variação do preço do petróleo no mercado externo, com reajustes mensais. A alta acumulada do QAV este ano é de 16%. Ano passado, já tinha subido 33%.
Os reajustes das tarifas aeroportuárias também vêm impactando o resultado das companhias. No caso da Gol, as despesas com esse item subiram 50%, para R$ 426 milhões nos nove meses encerrados em setembro.
Na opinião da professora de Engenharia de Produção da COPPE/UFRJ Heloisa Pires, o excesso de promoções e a tentativa de encher os voos a qualquer preço acabou comprometendo a rentabilidade das empresas:
— O negócio de aviação civil é caro. Às vezes as empresas vendem passagens a preços atraentes, o que é ótimo a curto prazo, mas não é sustentável. É inviável ser barato viajar de avião. Alguém tem que pagar a conta — diz Heloisa, lembrando o dilema das companhias de acharem o preço ideal para atrair passageiros, mas capaz de manter as empresas financeiramente bem.
Apesar do custo, o consultor José Wilson Massa avalia que o setor aéreo vive paradoxo, já que o número de passageiros cresce a ritmo anual superior a 10% nos últimos dez anos:
— De um lado, vemos mais passageiros e, do outro, os balanços negativos das empresas. O preço do querosene subiu, mas seria mais compreensível um resultado ruim se não houvesse mais passageiros.
Diante da concentração de mercado e da menor oferta de voos, a tendência é que os preços das passagens subam, apontam os especialistas.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
É importante refletir sobre a declaração que grifamos acima, da Professora Heloisa Pires. Não é de hoje que criticamos a política comercial desencadeada pela TAM e, principalmente, pela GOL. Não sustentabilidade nestes preços baratinhos que estas companhias praticam, diríamos até que se trata de concorrência predatória.
O mercado da aviação doméstica cresceu incrivelmente nos últimos e, no entanto, cada vez mais se observa de monopólio deste mercado. Ao invés de expansão, observa-se concentração.
Este é um aspecto que a ANAC deveria atentar cuidadosamente porquanto esta concentração é danosa seja para as companhias médias que poderiam investir e ampliar o próprio mercado mas acabam sendo tragadas pelas companhias TAM e GOL , seja para os usuários que ficam sem opção e sujeitos a serviços de baixa qualidade.
E um detalhe: no caso da GOL, seu prejuízo já ultrapassou em 2012 a casa de 1 bilhão de reais. Isto no curto prazo será sustentável.